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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

"Fotografo porque busco a mudança do mundo", Danilo Nascimento

Foto: Davi

Danilo Nascimento aprendeu a fotografar vendo o pôr do sol, o Rio São Francisco. E, hoje, seu amadurecimento profissional também flui naturalmente. Captar uma imagem é trocar energia com o objeto captado. Fotografia se transforma em história.

Radicado em Belo Horizonte – mas ainda fortemente ligado a sua raiz, Pirapora –, nesta entrevista, Danilo submerge aos níveis profundos de seu ofício: o aprendizado trocado entre espaço, indivíduo e fotografia; a dimensão política; suas origens; a perspectiva, materializada em imagem, de quem mora longe do lugar que ama; a compreensão de que o fotógrafo é testemunha do seu lugar e do seu tempo. Deste mergulho, ele emerge para apontar a necessidade de mudança. A fotografia pode transformar o mundo.


Danilo, a fotografia captura instantes. O que apenas um instante revela sobre o lugar, sobre a pessoa fotografada?

A fotografia tida como um instante congelado no tempo sempre revela um conjunto de sentimentos e energia trocados entre o objeto (lugar ou a pessoa) e eu. Por isso cada imagem revela a minha energia pessoal em interação com a energia do objeto fotografado. Se não estivermos em sintonia, provavelmente não teremos boas fotos.


Você tanto se dedica à captura de imagens que acontecem por si mesmas, as imagens espontâneas, quanto à captura de imagens manipuladas pelo seu olhar. O que te dá mais prazer em fotografar? Quais as diferenças?

As imagens espontâneas são as mais interessantes e as que mais gosto de fazer. Tenho um projeto chamado Citadino que tem essa proposta de observar as relações pessoais no meio urbano sem pré-conceitos e julgamentos, como alguém que está invisível e inserido nesse meio sem ser notado, não influenciando em nada. Esse trabalho é um dos que mais tenho me dedicado no momento. A diferença entre a fotografia espontânea e aquela em que podemos manipular o objeto fotografado (retrato, em caso de pessoas) está na beleza do inesperado. Quando as pessoas sabem que são fotografadas, elas se preparam para o retrato, então já não são naturais. Entretanto, quando elas não sabem da foto, a ação natural prevalece, revelando a magia da ação espontânea.



Da série Citadino


O que te despertou para a fotografia?

A beleza da natureza despertou a fotografia em mim. A vontade de eternizar cada imagem bela que se forma nos fenômenos naturais. Sempre gostei de fotografar paisagens, em especial, pores do sol. A fotografia surgiu como uma fuga do estresse.


E hoje, por que ainda fotografa?

A motivação já é outra, não é somente um refúgio. Tenho um compromisso em tornar melhor o universo em que vivo. Busco impactar as pessoas com minhas fotos, ora pela simples beleza de uma imagem, ora pelo incômodo de temas polêmicos que tiram a mente dos espectadores do conforto de uma falsa sensação de que apenas pela fé podemos tornar o mundo melhor e que tudo pode ser revertido quando quisermos. Fotografo ainda hoje porque eu busco a mudança do mundo, e se eu conseguir acender uma pequena centelha no pensamento crítico das pessoas com minhas fotos, já estarei satisfeito. Outro motivo que me mantém nessa jornada é que tenho recebido mensagens de pessoas que passaram a admirar mais a arte depois que passei a publicar meus trabalhos. Isso me mantém querendo aprimorar meus conhecimentos, minha visão, minhas técnicas e, consequentemente, todas as histórias que conto nas minhas fotos. 


Você disse que fotografa para transformar o mundo. O quão transformadora pode ser uma imagem?

A fotografia, assim como todos os tipos de arte, tem o poder de transmitir emoção às pessoas, sendo prazer ou incômodo. A fotografia, por si só, traz um conceito intrínseco, à primeira vista é possível ver a realidade, mas o conceito só aparece quando a imagem é esmiuçada pelo alinhamento olho, cérebro, coração. Gosto sempre de relacionar minhas fotos com algum contexto, conceito ou frase que exprima meus sentimentos no momento em que fiz a imagem. As pessoas são sensíveis, se conectam facilmente com a arte e são tocadas, os pensamentos e atitudes podem ser modificados.


Seu pai já foi pescador e até hoje mantém uma forte ligação com o Rio São Francisco. Você produz ensaios sobre a cultura barranqueira, como o excepcional Poesia e Sugestão. O que interliga esses dois fatos?

Meu pai me ensinou a respeitar a natureza e as pessoas, ele é meu mestre. Eu, como um bom discípulo, sigo os ensinamentos dele, construindo meu próprio caminho e respeitando os valores ensinados. Por isso, tenho essa forte ligação com o Rio São Francisco, pois nasci e vivi como barranqueiro. Hoje sofro com os maus tratos que a natureza vem sofrendo, em especial, o nosso Velho Chico, pois me sinto como se fosse parte dele.

O ensaio Poesia e Sugestão foi muito especial, pois envolveu um contexto literário totalmente engajado à história da modelo e pude contar com a participação da Prof. Bethânia Passos na elaboração do conceito. Além disso, conseguimos encaixar dois elementos que são marcantes para mim, pôr do sol e o Rio São Francisco. O fato é que estou mais inspirado quando estou no ambiente barranqueiro.





Do ensaio Poesia e Sugestão


Atualmente, você vive em Belo Horizonte. Como é Pirapora vista de longe? O que você aprende com a distância?

Pirapora vista de longe é saudade, é vontade de retornar e de poder trabalhar para cuidar dessa terra que sofre com o descuido de políticos. Quando não estamos inseridos diretamente em uma situação e apenas a observamos de longe, temos uma percepção diferente, não melhor, nem pior, apenas diferente. Estando de fora, eu valorizo mais as belezas naturais e enxergo algumas oportunidades de melhoria na cidade que fariam muita diferença na vida dos barranqueiros.


Quais as melhorias mais urgentes?

Vou citar três pontos críticos que enxergo com clareza e que necessitam de uma atenção especial. Primeiramente, a Ponte Marechal Hermes, que é maravilhosa, um patrimônio tombado, e se encontra em uma situação deplorável. Há alguns anos, se não me engano 24 de dezembro de 2012, uma criança caiu entre as tábuas da ponte e morreu. Poderia acontecer com qualquer um de nós. Além disso, os apoios da ponte, assim como toda sua estrutura estão comprometidos pela oxidação, sem falar na iluminação precária.

Outro ponto é o próprio Rio São Francisco. Qualquer um que viveu a sua beira pode perceber a mudança para pior. Diversas ilhas estão se formando e a margem está avançando sobre o leito do rio. O assoreamento está aumentando, há muito lixo e o canal que passa no Barreiro, também passa no Saae, mas deságua no Rio sem nenhum tipo de tratamento. O Rio é responsabilidade de todos e devemos cobrar que seja cuidado.

Por fim, o desenvolvimento urbano. Percebo que Pirapora teve uma pequena evolução desde que saí de lá, mas o crescimento poderia ter sido bem maior. Tenho muita vontade de voltar, mas não posso contar com isso, sabendo que não tem um mercado de trabalho que possa me absorver. Pirapora tem muitos artistas e existem duas opções para eles: ou se jogam no mundo ou vão morrer sem nem mesmo serem vistos pelos seus próprios conterrâneos.


Qual é a sua melhor fotografia?

É difícil falar em melhor fotografia, mas uma das que mais gosto é esta:


Eu não tinha pretensão de ser fotógrafo profissional quando a fiz, assim como outras fotos de que gosto muito. Essa fotografia me dá a sensação de ser o próprio Rio.



***

Entrevista: Douglas de Oliveira Tomaz.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

“Todo mundo tem medo do bairro do outro” – Bairro Nossa Senhora Aparecida, Pirapora (MG)

Estacionamos o carro na antiga rua dos cabarés, batizada oficialmente como rua Rio Grande do Norte. Ouvi dizer que, na época do transporte fluvial pelo Velho Chico, quando Pirapora foi um ponto importante de carga-descarga, embarque-desembarque, nesta rua concentraram-se muitos cabarés, disse para David, que olhava perdido para as casas tentando encontrar resquícios desse passado narrado. É mesmo? respondeu-me admirado, gente, que beleza.





 

Assim iniciamos nossa caminhada pelo bairro Nossa Senhora Aparecida, berço da cidade de Pirapora (MG), bairro de pescadores, lavadeiras, marujos, mulheres da vida, gente que ia e vinha, seja de casa pro rio, do rio pra casa, ou do rio para outros lugares. Pirapora sempre foi cidade de movimento – ao contrário do que pensam alguns atuais moradores que só veem permanência no lugar onde o Rio São Francisco está em constante ir embora.

Era tarde de uma quinta-feira, dia comum, exceto pelo sol brando, ideal para caminhadas. Mais à frente, um grupo de crianças brincando correu em direção a nós, que tirávamos fotos de velhas construções em ruínas: o que cês tão fazendo? perguntaram-nos. Tirando fotos, algum de nós respondeu. E vocês só tiram fotos de casa velha? Não, de qualquer coisa relacionada ao bairro, respondemos entre risos. Ah! – saíram correndo, de volta para a brincadeira.

Outro morador, que ajudava os meninos a confeccionar uma pipa, também chegou até nós, incomodado com esses dois rapazes desconhecidos tirando fotos de seu pedaço. Chegou num tom de quem cuida da cria, meio desconfiado, demarcando território. Logo dissemos que estávamos fazendo um ensaio fotográfico sobre o bairro, o que lhe desfez os vincos da testa. Fiquem à vontade, nos disse no final da curta conversa, como se abrisse as portas de sua casa, autorizando mexer na geladeira.

Nessa hora, Ludmila, também moradora, cruzou a rua falando alto em tom de deboche com esse morador que nos recepcionara. Ludmila anda tranquila pelas ruas do bairro, trocando palavras com qualquer pessoa que passa, como um eixo articulador de piadas e conversas. Olhou-nos de relance, tirou sarro do jovem morador dizendo que ele estava grande demais para brincar de pipa, ao que ele respondeu com outro sarro, coisa de gente íntima. Prosseguimos caminhada. Ludmila entrou numa casa, depois saiu, sempre nos olhando de relance, curiosa, também desconfiada. Desconcertados, chegamos até ela, pedindo entrevista. Ludmila parece ser dessas pessoas sempre prontas para tirar foto, tirar sarro, impor-se. Parecia também estar em todos os lugares, ser alguém importante para o bairro, embora tenha nos confessado morar ali apenas há cinco anos. Parados na esquina, nos disse:


– Todo mundo tem medo do bairro do outro. Eu adoro meu bairro! Aqui antes era perigoso, não dava nem pra andar na rua, com medo de bala perdida. Hoje tá tranquilo.

– O que mudou? – perguntamos.

– Aí cê me pegou. Não sei. Talvez o povo ruim tenha sido preso.

– Talvez esse povo tenha tomado jeito.

– É.


Após a conversa, como suspeitado, autorizou a foto sem nenhuma resistência.




***

Dona Maria, 83 anos, colocava o lixo na calçada de casa, numa das muitas vielas do bairro. Nossa conversa rendeu bastante, quase puxamos cadeira, pedimos café – quase.


– Moro há 70 anos em Pirapora, vim da Bahia. No bairro Aparecida, moro há 55 anos. Eu que construí minha casa, quando eu cheguei só tinha canudo, conhece canudo? Um mato que dá assim, pontudo.

– Outra moradora me disse que aqui antes já foi perigoso, mas melhorou. A senhora acha que melhorou?

– Não sei. Será que já foi mais perigoso? Não sei. Nesse meu pedaço é tranquilo, de vez em quando acontece umas coisas ali detrás, esses trem de droga. Mas hoje todo lugar tem, né? Todo lugar tem desacerto.


Dona Maria serenamente nos conta como foi ter sua casa inundada pela enchente de 79 e, transportando a questão da moradia para a atualidade, revela, com certo assombro, que os moradores estão aterrando a lagoa que apelida o bairro e construindo casas sobre. Nem existe lagoa mais, diz. E o rio? Não gosto nem de ir lá, complementa, referindo-se à atual seca enfrentada pelo São Francisco. Dona Maria gosta de conversa e, após um grande silêncio, denúncia da prosa que finda, pergunta, meio afirmando: Cês tão procurando saber disso tudo aí pra escrever depois? É, respondo. E, sorrindo, balança afirmativamente a cabeça, como se eu respondesse o óbvio, como se já tivesse passado por muitas entrevistas e estivesse calejada dessa gente desconhecida que aparece fazendo perguntas do nada. Sobretudo, Dona Maria parece gostar dessa gente, embora já a conheça o bastante. Antes da despedida, reluta para tirar a foto, diz estar velha demais e detestar fotografia. Após muita insistência, posa desconfiada, sem qualquer entrega.




***

A visita terminou na Rua da Liberdade, lugar de festas juninas memoráveis, segundo contam. Entramos na ONG Afrogerais, que realiza trabalho de resgaste da cultura afro-brasileira com crianças e adolescentes do bairro, oferecendo gratuitamente oficinas de capoeira, bordado e dança. Lá encontramos Ivani, moradora da Vila Branca, outro bairro de periferia da cidade, mas assídua frequentadora deste. Cansados de caminhada, repousamos no exuberante jardim da casa e na fala de Ivani que, distante o suficiente para generalizar na análise, mas próxima o suficiente para empunhar afeto no que diz, assim definiu o Nossa Senhora Aparecida:


– É o termômetro da cidade. Se você quer saber se o carnaval tá bom, qual político vai ganhar, vá no bairro Aparecida. Acho que pela cidade ter nascido aqui, o bairro tem uma energia diferente.


Fomos embora conscientes de não termos percorrido nem um por cento do todo. Tudo é muito grande visto de perto. Por outro lado, algumas impressões não cabem em palavra alguma e não estão aqui. É preciso pisar para sentir. E o bairro Aparecida merece ver contada sua história. Existe algo muito forte enterrado aqui, disse para David, que se manteve calado para desenhar depois. Algo enterrado, mas que transborda pelas pichações nos muros, pelo alto número de praticantes de umbanda e candomblé silenciados, pelo histórico de marginalização, pela arquitetura barranqueira em ruínas. A palavra fúria, pichada em diferentes lugares, ecoa em minha cabeça enquanto saio do bairro. Pode ser uma boa definição para este algo enterrado, mostro a David. Ele concorda e sorri, cintilando belezas. 























domingo, 30 de novembro de 2014

As fotografias de Aparício Mansur



Minha mãe era poetisa, cresci ouvindo ela declamar seus poemas, ler seus escritos. Aos sete anos já tocava violão; no colégio, era líder em movimentos estudantis e grêmios onde comecei a escrever e editar em pequenos jornais da época. Como músico, participei de dois Festivais da Canção, venci os dois, sendo que em um deles primeiro e segundo lugar. Participava de peças teatrais e vivia sempre envolvido com todos esses eventos. Com o passar dos anos, os caminhos foram mudando, ou melhor, as opções ficaram mais maduras. Passei a me dedicar então às fotografias, aos estudos e à luta pelo Meio Ambiente. Tornei-me professor para estar mais perto das crianças e adolescentes e, junto deles, lutar pelo rio, pelo resgate da nossa história, e na prevenção para um cuidado maior sobre esse nosso bem. 



Conheci o meu velho rio em 1981, e não sei por que, quando o vi, chorei, chorei muito, foi uma sensação muito estranha. A partir deste dia, nunca mais me afastei do rio e da cidade de Pirapora. Deixei toda uma vida já feita em Belo Horizonte e me mudei para cá. Casei aqui e pude e posso estar lutando pelo rio, através do meu site, do meu facebook, divulgando suas notícias, suas mazelas e sua luta pela sobrevivência.



O rio é um ser vivo, ele pulsa. Somente de uma maneira muito pessoal, ali, sentado à sua beira, acariciando suas águas, dá para sentir o quão vivo e importante ele é. Alimenta, refresca, transporta e faz sonhar.



- Aparício Mansur, em entrevista concedida ao Salto, 26 de novembro de 2014.

Aparício Mansur

Aparício Mansur é fotógrafo e se formou em Gestão Ambiental pela UFSC. Sua formação e atuação profissionais estão relacionadas, portanto, à fotografia e ao meio ambiente. Suas fotografias relativas às belezas naturais de Pirapora e região foram publicadas em jornais como O Globo, Estado de Minas, Hoje em Dia, O Tempo, Revista Estados e Municípios e diversos websites. Além disso, teve, por dois anos seguidos, fotografias da Ponte Marechal Hermes selecionadas entre as trinta melhores de Minas Gerais, em duas edições do Concurso Paisagens Mineiras, promovido pelo Jornal Estado de Minas e Diários Associados. Por fim, atua como repórter fotográfico e diretor do site www.velhochico.net.


facebook: Aparício Mansur

Fotografia que é rio - Marina Vargas Tomaz

Busco, através da fotografia, detalhes, coisas, objetos, cores minúsculas, imensas paisagens num espaço despercebido. Busco através do registro fotográfico, alcançar o que meu olho tenta ver, deseja registrar... Afinal, há tantas formas de olhar, tantos jeitos de ver... E são essas tantas visões do mundo, macro e micro, natureza, bicho, pedra, água, que procuro guardar, como numa preciosa coleção, pequenas grandes coisas, tesouros, pequenos presentes de acaso.



Meu processo de criação começa no rio. Posso dizer que em todas as imagens, existe um rio, uma cor rio, um cheiro e uma textura que me remetem ao tempo físico de proximidade e presença. Tudo é influência: a curva, o barulho das águas, o apito do vapor aos domingos, a areia, a correnteza leve e sua cor generosa acolhendo o tempo das chuvas e do sol, agregando ora força, ora dor, como agora.












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Marina Vargas Tomaz formou-se em Belas Artes, pela UFMG, e hoje mora em Uberlândia, onde trabalha como professora de artes para o ensino fundamental, além de cursar o mestrado em Artes Visuais pela UFU. Contribuiu com suas ilustrações para a série de livros infantis, em quatro volumes, As aventuras de Pira-Poré, de Maria Vargas, e para o projeto gráfico do CD A Barranqueira, de Priscila Magela. Segundo ela, “através da arte, podemos enriquecer nossas relações, melhorar nossa comunicação e estreitar nossos laços humanos e poéticos.”