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domingo, 21 de janeiro de 2018

Mal agradecido



No corpo de criaturas não mais estranhas da quase em estado de demência mente minha, digo: moram linhas abstratas escuras escritas por um salmista démodé. Tenho, no entanto, o bom ou mau senso de que tentar mudar o mundo mesmo quando a realidade se mostra cruel faz a gente ficar com aspecto de coitadinho. Então, é tentar viver até as banalidades extraordinariamente. Fingir que a felicidade, quem sabe, existe.

Neste espaço pequeno há uma infinidade de pássaros. De alguns nem sei os nomes. Quem aparece em maior quantidade são os pardais. Vêm, desde manhã, se esbaldar na ração dos empesteados cães. Ou no arroz cru que Andreia depois de molhar, deixar o pó escorrer, coloca ao sol para secar.

Juritis. Bem-te-vis. Anus. Pombos. Rolinhas pardas. Rolinhas pedreses. Tico-ticos.  Canários. Pássaros pretos. Maritacas. Cabecinhas-pretas. Sabiás. Pica-paus. Até araras temporãs aparecem. Uma vez vi no alto do abacateiro um jacu. Alguém me disse que jacu não é pássaro, é uma galinha capaz de voar. Senti, ainda, a impressão de ter visto garças, gaivotas, martim-pescador e marrecos d’água neste lote. Trem de causar inveja: ter o Velho Chico praticamente dentro dos muros que rodeiam a casa deste pobre mortal.

Insisto em achar que tais aves surgem de seus cantos de mato por causa da variedade farta de frutos nascidos em meu quintal: abacate, tangerina, umbu, seriguela, goiaba, caju, tamarindo, acerola, manga, mamão, jabuticaba.

Às vezes a solidão ousa me oprimir aqui. Desequilíbrio de não ter a coragem de deixar a cabeça nas nuvens e tirar os sapatos para sentir o chão com maior plenitude.

A natureza a girar em torno de mim como a Terra em torno do sol.

Pecado mortal de sentir infelicidade com tanta superfície bela onde os olhos pousarem.


***


Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro-MG há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015) e Piolhos (2016), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).

Ilustração: Vinícius Ribeiro. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Arrumar o quarto



Guardo esta noite para a reconciliação. Quantos voltaram a escrever após arrumarem o quarto. Uma noite inteira para olhar um a um os livros caídos. Se eu pudesse, fotografaria esta cascata. Quanto tempo? Me reconciliar com a poeira dos discos, das revistas, desempilhá-los, observá-los um a um em seu abandono, um quarto. Durante, arroz no fogo, meus dedos abandonam o corte da página, corte preciso, resto de cenoura. Geladeira abandonada. Retorno.

Coletar tomates de uma horta seca. Selecionar a audição de um disco, dois mil e oito. Procuro a data, não encontro. Pintura romântica na estampa da camisa que retiro da mala. Repovoar o guarda-roupa. Com o arroz prestes a queimar, deslizo meus dedos pelos cabides soltos, pelo desejo. A página em corte ainda vivo. Observo os dedos, tão longos para esta idade; de quem herdei os dedos, encaro a noite. Troco as cortinas. Agora a luz virá, quando for de vir.

Se eu pudesse pousar um porta-retrato sobre a escrivaninha. Se houvesse moldura possível para hoje, qual canto. O disco se interrompe sozinho, demoro a ouvir. Demoro a ouvir o silêncio do disco, quanto tempo calado, meu deus, quanto tempo. Cenoura em toco. Plantas semimortas. Cuidar da horta, trocar as cortinas, ainda não é hora de ir lá. Quase tropeço. De tanta demora, estou prestes a virar imagem.

Arrumar o quarto e só agora, dois mil e dois, voltar à casa que se foi. Abro uma revista, leio os resultados. Uma frase, uma história contada a partir de uma frase. Milena se suicida porque já não aguenta os arquejos da mãe. Escreve na borda de uma partitura: não aguento os arquejos de minha mãe. Procuro pelo autor da história dentro do quarto. Mas ele está fora, algo me diz que ele está lá. Ainda não é hora. Retiro da mala o pior dos agasalhos.

Se este texto for tentativa de me comunicar com Milena, não digo. Despetalo a rosa azul e procuro na pilha os livros do mar, que avançam em direção à cama. Londres dentro do quarto. Para que eu possa um dia reencontrar os rastros e perseguir o mar através dos livros como quem procura nas mesmas pétalas azuis a rosa de antes. Dois mil e sete. Arrumar o quarto e ir deixando rastros de uma passagem vaga que no entanto acumula louças, e a poeira quem tira?

Deitar sobre a cama, afastar os livros para evitar o corpo a corpo noturno. Após comer uma comida triste. Após o disco reiniciado quantas vezes. Deitar sobre a cama, afastar as canetas, a jangada em miniatura que sem querer, os cabides soltos, afastar o desejo para que um corpo possa caber. Arrumar o quarto, rastros pela casa, casa, uma presença vaga. Retorno. Através um durante.


***


Douglas de Oliveira Tomaz, 24 anos, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, foi premiado pelo concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi) e possui textos seus publicados pelas revistas Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Publica regularmente crônicas n’O Salto e mora em Belo Horizonte, onde escreve seu primeiro livro de contos.

Ilustração: Vinícius Ribeiro. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)


domingo, 1 de outubro de 2017

Xará



Ser um garoto com ar de gasto desde os primórdios da infância tem lá ao menos uma vantagem: passar despercebido, por exemplo. As pessoas o têm como uma face vista e revista vezes sem conta, mesmo à primeira vista.

Jonas Júnior Silva. O nome da pessoa.

Uma criaturinha que moldava sua personalidade (se é que tinha alguma) ao ritmo da monotonia. Jonas Júnior Silva tivera tataravô, bisavô, avô, pai e tios com o nome de Jonas. Jonas tinha com todos seus parentes uma semelhança significativa. Ele era uma pessoa transparente demais. Tinha cicatrizado à flor da alma (se é que tinha alguma) o receio de guardar segredos. E não é segredo de ninguém que uma pessoa para ser considerada interessante precisa acumular alguns segredos.

Jonas Júnior Silva era chamado pelos amigos de infância de Xará. O epíteto fossilizou, tomou forma de perenidade. Nada de mal. Xará é aquele que tem o mesmo nome. Nenhuma nuance a mais a acrescentar ao livro aberto dessa vida em voga. Uma vida besta, diria Drumonnd em um de seus célebres poemas.

Em referência sonora à palavra célebre, Xará tinha três cães. Cruzamento de pitbull com vira-lata. Os três cães tinham o mesmo nome: Cérebro, que, por sua vez, aludia ao nome mítico de Cérbero, o cão de três cabeças, guardião do portal do inferno.

A esquisitice do menino não parava por aí. Sua coleção de minhocas era outro caso. Ele não deixava as minhocas passarem de sete. Quando tal número era ultrapassado com o surgimento de novos comedores de lama, ele separava os maiores, os aparentemente mais saudáveis, excluía, assim, os mais fracos, que sacrificava aos peixes de um aquário, onde criava pirambebas, pequenos peixes da espécie das piranhas, em ato bastante cerimonial.

– Um projeto de Hidra –, definia, assim, Jonas, a sua coleção de minhocas. Complementava que os bichos também raciocinam, mas que o uso acentuado do lado direito, o criativo, e o do lado esquerdo, o racional, é predicado dos humanos. Ao ouvi-lo assim falar, seus pais achavam que o filho tinha miolos de minhoca.

Jonas, ou Xará, tinha dificuldade de recordar nomes e muita facilidade de esquecê-los. Ele ainda sofria, solitário, uma crise de identidade que insistentemente negava.

Porém, em seu caderno de apontamentos, era comum (o que não era comum em um menino que negava ser incomum o tempo todo?) serem encontradas frases de teor cáustico, recicladas de leituras feitas ao longo de seu tempo, em um caderno de apontamentos. Exemplos:


1 – A existência é um osso antigo que ainda verte sangue virgem nas mãos de um mendigo imerso em ilusão.

2 – Pé de rosa nasce num jardim mal cuidado, onde, de forma furtiva, feto abortado foi enterrado.

3 – Cheiro de peixe podre. Mosca excitada, a ponto de copular com lâmpada apagada. Lâmpada apagada, acossada. Tímpanos zumbem. Verbo crescer em forma de gerúndio: CRESCENDO!

4 – Quem pariu a humanidade foi uma pedra.


            E por aí ia. Tudo documentado, visto e revisto, desde a capa à contracapa.



***


Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro-MG há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015) e Piolhos (2016), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Ilustração: Vinícius Ribeiro. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

- corte



Antes que eu cortasse o cabelo há mais ou menos um mês atrás, ainda que minha perspectiva de tempo não me dê certeza dos dias, ou de como passam − mantive nos fios, antigos e mais longos, o sabor dos dias em que talvez te amasse. Não é totalmente absurdo dizer que a possibilidade de amor pesa a cabeça, e os cabelos precisam ir pra gente continuar vivendo sem carregar essa ideia no topo do mundo da gente mesmo.

Cortados os fios, cheguei em casa tranquila, mas olhei a janela um dia desses, o que me fez recordar, nos fios antigos, a visão da sua. A minha continua a dar pra varais e barulhos de carros e buzinas. O amor, sempre juvenil, é esse ruído todo, era o que minha mãe dizia enquanto eu chorava por alguma paixão adolescente. Pegava a tesoura, e ia aparando cuidadosa, ponta a ponta, às vezes me punha franjas, às vezes me desfiava, e o peso do mundo desaparecia, porque era outra a pessoa que surgia debaixo das tesouras de minha mãe.

Olhando as janelas: “despe-te dos ruídos”, aparecem os versos que não recordo de quem são e me gritam por dentro, como se lá, no profundo das coisas, existisse sempre alguém que me rodeia e me grita poesia quando me lembro de ti. Os cabelos crescem num outro tom de afeto, mas você vez ou outra me aparece num ruído ou sonho qualquer, e fico imaginando como teria sido se. A cabeça ruidosa se apega menos aos fios, às vezes, e experimenta o oco da luz do fim da tarde, o sino das horas inteiras da igreja do lado, de um dia na cozinha enquanto tateávamos, no escuro, a tentativa do corpo do outro.

Talvez haja amor não por ti, mas pela lembrança barulhenta que vem na fantasiação e me faz colocar Vinicius pra tocar em dia de sábado, como se cortasse os cabelos novamente e desfiasse no som das coisas o passo ruidoso que antecede a gente ante a esse esforço subtil de esquecer.

– porque hoje é sábado. 


***



Brenda K. Souza, 24 anos, mestranda em estudos literários.


Ilustração: Barbarete, ou Bárbara Louzada. Artista, tatuadora e geógrafa, sobretudo uma entusiasta da vida. Atualmente, estuda Artes Plásticas na Universidade Federal do Espírito Santo, mas conserva a certeza de que os cantos do mundo têm muito mais a ensinar e a revelar sobre o universo da arte e do sentir.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Cantiga em prosa



Instantes de ânsia extrema.

Você o tempo todo no pensamento, a preencher horas de ação e de ócio.

Seu beijo. Seu cheiro. Seu corpo abraçado por mim com a loucura de quem queria ver o tempo parar. O pânico de não conseguir negar que a impossibilidade de eternizar nossos momentos fosse possível.

Era você. Anjo às vezes. Às vezes um demônio num corpo de luxo. A me obrigar a congelar o calor torturante de meus genitais, apalpá-los, apertá-los, como se assim diminuísse a gula de possuir você inteiramente.

Estamos diante do portão de sua casa, 23h:30min. Ou diante do portão de meus pensamentos? Você usa uma camiseta que tem uma foto da Mary Poppins estampada, sem sutiã por baixo. Você veste uma minissaia. Beijo sua boca. Mordisco seus lábios. Esfrego-me em seu corpo. Você chupa minha língua com volúpia. Toco seus seios. Minhas mãos passeiam pela sua bunda. Você me empurra. Pede para eu parar.

Era você. O nome que eu sussurrava enquanto descia de montes isolados para tocar punheta, sentir-me mais vazio depois de gozar.

Tanta laranja madura, tanto limão pelo chão!

Era você que fazia com que eu achasse que ir longe demais fosse perto. Era você que fazia e ainda faz meu coração bater de forma acelerada e dolorosa.

– Melhor acabarmos com isso.

Você acabou comigo.

– Morrer de amor não mata.

– Não? E o louva-a-deus?

– Eu disse morrer de amor. Não disse morrer de amar.

Tanto sangue derramado dentro do meu coração!



***


Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015) e Piolhos (2016), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Vinícius Ribeiro, artista. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Ando colecionando frases



Ando colecionando frases. Meu quarto está sujo e tenho dormido num colchão. A cama quebrou à noite, já faz alguns meses. Não sei qual mistério me impede de montar a outra cama, que me espera dentro do quarto ainda em suas partes: cabeceira, parafusos, estrado. É uma cama velha, se pudesse falar, me contaria uma boa história. Me diria uma boa frase.

Jéssica está afetada, escreve sobre a morte. Moramos juntos. Falar sobre a morte é uma das maneiras de se aproximar dela. O assunto mora na casa. Mora na varanda, no vaso de planta, mora no ralo. Para escrever, é preciso morar no que se escreve. Jéssica sabe, tem andado calada. Das frases que já recolhi, poucas são sobre a morte. Dentre as poucas, uma frase dita por Jéssica.

Acabo de chegar da rua e meus pés estão sujos. A última frase que anotei, Quem vai fazer a limonada hoje?, foi dita da cozinha de um pequeno restaurante por uma mulher. Da porta, ela olhava para as mesas vazias, onde se sentavam apenas um homem e duas crianças. Um dos meninos se animou com a pergunta e começou a pular. O homem, pochete na cintura, não se moveu. Passei.

Anotei as últimas frases num recibo de ônibus. Não sei por qual motivo iniciamos coleções. Me atentei para a frase quando passei a ler as crônicas do Victor Heringer. Num entulho, encontrei um colchão de casal. Quantas frases cabem num colchão usado? Passei. Na maioria das vezes, não tomo nota do que penso. Do que falo me esqueço um segundo depois. Os muros dizem boas frases, mas não são essas. Tampouco legendas de foto, ou lapidação.  

O quarto está sujo e escrevo. Não sei porque escrevo, ao invés de arrumar o quarto. A casa estaria mais limpa se eu não escrevesse. Meus pés não estariam sujos. Caminho com as orelhas.


p.s.: um dia me disseram: sua avó está nos seus pés.



***



Douglas de Oliveira Tomaz, 23 anos, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, foi premiado pelo concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi) e possui textos seus publicados pelas revistas Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Publica regularmente crônicas n’O Salto (www.osaltobarranqueiro.blogspot.com.br) e mora em Belo Horizonte, onde escreve seu primeiro livro de contos.



Vinícius Ribeiro, artista. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Seu Joaquim



Acho que os que perdem a crença no amor, mesmo assim, acreditam na perenidade da esperança, guardam fagulhas de juventude na fonte serena da alma.

Diacho de eu perder a crença e, mesmo assim, achar que, de cova, tumba, túmulo e lápide, palavras ecoam no cerne destes pensamentos rasos.

Meu cérebro encontra imagens dele agora.

Um recuo no reino de tais imagens.

Como se memórias fossem as mãos de um Cronos subjugado ou os ponteiros de um relógio ditador que de modo inesperado se coloca a meu bel-prazer.

Agora, uma palavra feia: moribundo. Outra: catacumba. Caixão. Velório. Enterro. 
Agora, as palavras: cadeira e muletas. Outras: cozinha, quarto, sala, soleira.

Quintal, agora não. Que pode se tornar pranto, que pode se tornar choro.

Quando o via ali, eu costumava parar e ouvi-lo. O brilho do olhar em recusa constante à crueldade de tons vermelhos insistentes em tingir a íris e todo o corpo dos olhos com a arte da dor.

Não culpava a vida.

– Deus sabe o que faz.

Agora, ele capina o quintal, rastela folhas, molha plantas. Carinho pelas plantas é imenso. Carinho talvez amor. Diz-se contente com minha presença. Diz que saber preservar amizades é um dos maiores dons de poucos seres humanos, não só dos cães. Agora, pega um saco plástico, colhe algumas carambolas, simultaneamente olha para o céu. Agora, céu sem nuvens de chuva. Decerto, seu olhar é de agradecimento a anjos que quase ninguém vê.  Há piadas mordazes quanto ao fato de as galinhas olharem para o céu ao beberem água. Se repararmos em nosso movimento ao nos saciarmos, notaremos que se levamos o copo aos lábios, a cabeça se inclina levemente para o alto. Agora, antes de me entregar a sacola com os frutos, ele me diz que toda estação tem seus frutos. Coisa boa de existir Deus.

– Alimentar o corpo diverte o espírito. Leve para você se distrair.

Agora, algumas araras fazem orgia no alto do coqueiro e no raro pé de buriti.

– Arara! Arara! Arara! Arara!

Sua voz denota a debilidade trazida pelos anos, mas capto ondas de música no ar.

– Arara! Arara! Arara! Arara!

Repercussão do topo das árvores. Sua boa causa produz efeito.

– Bichos são obras de Deus. Gatos. Cachorros. Galinhas. Porcos. Bois. Cavalos. Também os bichos do mato que vivem na Terra, no ar e na água.

Agora, os peixes me lembram de um dia de pescaria.

– Bom pescar é apoitado, no barco. Pegar Piau Três-Pintas é bom, mas o melhor é o verdadeiro, o Dourado da goela grande, a Matrinchã, o Mandi Amarelo.

Sua empolgação inicial substituída por uma mudez concentrada, paciente. 

Às vezes, o sol cáustico castigava nossa pele. Ânsia sem sufoco. Às vezes, era a noite. Paisagem bucólica. Dois homens a pescar. O barco sob a lua na superfície mais calma das águas do rio São Francisco.

Sua fisgada era certeira. Pegava muitos peixes grandes, mas proibia-se de qualquer entusiasmo que pudesse ser confundido com arrogância. Dissimulava o riso, quando eu que não tinha o talento de pescador me equivocava com algum puxão forte e fisgava alguma Piabinha à toa.

– Você pegou pouco.

Era o que dizia, olhando para minha enfieira de Piabas, Piaus Jejos e Mandis Brancos. Pedia para eu escolher dois dos peixes maiores que tinha fisgado.

– Dá procê fazer um molho.

Depois.

Agora, as carambolas. Agora, as araras. Regador. Rastelo. Enxada.

Agora, hospital. Médico. Consulta. Diabetes. Câncer diagnosticado. Amputação cirúrgica.

Agora, cadeira-de-rodas, muletas.

Agora, brilho esmaecido de olhar sereno em luta contra a crueldade de tons vermelhos insistentes em tingir a íris e todo o corpo dos olhos com a arte da dor.

– Não deixe de me visitar, menino.

Uma lágrima se negando a ser derramada. Meus olhos um pouco molhados.

– Estou aleijado, mas não estou morto.

Agora, diz que saber preservar amizades é um dos maiores dons de poucos seres humanos, não só dos cães.

Agora, a feia palavra: moribundo.

Agora, um quadro na parede da sala.

Agora, uma voz que soa lá de além, voz de silêncio, voz de abnegação.

– Deus sabe o que faz.

Agora, saudade dói, dói, dói.


***


Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015) e Piolhos (2016), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Vinícius Ribeiro, artista. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Bumerangue varando o pátio em penumbra



Não deveria causar mais espanto as terminações nervosas de um corpo. No entanto, ninguém parece saber o que fazer, por exemplo, se lhe for estendida uma mão do outro lado do istmo. E uma mão do outro lado de qualquer istmo é sempre algo que importa. Sabe-se muito bem como usar as mãos para cavar um bunker em meio a um tornado e sabe-se muito bem como usar as mãos para cortar os galhos de uma videira, mas ainda não se sabe muito bem o que fazer com a mão estendida do outro lado de um istmo.

*

O meu avô de 83 anos de vez em quando chama a segunda esposa pelo nome da primeira e o meu avô de 83 anos já não se lembra mais da ordem dos meses do ano, mas as mãos do meu avô de 83 anos jamais tropeçam com as notas do acordeão.

*

Você pode falar em automatismo, eu acho que o caso é de cadência.

*

Não deveria causar mais espanto as terminações nervosas de um corpo. No entanto, ninguém parece saber o que fazer, por exemplo, se lhe for estendida uma mão do outro lado do istmo. E uma mão do outro lado de qualquer istmo é sempre algo que importa. Sabe-se muito bem como usar as mãos para nadar no lado mais fundo da piscina e sabe-se muito bem como usar as mãos para medir a febre de um poeta, mas ainda não se sabe muito bem o que fazer com a mão estendida do outro lado do istmo.

*

Quando policiais desferiram 81 tiros de fuzil contra 5 jovens em Costa Barros, será que esses policiais sentiram as próprias mãos nos gatilhos ou a longa manus do Estado?

*

Estudos indicam que a estrutura de toda mão moderna é em grande parte naturalmente primitiva.




***


Cecília Donateli (1989) é capixaba, mineira e carioca em um corpo só. Graduou-se em Direito. Para compensar esse auto-boicote, escreve poemas.

Cacá Fonseca, 25, é uma artista plástica mineira radicada em Recife (PE). Autodidata, iniciou sua produção artística em 2007 e, dentre seus principais trabalhos, estão o mural “fita de tinta”, corredor de 14 metros realizado em 2015 no restaurante Maní, localizado no Jardim Paulista, em São Paulo (SP), e os murais internos e externos da escola de atores Nu espaço em Botafogo, Rio de Janeiro (RJ). Além disso, participou da exposição “Pra quem tem o coração cheio”, realizada no Espaço Débora Colker, Rio de Janeiro.
Instagram: @cacaismo
 Facebook: www.facebook.com/cacafonsecarte

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Crônica com Miró




Encontro Miró num café. Ele tromba em mim e aproveita a colisão para oferecer seu mais recente livro, aDeus. Sentamos numa mesa, ele toma um cafezinho – é o que o dinheiro dá. Eu não peço nada. Estamos numa manhã de novembro e isso se justifica quando uma folha totalmente amarela despenca da árvore sobre nós. Conversamos sobre o livro, sobre quem sou, sobre quem nos tornamos. Nós, os desconhecidos. Quem os desconhecidos se tornam? a gente se pergunta, cotovelos apoiados na mesa. Desde logo compreendo que Miró oferece sua poesia a qualquer um com quem tromba. Esbarrar é sua publicidade e sua fome.

Parou com a bebida após quase morrer sozinho no prédio onde morava. Não havia mais ninguém no apartamento e no prédio inteiro quando ligou para um dos poucos amigos e disse: me tira daqui. O amigo é o Wilson, um médico, que parou tudo o que estava fazendo para salvar a vida do poeta. Miró ficou dez dias internado no hospital, sob efeito do delírio. E Wilson, como recompensa, ganhou uma dedicatória – era o que o dinheiro dava.



solidão é no caixa eletrônico
esquecer a senha

solidão é planta
sentir falta d´água
ver Muribeca indo embora

solidão é você partindo
sem ninguém na rodoviária

as lágrimas caindo
e você com esperança
de que a chuva molhe o chão



Conto, em contrapartida, sobre a dificuldade de chegar até aqui, neste novembro. Miró, então, aperta meu braço, me olha como se olha um poço, e diz: que bom que você veio. Estamos vivos e esta folha muito amarela caiu quando sentamos. Olha, todo dia pego minha bicicleta, coloco uma porção de livros na mochila e vou vender eles na rua. Tem dia que não vendo nada e bate um desespero. Noutro, consigo vender tudo, não volto com nenhum livro pra casa. O que sei é que vivo. 



estou indo
carrego música
e um silêncio imenso
dentro de mim

estou indo
na mochila
alguns poemas para ofertar
aos corações sem amor

para os que não acreditam
que a vida é possível
que beijar
é melhor que comprar
um revólver

estou indo
o dia amanheceu
e Deus não dorme



Escrevi muitos desses poemas enquanto estava no hospital. Pra mim, eu já estava morto. Agora estou aqui, parei de beber e olha este cafezinho. Um amigo me disse que voltei a escrever como Drummond. Será que é mesmo? Depois de tanto gritar o que escrevo por aí, este é um livro pra falar baixo, é isso?



alguns desertos
não precisam de camelos

alguns desertos
não precisam de um copo d´água

precisam de abraços
e a saliva de um beijo

alguns desertos

não ter força
nem de abrir a porta
mesmo com a chave na mão

alguns desertos
nem portas têm



Miró é um poeta de verdade. Sei disso porque ainda sinto o calor de sua mão em meu braço. Sei, porque quando ele entremeia seus versos ao que conta, fecha as pálpebras, introduz um breve silêncio. Sempre tive para mim que poeta de verdade sabe a hora certa de fechar os olhos, a hora certa de abrir. Posso nunca mais cruzar com nenhum poeta. Compro o livro. Na dedicatória, ele me escreve assim: 



Para Douglas
De Minas e do Mundo
Prazer nessa quinta de calor
humano



***



Douglas de Oliveira Tomaz, 23 anos, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, foi premiado pelo concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi) e possui textos seus publicados pelas revistas Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Publica mensalmente crônicas n’O Salto (www.osaltobarranqueiro.blogspot.com.br) e mora em Belo Horizonte, onde escreve seu primeiro livro de contos.


Vinícius Ribeiro, artista. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado ( http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)