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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Adélio Brasil, o costureiro



Entrevistar Adelinho foi muito fácil. A começar pela permissão íntima de se usar o nome no diminutivo; fácil também pelo ambiente confortável de sua casa, pelo vento de março que agitava as árvores da rua e abraçava nossa conversa, pela generosidade com que ele interrompia a entrevista para oferecer suco, cerveja, vinho, qualquer carinho que o valha. Sobretudo fácil, porque todas as perguntas foram respondidas antes mesmo de terem sido feitas. Bastava ouvir. E ouvir, quando o emissor é um exímio contador de histórias, que prolonga ou encurta palavras no momento certo, aumenta ou diminui a entonação da voz no intuito de ênfase, pausa, sabe o peso que cada palavra tem, enfim, ouvir nesse caso é fácil, muito fácil.

Adelinho mora numa casa-ateliê de dois andares, quintal vasto, lugar onde costura, cria, recebe visitas e dança sozinho pelas madrugadas, segundo diz. Lá, recebeu a mim e a Davi para uma prosa caleidoscópica em que início, meio e término se confundiam, assim como nós três. Em sua fala, a todo momento procurava ligações entre nossas três personalidades, num ato tanto de quem se habituou a receber visita e cuida de incluí-la na conversa cotidiana, quanto de artista que recolhe diferentes tecidos espalhados pela casa – e os costura. Adelinho é costureiro e aquela tarde foi de estabelecer elos. 




- Gosto muito do processo de criação no vestir. Eu não trabalho com egoísmos pessoais. O vestir é muito pelo contrário, a pessoa coloca muito mais para fora o que ela realmente é. Tem gente que pensa que vestir é fantasia, e não é. O dia em que eu tô mal, eu tô de calça comprida, uma camisa, assim, lisa, bege... Pode saber, não tá bem – gargalha Adelinho, que naquele dia estava todo de amarelo, qual picolé de pequi.

Formado em Belas Artes e em Decoração, aprendeu a costurar observando as costureiras de uma fábrica para a qual foi chamado para tingir tecidos, em Belo Horizonte, após um período trabalhando, meio a contragosto, como decorador: Sabe quando você se sente em casa? Aquela coisa de manchar tecido e a pintura virar roupa, tomar vida e ir para a rua. Eu acho que o que me fascinou foi isso – abaixa o tom, como quem chega na pedra de uma certeza e a reverencia –, foi isso, sair na rua e ver o tecido que eu pintei andando pela cidade. 



A identificação com os Parangolés, de Hélio Oiticica, que na década de 60 dizia que a “arte deve ser vestida”, não é coincidência, mas influência assumida:

- Quando uma professora de moda perguntou o que era o parangolé para mim, respondi: olha, eu vivo isso. Nunca fiz quadro para ficar estático na parede. Eu faço o tecido pintado, bordado e ele vai embora. Ele tem vida própria. 
Nildo da Mangueira, com Parangolé, 1964

Interrupção para contar outra história
Itzik morou em Pirapora em 1979, ano de enchente, ocasião em que conheceu e se tornou amigo de Adelinho. Judeu, olhos claros, hoje de barba longa e dreads, mora em Jerusalém. Pediu a seu velho amigo uma camiseta colorida bordada. Camiseta bordada? respondeu Adelinho espantado. Logo você que só usa marrom? O costureiro, sempre muito atento às relações entre cores e subjetividades, diz que o amigo, “hippie real e autêntico” que viajou o mundo inteiro e desejava quando moço falar todas as línguas, nunca foi de usar roupas coloridas. Já se cansou de tentar convencê-lo a usar lenços, tintas. Hoje, após o pedido inesperado, contenta-se por bordar uma típica paisagem piraporense numa camiseta branca para o amigo. Itzik receberá Pirapora bordada no peito na capital de Israel, onde ensina às pessoas a respirar. Ninguém sabe respirar, almoçamos correndo, fazemos tudo com pressa –  justifica Adelinho, defendendo a relevância do trabalho do amigo. Mas, pessoalmente, entre um assunto e outro não respira. Emenda a conversa.

Após ter trabalhado numa empresa de decoração e numa confecção em Belo Horizonte, Adélio cansou-se do ofício. Seu contato com artistas da capital mineira o fez atentar para o sentido artístico que latejava dentro de si. Eu estava cansado de decoração. Larguei tudo e voltei para Pirapora. Eu queria liberdade, queria começar minha vida de artista, conta. Interessante notar que essa pulsão que o fez buscar a liberdade foi a mesma que o fez buscar a arte, como se fossem os dois um processo só, ou como se fossem sinônimas essas duas palavras. 

- Voltei para Pirapora, trabalhei por uns dois anos com uma, duas máquinas de costura, mas, em um momento percebi que eu precisava melhorar meus instrumentos de trabalho. Por isso, morei em Brasília por quatro meses, onde trabalhei para conseguir dinheiro e então comprar mais máquinas, investir em mim mesmo. Consegui, retornei à Pirapora, abri uma confecção e me tornei o costureiro dos doidão. Sabe esse negócio de customização que falam hoje? Pois é, eu já o fazia no início da década de 90. Tingia, remendava, colocava uma estrela aqui, um brilho acolá... – ri, enquanto relembra.

E, antes de verbalizarmos pergunta já formulada, responde que sempre contou com apoio dentro de casa. Inclusive, em relação a sua sexualidade. Lembra que os amigos conservadores de seu pai chegavam neste para compartilhar um constrangimento: olha, acho que seu filho é ó… E Adélio pai, com uma mentalidade avançada para seu tempo, ouvia os amigos, mas em relação ao filho nunca foi de poda. Pelo contrário, conta Adelinho, ele e minha mãe sempre me deram corda para ser livre. 

- E esse apoio foi fantástico na minha vida. Imagine, eu saí daqui para estudar em BH, trabalhei lá, estava bem sucedido, ganhando dinheiro e, de repente, volto sem nenhum tostão no bolso e a primeira coisa que faço quando chego é abrir um bar numa ilha do rio São Francisco durante a Festa do Sol. Inclusive, eu servia amendoim com o sal numa tampinha e o povo falava que eu servia cocaína. Imagina? Só se eu estivesse rico para servir cocaína no meio do rio – gargalha. Mas o que eu quero dizer é que isso tudo era motivo suficiente para meus pais quebrarem o pau comigo, só que não foi assim. Muito pelo contrário. 


Interrupção para contar outra nova história
Além desse botequim existente durante a Festa do Sol, Adelinho também foi sócio de outro bar, Floridita, junto com um casal de amigos franceses, Christophe e Françoise. O nome do estabelecimento faz referência ao histórico bar homônimo em Havana, Cuba, fundado em 1817, famoso internacionalmente pelo daquiri e por ter sido frequentado pelo escritor norte-americano Ernest Hemingway. O Floridita piraporense não ficou famoso por ter um grande escritor como cliente assíduo, nem por servir cocaína como tira-gosto, mas estava na boca do povo devido aos boatos de que Adelinho se relacionava sexualmente com o casal de amigos. E era verdade? pergunto. Não, responde. Mas beijava a boca dos dois. Não passava disso. 

Davi pintou uma aquarela para dar a Adelinho de presente


A conversa seguiu fluida, pouco organizada, pouco óbvia. Em vários momentos nossas três histórias – minha, de Adelinho e de Davi – se confundiram e não sei se por mérito da energia trocada, ou da capacidade criativa do entrevistado que, ao contar sua própria história, também nos costurava a ela. Somos retalhos ou tecidos inteiros. Roupa é pessoa, Adelinho sintetiza.

Por fim, ou no meio, ou no começo, conversamos ainda sobre a recente movimentação artística pela qual a cidade está passando. Grupos autônomos de literatura, artes plásticas, teatro, capoeira, dança e outras manifestações articulam-se, fortalecem-se mutuamente, resgatando a cultura barranqueira, ou reinventando-a, tirando a poeira que pairou sobre o município durante longos anos. E, sobre o assunto, nós três convergimos no ponto de que não é mais tempo de ficarmos somente exaltando o passado, num saudosismo paralisante, mas de nos perguntarmos: o que podemos fazer para melhorar a produção cultural piraporense hoje, agora? E ficamos felizes em já encontrarmos várias respostas a essa pergunta acontecendo concretamente e outras ainda sendo pensadas todos os dias, pulsantes, latentes. Pirapora vive, concluo. E essa conclusão é minha, mas acho que partilharíamos o ponto de vista se esta afirmativa tivesse sido lançada naquela tarde de março, àqueles ventos que balançavam as árvores e faziam tudo parecer mais colorido, profundo e fácil, sobretudo fácil. 



***


Davi, 18, é artista plástico, autor da exposição Partos, ocorrida em Pirapora, 2014, e atualmente reside em Belo Horizonte. Tumblr:


Douglas de Oliveira Tomaz, 22, é escritor, educador, lançou artesanalmente o livro de poemas Escorre, e atualmente reside em Pirapora. Blog: www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Brunna Maia Caires, folha, borrão de pincel, formas e rabiscos

Tudo me faz criar, desde uma folha caindo da árvore, um borrão de pincel, formas variadas, rabiscos no papel, ou até um estudo para desenvolver criação específica a partir de um livro, filme, poesia, música.


A moda esteve presente comigo desde criança, porém em várias fases. E me interessei por ela a partir da arte em geral, desde um desenho/pintura de uma casa, uma roupinha para boneca, até começar a desenvolver os traços de um croqui, e aprofundando na arte da moda.


Ser de Pirapora colaborou com o desenvolvimento da minha criatividade. A rica cultura que a cidade possui, as apresentações de talentos barranqueiros, teatro das feirinhas de sexta, tudo isso despertava a minha curiosidade e vontade de fazer algo que fosse ligado a essa área, de poder expressar, transmitir ,apresentar um pouco do que amo e o que quero ser.  Nos finais de semana em que não possuía muitas opções de entretenimento, passava horas e horas desenhando, fazendo moulage de papel, até que comecei a criar os meus modelos de roupas, e eles começaram a sair da folha, despertando ainda mais a minha vontade de prosseguir , alimentando a minha vontade de crescer, de criar.



Sobre o desfile na Expociapi deste ano, ter sido convidada pelo Adélio Brasil foi algo surreal, pois aquele era um momento dele, e ele não me conhecia, disse apenas que tinha escutado falar a meu respeito, e que ia me “presentear com esse momento”. Vibrei de tanta alegria, mas logo me assustei, porque foi uma responsabilidade muito grande. O fato de eu ainda estar no segundo período da faculdade fez o momento ainda mais complicado, já que ainda estou amadurecendo. Desenvolver o desfile foi trabalhoso e muito mais complexo do que muitos podem imaginar, você não ‘apenas’ cria os modelos e fim, existe todo um processo como o estudo do público alvo, as tendências do momento, o compromisso das modelos, patrocinadores, entre outros. Não tenho palavras para explicar o mundo de emoções que estavam dentro de mim poucas semanas antes de tudo acontecer, apenas tentei tornar o momento perfeito.


Sei que é clichê dizer isso, mas espero que o próximo ano possua tantas conquistas como este – se puder ser melhor, claro que será bem vindo. Aconteceu muita coisa boa em pouco tempo, não tenho do que reclamar. Não fiz planos, as coisas boas acontecem quando menos esperamos, assim foi e está sendo. Eu tenho me empenhado muito na minha área e, mesmo sendo tão nova, está decidido o caminho que quero seguir.



- Brunna Maia Caires, em entrevista ao Salto, 01 de dezembro de 2014.

Acompanhe o trabalho de Brunna pelo facebook: Brunna Maia Caires.