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domingo, 8 de outubro de 2017

Arribação: "Bubuia", Jéssica Martins Costa



bubuia


hoje eu já garanti o café.
desfiz o bordado que fiz ontem,
olhei por alguns minutos
sem surpresa
as plantas que morreram de causa desconhecida
de um dia para o outro.

algumas coisas morrem
e se vão, sem ritual.
algumas coisas são perenes
meu café é perene
meu olho é perene.

o corte sem cuidado,
sem satisfação
do alerta dos sentidos todos.
o sexto, inclusive.

talvez seja eu o próprio método
da tempestade:
salvar-se, sair ilesa, só um sonho cínico.
a cada manhã acordo numa praia nova
(braços, cômodos, uma emoção
até então desconhecida)

carregada de novo
pela onda da noite

só aceito.
lembrar meu nome me basta.



***



Jéssica Martins Costa nasceu em Belo Horizonte, num verão dos trópicos de 1992. Quase ao meio-dia, provavelmente debaixo de um céu de brigadeiro. Anda meio distraída meio muito atenta pelo mundo e, como muitos, ainda não entendeu direito o que está fazendo aqui. Sabe que traduz e escreve poesia. Que formou-se em Letras em algum ponto dos anos 2010 e depois não quis mais saber de escola. Que se reúne (quase) todos os domingos com amigos em um bar, para ler e conversar sobre poesia, e que eles dão a esse encontro o nome de Antissarau. Que nasceu longe do mar por uma adversidade do destino, mas pretende consertar isso em breve. Que é meio bicho do mato. E que sem dúvidas não é muito boa em falar de si mesma. Seu primeiro livro, Bubuia, sairá em novembro pela Editora Patuá.

domingo, 24 de setembro de 2017

Arribação: “Um grande acordo nacional”, Cecília Donateli



Um grande acordo nacional

É da boa educação
limpar os sapatos
no tapete Welcome

Adentro disjuntores,
santinhos, chicotes,
fotos de família,
banda larga,
frigobares e jornais
com as metas do governo

Ninguém pode acusar o brasileiro
de não ser capaz de fixar
vertigens

O dólar caiu,
toda reforma que vem
vem para o bem
de toda a gente de bem
do Brasil

Trabalha e confia

Deus abençoa
quem chega sorrindo
de cambalhota
à própria guilhotina


***



Cecília Donateli (1989) é capixaba, mineira e carioca em um corpo só. Graduou-se em Direito. Para compensar esse auto-boicote, escreve poemas.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Arribação: "Interruptor" - Lucas Túlio Pereira




INTERRUPTOR


Imagine um par de brincos
imagine que eles só se encontrem pela escuridão
no silêncio da caixa
onde em cima dorme com ímãs nos pés uma bailarina
que dança a Bagatelle de Beethoven
ou os mesmo brincos repousam
finalmente lado a lado sobre a penteadeira ou escrivaninha
pois é, na noite é que os gatos saem
e há aquele ditado: todos são pardos
A noite do escuro do cinema de qualquer filme infanto-juvenil
eles só queriam se ver
a noite das cortinas bem fechadinhas
elas só queriam sorrir
aquelas peças de roupa que foram lavadas juntas
por causa da mesma cor e por azar estendidas uma distante da outra
Quão incômodo é não poder se deixar afetar pelo carinho
por medo de tomar bofetadas com o olhar
vigiar se tem alguém vindo ou vigiando
“não vai vingar, não vai vingar”
os lugares vão ficando escassos
e as moedas também
cara ou coroa? Cara e cara, coroa e coroa
na noite do escuro dos bolsos tudo fica assim
Imaginem o quanto se evita de fazer um esboço que seja
de alguma coisa do amanhã
já que nascer do sol não agrada tanto
quem já teve gato, sabe: felinos fogem
principalmente se não for presenciado afeto em excesso
tem gente que não dá conta
procura o interruptor do mundo
às seis o braço começa a ser estendido
mas se acende tudo do outro lado do globo
sim, se esquecem
Amor jamais será culpa ou cilada – mesmo se feito no escuro
devemos dar as mãos
e mesmo quando são dadas há o risco: a hostilidade
quem não tem questões em casa pode levar uma sacola
de ponto de interrogações dessa cabeça aqui
vivência, amores, se mostrem, ideias
lâmpadas acima da cabeça
e não como naquele fatídico episódio
vocês se lembram?
devia ter sido noticiado em todos os jornais
quem sabe acendesse uma luz vermelha
de que algo anda muito errado
em que um rapaz foi quase morto por um louco
que carregava – por mais descabido que possa parecer
pasmem, senhoras e senhores
uma lâmpada
fluorescente.


***


Lucas Túlio Pereira nasceu em Belo Horizonte em 1994, é estudante de Letras pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Tem seus textos e poemas publicados nos sites Ornitorrinco e Revista Usina. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Arribação: "Dimitri" - Otávio Moraes



DIMITRI

este garoto merece um filme
com tomadas em preto e branco
cachecol e quizás um cigarro
pendurado graciosamente 
na beirada da boca
e garrafas, claro
vinho, cerveja talvez fernet
ah e o enredo
este deve ter algo de experimental
devemos transformar a flor do Lácio 
em ciranda
já o clímax 
este deve ser um misto
de revolução, ereção e plumas
o fim
este deve se passar em um close
mirabolante
apontando
nem muito longe
tampouco perto
o prazer dos elefantes


***



Otávio Moraes, justropicalista mineiro, pode ser encontrado flanando por Belo Horizonte.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Arribação: "no tanque e no copo d´agua tsunamis" - Lucas Túlio Pereira



GAIVOTA

Lançarei um livro de poemas
sobre o mar

o sal assinará as folhas
o farfalhar das páginas
ansiando serem asas

lançarei um livro de poemas
sobre o mar

Com o nome gaivota



***



Muito atrito
(e também
muita fricção)

Muita coisa
à queima roupa
no tanque e no copo
d’água tsunamis

Por fim sumi
como mancha
quando se usa
aquele sabonete

da
pro
pa
gan
da


***



Lucas Túlio Pereira nasceu em Belo Horizonte em 1994, é estudante de Letras pela Universidade do Estado de Minas Gerais. Tem seus textos e poemas publicados nos sites Ornitorrinco e Revista Usina. 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Crônica com Miró




Encontro Miró num café. Ele tromba em mim e aproveita a colisão para oferecer seu mais recente livro, aDeus. Sentamos numa mesa, ele toma um cafezinho – é o que o dinheiro dá. Eu não peço nada. Estamos numa manhã de novembro e isso se justifica quando uma folha totalmente amarela despenca da árvore sobre nós. Conversamos sobre o livro, sobre quem sou, sobre quem nos tornamos. Nós, os desconhecidos. Quem os desconhecidos se tornam? a gente se pergunta, cotovelos apoiados na mesa. Desde logo compreendo que Miró oferece sua poesia a qualquer um com quem tromba. Esbarrar é sua publicidade e sua fome.

Parou com a bebida após quase morrer sozinho no prédio onde morava. Não havia mais ninguém no apartamento e no prédio inteiro quando ligou para um dos poucos amigos e disse: me tira daqui. O amigo é o Wilson, um médico, que parou tudo o que estava fazendo para salvar a vida do poeta. Miró ficou dez dias internado no hospital, sob efeito do delírio. E Wilson, como recompensa, ganhou uma dedicatória – era o que o dinheiro dava.



solidão é no caixa eletrônico
esquecer a senha

solidão é planta
sentir falta d´água
ver Muribeca indo embora

solidão é você partindo
sem ninguém na rodoviária

as lágrimas caindo
e você com esperança
de que a chuva molhe o chão



Conto, em contrapartida, sobre a dificuldade de chegar até aqui, neste novembro. Miró, então, aperta meu braço, me olha como se olha um poço, e diz: que bom que você veio. Estamos vivos e esta folha muito amarela caiu quando sentamos. Olha, todo dia pego minha bicicleta, coloco uma porção de livros na mochila e vou vender eles na rua. Tem dia que não vendo nada e bate um desespero. Noutro, consigo vender tudo, não volto com nenhum livro pra casa. O que sei é que vivo. 



estou indo
carrego música
e um silêncio imenso
dentro de mim

estou indo
na mochila
alguns poemas para ofertar
aos corações sem amor

para os que não acreditam
que a vida é possível
que beijar
é melhor que comprar
um revólver

estou indo
o dia amanheceu
e Deus não dorme



Escrevi muitos desses poemas enquanto estava no hospital. Pra mim, eu já estava morto. Agora estou aqui, parei de beber e olha este cafezinho. Um amigo me disse que voltei a escrever como Drummond. Será que é mesmo? Depois de tanto gritar o que escrevo por aí, este é um livro pra falar baixo, é isso?



alguns desertos
não precisam de camelos

alguns desertos
não precisam de um copo d´água

precisam de abraços
e a saliva de um beijo

alguns desertos

não ter força
nem de abrir a porta
mesmo com a chave na mão

alguns desertos
nem portas têm



Miró é um poeta de verdade. Sei disso porque ainda sinto o calor de sua mão em meu braço. Sei, porque quando ele entremeia seus versos ao que conta, fecha as pálpebras, introduz um breve silêncio. Sempre tive para mim que poeta de verdade sabe a hora certa de fechar os olhos, a hora certa de abrir. Posso nunca mais cruzar com nenhum poeta. Compro o livro. Na dedicatória, ele me escreve assim: 



Para Douglas
De Minas e do Mundo
Prazer nessa quinta de calor
humano



***



Douglas de Oliveira Tomaz, 23 anos, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, foi premiado pelo concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi) e possui textos seus publicados pelas revistas Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Publica mensalmente crônicas n’O Salto (www.osaltobarranqueiro.blogspot.com.br) e mora em Belo Horizonte, onde escreve seu primeiro livro de contos.


Vinícius Ribeiro, artista. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado ( http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Arribação: "avesso do azul" - Jéssica Costa



avesso do azul

um passeio pelas nuvens
ignorando os sinais de que
a aura já poderia
ter se dissolvido há muito

e depois não soube mais onde procurar
em cada azul moribundo de
cada fim de dia
o mundo do avesso
o coração a tudo
obtuso

a vida torna-se clara a ponto de
tornar-se transparente, o coração vivo
pulsando na mão,
condenado
sente estar há alguns últimos minutos do abraço
da sombra
mas se resigna como
uma fruta no chão


***


Jéssica Costa, 24, é graduada em Letras. Escreve o tempo todo e é professora nas horas vagas. Desde 2015, ajuda a tocar o Antissarau – conversa contínua sobre a poesia do aqui e agora. Prepara seu primeiro livro, Bubuia, que talvez venha ao mundo até o fim de 2016. Publica no blog jardinssuspensoss.wordpress.com

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Arribação: "Agora que todas as coisas importam" - Cecília Donateli



AGORA QUE TODAS AS COISAS IMPORTAM

o frio
os mitos cosmogônicos
as raízes factuais da plumagem de um Arcanjo
as raízes factuais da plumagem de um pato
o frio
o efeito Doppler de um corpo
pluvioso
           vindo
                  de
                     encontro
a liberdade por um preço módico:
eu te amo
volta logo
três portos e dezessete jazidas de minérios estratégicos
(FERNANDES, Millôr; 1965)
o frio
a hipotrofia
as tíbias que estouramos correndo da polícia
os pára-quedas que não abriram
agora que todas as coisas importam
deixá-las de lado
seria maldade

***

Cecília Donateli (1989) é capixaba, mineira e carioca em um corpo só. Graduou-se em Direito. Para compensar esse auto-boicote, escreve poemas.

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Arribação: "Praça XV" - Cecília Donateli



PRAÇA XV

Juro que não foi por ter sede
que retornei à rua
mas porque parecíamos nascidos
para perder na vida
muito mais que o Johnny Thunders
E quando se diz perder na vida
existe uma certa crueldade
sumamente quotidiana
que não se ignora
Juro que não foi por ter fome
que retornei à rua
mas porque o corpo
na medida do possível
permaneceu essa montanha
mais frágil que o direito mais frágil do mundo
mais frágil que uma democracia
mais frágil que uma bacia hidrográfica
Por exemplo mais frágil que a marretada
que nenhum de nós dá
nos muros todos de Berlim


***

Cecília Donateli (1989) é capixaba, mineira e carioca em um corpo só. Graduou-se em Direito. Para compensar esse auto-boicote, escreve poemas.

domingo, 30 de novembro de 2014

Poemas do minimal ou 7 poemas subversos

ALCOVA
Essa sua
Lembrança viva
Me lembra saliva.

POLITICAGEM
Eu prometo
Daqui pra frente
Amor perfeito

DESEJO
Nesse mar de tristezas
Toda estrela cadente
Caia doente.

A VIDA É BELA
Entretanto
Tanta sede
Tanto espanto

ESTALO
O sonho mingua
No estúpido beijo
O estupor da língua.

AGUÁRIO
Atenção!
Não alimente
os rancores.

EMERGÊNCIA
Em caso de paixão
Quebre
as regras.


Cata

Fecho 
Abro
Fecho
O punho pulsa
Esmurro a mesa.
Pesa e se afrouxa 
E pesa
Essa incerteza.
Essa porta aberta
Coração contendo o sangue
Feito represa.

Repasso o futuro no lápis
Erros de cálculo
Falhas de vida
Abro a janela e choro
Como quem abriu
Uma ferida.
Ameaço, esbravejo
(A visão do cego são sonhos)
E está tudo torto

Ignoro o álcool
Já bêbado com a vida
Como quem procura
O tesão já morto.




Quando você sorri

Seu sorriso,
Mesmo tímido, mudo,
Transfigura-me em alegria...
Ele é a luz, o sol,
Infinito dia.
Por entre os lábios
De sua boca grande
Um presságio.
O signo indecifrável,
O cântico...
Anunciando
Que a eternidade
Está contida
Nos segundos
Em que você Ri.
Puro.
Ingênuo.
O êxtase!
Um riso etéreo
Baila em minha alma...
E está tatuado,
'Silkado' em mim!
Já o sabia todo meu
Desde antes de te conhecer
(antes mesmo de você nascer!)
Em minha memória musical
Estará cifrado,
Eternizado
(como numa fotografia)
O som da sua gargalhada.



Aboio

Um dois três quatro
Quatro três dois um
Formação!
Sim, senhor!
Esquerda Volver!
Direita Volver!
Sim, sinhô!
Ê boi!
Ê ôo.




Caliandra

Vermelho!
Pétalas de fogo
Incêndio sob o sol.
Uma flor em carne viva:
Caliandra.
Primavera que arde...

O verde opaco do cerrado
Ressalta as setas rubras
Que vicejam.
Cada pétala é um raio de luz.
Sua seiva é de sangue
E escorre em veias que latejam.

Caliandra,
Ramalhete Incandescente
Vegetal que sangra
Flor que pulsa.
Beleza que fere a vista
De quem desconhece o cerrado.

Vibrante rubi
Flor carnívora
Que nasceu no meu quintal
Violentou minha retina
Devorou minha alma
E a si própria consumiu
Na tarde quente. 



Par-to tempo

I

A água escorreu verbo no primeiro banho do dia. Manchou de vapor e suor, espelhos e roupas.O pote encheu-se pingando, pulsando. Na separação das gotas que o compunham, decidi pela escolha da que suasse e soasse impiedosa, a que molhasse primeiro os olhos e meu pedaço de papel. 

II

THERE IS NO TIME

III

Estico as pernas e consigo alcançar a parede do ventre que me carrega agora. É de espaço pequeno, e o desconforto sugere saída.

IV

No espaço cabe um poema, me dê tempo para escrevê-lo. Talvez nasça agora, livre de tudo, nu, ou vire estrela, um parto eterno, um pacto.

V

Vinte e três de setembro, primeira contração, descoberta primaveril dos ipês em flor.E o mundo, me cospe para fora, outra vez.

IV

Aprendo agora meus primeiros sons. Balbucio e entrevejo em roxo o princípio de um delírio, enlouqueço, agora que nasci.



quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Ironia

Ela me disse
ao fechar nosso romance,
com chave de lata,
para eu não ficar triste,
que, morrer de amor,
não mata.

- Edson Lopes, do livro Alice no País da Mesmice, 2000

Ampulheta

Há muito de amargo neste peito largo.
Letargo de gelada retina.
Desafeto que se encerra 
em planos mal forjados.
Todos os passos dados em falso.
Sou escuridão, sou neblina.
Relógios mortos.
Pensamentos tortos.
Tédio criador, eis aqui a criatura.
Olhar de relance
o odioso espelho do instante.
Procuro algum rastro de alegria
na triste figura deste cavaleiro andante.


 - Edson Lopes, do livro Antalogia Poética, 2009