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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

"Fotografo porque busco a mudança do mundo", Danilo Nascimento

Foto: Davi

Danilo Nascimento aprendeu a fotografar vendo o pôr do sol, o Rio São Francisco. E, hoje, seu amadurecimento profissional também flui naturalmente. Captar uma imagem é trocar energia com o objeto captado. Fotografia se transforma em história.

Radicado em Belo Horizonte – mas ainda fortemente ligado a sua raiz, Pirapora –, nesta entrevista, Danilo submerge aos níveis profundos de seu ofício: o aprendizado trocado entre espaço, indivíduo e fotografia; a dimensão política; suas origens; a perspectiva, materializada em imagem, de quem mora longe do lugar que ama; a compreensão de que o fotógrafo é testemunha do seu lugar e do seu tempo. Deste mergulho, ele emerge para apontar a necessidade de mudança. A fotografia pode transformar o mundo.


Danilo, a fotografia captura instantes. O que apenas um instante revela sobre o lugar, sobre a pessoa fotografada?

A fotografia tida como um instante congelado no tempo sempre revela um conjunto de sentimentos e energia trocados entre o objeto (lugar ou a pessoa) e eu. Por isso cada imagem revela a minha energia pessoal em interação com a energia do objeto fotografado. Se não estivermos em sintonia, provavelmente não teremos boas fotos.


Você tanto se dedica à captura de imagens que acontecem por si mesmas, as imagens espontâneas, quanto à captura de imagens manipuladas pelo seu olhar. O que te dá mais prazer em fotografar? Quais as diferenças?

As imagens espontâneas são as mais interessantes e as que mais gosto de fazer. Tenho um projeto chamado Citadino que tem essa proposta de observar as relações pessoais no meio urbano sem pré-conceitos e julgamentos, como alguém que está invisível e inserido nesse meio sem ser notado, não influenciando em nada. Esse trabalho é um dos que mais tenho me dedicado no momento. A diferença entre a fotografia espontânea e aquela em que podemos manipular o objeto fotografado (retrato, em caso de pessoas) está na beleza do inesperado. Quando as pessoas sabem que são fotografadas, elas se preparam para o retrato, então já não são naturais. Entretanto, quando elas não sabem da foto, a ação natural prevalece, revelando a magia da ação espontânea.



Da série Citadino


O que te despertou para a fotografia?

A beleza da natureza despertou a fotografia em mim. A vontade de eternizar cada imagem bela que se forma nos fenômenos naturais. Sempre gostei de fotografar paisagens, em especial, pores do sol. A fotografia surgiu como uma fuga do estresse.


E hoje, por que ainda fotografa?

A motivação já é outra, não é somente um refúgio. Tenho um compromisso em tornar melhor o universo em que vivo. Busco impactar as pessoas com minhas fotos, ora pela simples beleza de uma imagem, ora pelo incômodo de temas polêmicos que tiram a mente dos espectadores do conforto de uma falsa sensação de que apenas pela fé podemos tornar o mundo melhor e que tudo pode ser revertido quando quisermos. Fotografo ainda hoje porque eu busco a mudança do mundo, e se eu conseguir acender uma pequena centelha no pensamento crítico das pessoas com minhas fotos, já estarei satisfeito. Outro motivo que me mantém nessa jornada é que tenho recebido mensagens de pessoas que passaram a admirar mais a arte depois que passei a publicar meus trabalhos. Isso me mantém querendo aprimorar meus conhecimentos, minha visão, minhas técnicas e, consequentemente, todas as histórias que conto nas minhas fotos. 


Você disse que fotografa para transformar o mundo. O quão transformadora pode ser uma imagem?

A fotografia, assim como todos os tipos de arte, tem o poder de transmitir emoção às pessoas, sendo prazer ou incômodo. A fotografia, por si só, traz um conceito intrínseco, à primeira vista é possível ver a realidade, mas o conceito só aparece quando a imagem é esmiuçada pelo alinhamento olho, cérebro, coração. Gosto sempre de relacionar minhas fotos com algum contexto, conceito ou frase que exprima meus sentimentos no momento em que fiz a imagem. As pessoas são sensíveis, se conectam facilmente com a arte e são tocadas, os pensamentos e atitudes podem ser modificados.


Seu pai já foi pescador e até hoje mantém uma forte ligação com o Rio São Francisco. Você produz ensaios sobre a cultura barranqueira, como o excepcional Poesia e Sugestão. O que interliga esses dois fatos?

Meu pai me ensinou a respeitar a natureza e as pessoas, ele é meu mestre. Eu, como um bom discípulo, sigo os ensinamentos dele, construindo meu próprio caminho e respeitando os valores ensinados. Por isso, tenho essa forte ligação com o Rio São Francisco, pois nasci e vivi como barranqueiro. Hoje sofro com os maus tratos que a natureza vem sofrendo, em especial, o nosso Velho Chico, pois me sinto como se fosse parte dele.

O ensaio Poesia e Sugestão foi muito especial, pois envolveu um contexto literário totalmente engajado à história da modelo e pude contar com a participação da Prof. Bethânia Passos na elaboração do conceito. Além disso, conseguimos encaixar dois elementos que são marcantes para mim, pôr do sol e o Rio São Francisco. O fato é que estou mais inspirado quando estou no ambiente barranqueiro.





Do ensaio Poesia e Sugestão


Atualmente, você vive em Belo Horizonte. Como é Pirapora vista de longe? O que você aprende com a distância?

Pirapora vista de longe é saudade, é vontade de retornar e de poder trabalhar para cuidar dessa terra que sofre com o descuido de políticos. Quando não estamos inseridos diretamente em uma situação e apenas a observamos de longe, temos uma percepção diferente, não melhor, nem pior, apenas diferente. Estando de fora, eu valorizo mais as belezas naturais e enxergo algumas oportunidades de melhoria na cidade que fariam muita diferença na vida dos barranqueiros.


Quais as melhorias mais urgentes?

Vou citar três pontos críticos que enxergo com clareza e que necessitam de uma atenção especial. Primeiramente, a Ponte Marechal Hermes, que é maravilhosa, um patrimônio tombado, e se encontra em uma situação deplorável. Há alguns anos, se não me engano 24 de dezembro de 2012, uma criança caiu entre as tábuas da ponte e morreu. Poderia acontecer com qualquer um de nós. Além disso, os apoios da ponte, assim como toda sua estrutura estão comprometidos pela oxidação, sem falar na iluminação precária.

Outro ponto é o próprio Rio São Francisco. Qualquer um que viveu a sua beira pode perceber a mudança para pior. Diversas ilhas estão se formando e a margem está avançando sobre o leito do rio. O assoreamento está aumentando, há muito lixo e o canal que passa no Barreiro, também passa no Saae, mas deságua no Rio sem nenhum tipo de tratamento. O Rio é responsabilidade de todos e devemos cobrar que seja cuidado.

Por fim, o desenvolvimento urbano. Percebo que Pirapora teve uma pequena evolução desde que saí de lá, mas o crescimento poderia ter sido bem maior. Tenho muita vontade de voltar, mas não posso contar com isso, sabendo que não tem um mercado de trabalho que possa me absorver. Pirapora tem muitos artistas e existem duas opções para eles: ou se jogam no mundo ou vão morrer sem nem mesmo serem vistos pelos seus próprios conterrâneos.


Qual é a sua melhor fotografia?

É difícil falar em melhor fotografia, mas uma das que mais gosto é esta:


Eu não tinha pretensão de ser fotógrafo profissional quando a fiz, assim como outras fotos de que gosto muito. Essa fotografia me dá a sensação de ser o próprio Rio.



***

Entrevista: Douglas de Oliveira Tomaz.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Maria Vargas e As aventuras de Pira-Poré


Autora de quatro volumes de Aventuras de Pira-Poré, coleção de livros infantis dedicados às descobertas do cerrado e da cultura indígena Kariri, a escritora Maria Vargas conta sobre o seu processo criativo, a importância do incentivo à leitura, as dificuldades para lançar-se escritora e, principalmente, sobre o seu amor e dedicação à literatura infantil. O salto agradece a gentileza da autora em ceder esta entrevista. 


Como e quando surgiram As aventuras de Pira-Poré na sua cabeça?

As aventuras do Pira-Poré são histórias ligadas ao Rio São Francisco e o rio é a inspiração maior presente na minha vida. Sempre quis escrever sobre ele. A ideia sempre foi lançar uma visão mais humana sobre o rio e resgatar a história indígena da nossa cidade. Uma visão que não fosse unilateral como a que conhecemos e aprendemos na escola. Aquela visão dos índios agressivos, “belicosos”, que receberam os bandeirantes com flechas e pedras. Eles eram os primeiros moradores e foram expulsos do lugar que escolheram para morar. Eram pessoas integradas à natureza, que sobreviviam dela e certamente enfrentavam, no seu cotidiano, os problemas e vivências característicos da sua comunidade.

O que te motiva a escrever para esse público tão específico?

Busquei o caminho do rio e o resgate da história indígena, por meio da literatura infantil, porque acredito que as crianças possuem uma percepção mais sensível, um olhar mais sincero sobre o que ocorre à sua volta.
A proposta da “Coleção Aventuras de Pira-Poré” é trazer ao público infantil valores como amizade, sociabilidade, cidadania e consciência ambiental. O objetivo é fazer com que as crianças se identifiquem com o personagem, que gostem do que ele vive no dia a dia, que admirem o comportamento dele e que tomem conhecimento de uma cultura diferente daquela que conhecem. Acho que essa identificação pode trazer um aprendizado de maneira mais lúdica e prazerosa, sem imposições que possam provocar desinteresse pelos temas propostos.

Quais foram os caminhos percorridos para a concretização dessas aventuras? Quais as maiores dificuldades?

A maior dificuldade para se lançar escritor é, com certeza, encontrar uma editora que banque o seu projeto. Para o novo escritor, a procura é longa e cansativa. Mas se você procura  alternativas, pode conseguir concretizar o seu sonho. No meu caso, consegui isso por meio de Leis de Incentivo à Cultura. Essas leis oferecem oportunidades para todos os agentes culturais. Elas abrangem literatura, música, audiovisual, teatro e outras manifestações artísticas. Três exemplares de “As Aventuras de Pira-Poré” foram publicados com o patrocínio da Lei Municipal Ascânio Lopes de Incentivo à Cultura, na cidade de Cataguases, onde resido atualmente. Considero a Lei Ascânio Lopes uma grande iniciativa do município. Todo o setor cultural é beneficiado por ela. Para mim é uma honra ter sido contemplada em três anos consecutivos. Tive a oportunidade de distribuir os livros em 27 escolas públicas municipais e de conversar com as crianças da maioria delas. Isso é muito importante. Todas as edições tiveram tiragem de 2.000 livros. A contrapartida para a Prefeitura de Cataguases é de 20% da obra, ou seja, 400 livros. Eu doo mais 600 livros e faço a entrega direta nas escolas, para que todas possam ser contempladas, sem falha. Existem ainda a Lei Estadual e a Federal (Lei Rouanet), que patrocinam projetos culturais através de incentivo fiscal. Quanto à história dos livros, todas as aventuras infantis e os cenários dessas aventuras são experiências vividas por mim, pelos meus irmãos e irmãs, amigos e amigas e que a maioria dos piraporenses e barranqueiros também vivenciaram na infância. A relação com o rio, com o clima, as árvores, os animais, flores e frutas do cerrado são elementos que até hoje fazem parte da vida das pessoas que moram às margens do rio. Evidente que mesmo com esse conhecimento que tenho sobre as coisas do rio e suas histórias, fiz muita pesquisa e inseri nos textos elementos lúdicos de ficção para aproximar o leitor do universo e da cultura indígenas.




Você escreve texto adulto ou somente literatura infantil? Quais são as peculiaridades do texto para crianças?

Tenho escrito textos infantis, que atraem leitores de todas as idades. Nada impede que em um determinado momento eu também escreva textos exclusivamente para um público adulto ou juvenil. O livro infantil tem características fantásticas: o visual, as ilustrações, cores, o design gráfico. Essa possibilidade de “amarrar” a ilustração ao texto é maravilhosa. Em outros casos, somente a ilustração é o bastante, não há necessidade do texto. A história é visual e está lá para ser desvendada pelo leitor. No caso do Pira-Poré,  tenho uma parceira fantástica, a artista plástica Marina Vargas Tomaz. Sendo também de Pirapora, ela tem o olhar sensível e conhecedor sobre a história contada. Além de sobrinha, Marina é minha afilhada. Temos uma ótima relação e total compreensão sobre os objetivos do projeto Pira-Poré. Estamos sempre em contato sobre a melhor forma de se adequar texto, linguagem e ilustrações. Quanto ao texto, acredito que ele tem que apresentar alguns elementos comuns ao mundo infantil: curiosidade, criatividade, imaginação, ou seja, é preciso enxergar o mundo com o olhar da criança. Além disso, o texto não pode ser cansativo e com frases longas. Elas devem ser mais curtas, com palavras e linguagem simples.

Qual a importância da leitura já na infância? Você era uma criança leitora?

Desde a infância sempre tive um incentivo muito grande à leitura. Os livros estavam à nossa disposição. Minha mãe é uma leitora ávida. Sempre discutia conosco sobre as histórias dos livros. Sobre os escritores. O meu pai também. Acho que fui privilegiada nesse aspecto. O gosto e a admiração pelos livros e pelos escritores é que me fizeram sonhar com a possibilidade de poder também, um dia, aventurar-me na literatura. O incentivo deve acontecer de forma natural, sem imposições. A criança deve sentir prazer com a leitura. Ouço muitas vezes que é preciso ter o “hábito” de leitura. Hábito é, por exemplo, tomar banho todos os dias. Em minha opinião, as crianças e as pessoas de modo geral, precisam encarar a leitura como uma ação prazerosa, não impositiva: “Eu tenho que ler, todo mundo está lendo, eu tenho que ter cultura e conhecimento...” etc e tal.  Isso não funciona. Os pais e a escola, cada um a seu modo, devem incentivar com exemplos. Dessa forma a leitura não será encarada como uma obrigação.

Além de escritora, você também é contadora de histórias. Como tem sido essa experiência?

Contar histórias é o recurso que utilizo para conversar com as crianças sobre literatura infantil e sobre a atividade leitora. Essas atividades exigem, primeiramente, entender que elas têm uma experiência e vivência bem diferentes umas das outras. Existem crianças que não são incentivadas à leitura em casa. Só recebem esse incentivo na escola. Os projetos das escolas que incentivam a leitura são muito importantes (dia da leitura, cantinho da leitura, contação de histórias etc). Nos encontros que realizo com as crianças, meu objetivo é o de promover uma reflexão sobre o papel e a importância da leitura. Incentivar a atividade leitora com ênfase na leitura universal, da leitura que te retira do gueto cultural. Eu acredito na leitura que te permite olhar e conhecer além dos muros que cercam o seu espaço social. Acho também que a mesma ênfase, com uma abrangência muito maior, deve ser direcionada aos mediadores de leitura.


(encontro com alunos das escolas municipais  de Cataguases - MG)


Você pensa em projetos de literatura infanto-juvenil, juvenil ou adulta?

No momento não. Os meus projetos atuais são todos voltados para o público infantil.

Como Pirapora recepciona sua carreira? Há espaço, apoio?

Além do incentivo e apoio da família e dos amigos, a única escola em Pirapora que recepciona o meu trabalho é o Colégio Pirapora. Direção, professores, funcionários, alunos e pais de alunos sempre incentivam as apresentações do Pira-Poré. Todos os anos em que eu e Marina estivemos com eles foi uma festa. Sempre nos  recebem com muito carinho. Em Buritizeiro fui convidada por Ildete Braga, uma amiga querida, e me apresentei na Escola Estadual Prefeito José Maria Pereira. Foi um encontro ótimo com os alunos. Adorei e espero voltar na escola.

(lançamento de Pira-Poré e a chuva no Colégio Cenecista de Pirapora)


Por que você escreve?

Porque gosto de literatura. Gosto de ler, contar histórias, compartilhar conhecimento. Aprender sempre. Tenho ainda tantas perguntas sobre o ato de escrever, tanto a aprimorar. Mas continuarei tentando. Tenho outros projetos e espero que eles possam provocar, da mesma forma que o Pira-Poré, entusiasmo nos meus leitores.


(ilustração de Marina Vargas Tomaz)

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Diálogo onírico disforme: Surrealismo, por David Nascimento e Douglas de Oliveira Tomaz



Surrealismo?

David Nascimento:
Fugir ao irreal, incorporando os desejos inalcançáveis. Despertar de um sonho e poder gerá-lo visualmente, proporcionando a busca por novas fantasias. Adormecer, visitar Sigmund Freud em uma cidade chamada clímax, onde os habitantes só se masturbam. Comer um bolo de gozo feito por gafanhotos azuis no purgatório e prosseguir roendo pequis coloridos, que nunca são gastos para a não-existência de espinhos. Dialogar com o inconsciente.

Douglas de Oliveira Tomaz:
Sim, surrealismo, ou sonho, paredes transpostas, rinocerontes em piscinas, corrida para pular na corrida para pular na corrida para pular. Livro que se abre e dá em árvore, em nuvem, nuvem que dá em diamante colorido, Clube da Esquina, Minas Gerais de alguns meses, hoje, hoje, palavras brotando do hoje regadas pela mente de agora, acumulada pelo ontem e pelos anteontens. Surrealismo mistério diário ao acordar pela manhã. Tentativa vã de domar o inconsciente com palavra. Talvez por isso não consigamos lembrar nossos sonhos, em muitas vezes, porque sua linguagem ultrapassa palavra, ultrapassa a lógica consciente da narração, coesão & coerência.  Ultrapassa, inclusive, a tentativa de lembrança, porque lembrança tá na parte segura, terra firme, o consciente está minado por cercas.

David:
Inserir o surrealismo na minha arte é automático. Busco por símbolos e, de forma atrativa, eles se ajeitam na parede úmida dos meus devaneios, esperando o ato de produção. Acabam se transformando em características e são fixados em durações, caso o tal ato demore acontecer. Dalí teve Gala, gavetas, formigas, relógios de Gorgonzola, elefantes, girafas em chamas e pães gigantescos. Tornaram-se marcas de seus períodos. Eu tenho olhos, seios, pênis, vaginas, o erotismo em um só ciclo, atual e sem previsão de término. Tudo atiçado no inconsciente. Frutos de minhas fugas. Vinculadas às motivações pessoais.

Douglas:
Talvez eu nunca incorpore o surrealismo plenamente em minha literatura. Digo ser impossível, por hora, essa incorporação plena, porque, enquanto escritor zumbi rastejante, ainda me preocupo com uma estética tradicional. Conseguirei produzir surrealismo quando essa preocupação não mais existir, quando for só eu e o papel e minha inconsciência, sem revisões, sem preocupação com a repetição de palavras, com a falta de ritmo, com a “ortografia errada”. Conseguirei produzir surrealismo quando a consciência deixar de existir, domadora implacável e chata. Há um tempo, tento, através da escrita, narrar/descrever sonhos importantes; e, abobado, tenho percebido que meu inconsciente é lógico, ou, se não chega a tanto, possui uma organização caótica que ainda desconheço, mas que existe. Percebo a repetição de símbolos, de significados e sentidos nos meus sonhos, como se se comunicassem, ou morassem num mesmo canto onde a conversa acontece sempre fluida. Nas últimas semanas, tenho levado essa tentativa um pouco mais a sério. Escrevi L. e o canal que se expande  a partir de um sonho. Na verdade, é narrativa toda sonhada. Estou adorando esse movimento de diluir paredes e não me preocupar com o de-sen-ca-de-a-men-to dos fatos. Fatos não precisam se desencadear. Podem nascer de si mesmos, sem qualquer relação com a anterioridade. Coincidentemente, estou lendo dois livros também oníricos: O livro dos sonhos, do Jack Kerouac, em que ele literalmente cospe fora seus sonhos após acordar, do jeitinho que eles vêm à mente, e A céu aberto, do João Gilberto Noll, autor contemporâneo brasileiro, que é um romance sem intervalos, sem divisão por capítulos, um fôlego só, pedrada: um fato, ou sonho, vai levando a outro, que leva a outro, que leva a outro e assim vai, parece que sem fim, embora o livro acabe em algum momento – ou  não. Tento aprender com eles. Quando leio também produzo literatura – no inconsciente.

David:
Como não ser influenciado por um indivíduo que eu admire? A literatura que o Douglas concebe é o que eu estava buscando há algum tempo para poder me inspirar, mas as referências anteriores foram todas distantes. Estou podendo acompanhar, absorver do seu processo criativo, e de perto. É como se alguém sonhasse por mim através da escrita, sugerindo o que fabricar. Então posso regressar, tentar propor de volta. A influência se dá na parte eufórica da minha psique, onde posso pressupor através da leitura de suas obras. Está me ajudando no processo de fortalecimento das temáticas, transcendendo o pensamento ‘’normal’’ e abortando a razão.

Douglas:
Desde que conheci a obra surrealista de David, tenho detonado as paredes da minha literatura com dinamites. Conversando com Edson Lopes, outro dia, ele falou em “literatura positiva”, de positivismo mesmo, e gostei do termo, gostei porque tenho tentado me distanciar cada vez mais dela e a obra do David tem me ajudado neste sentido. Olhos na testa, nos seios, seios no nariz, dedos em todos os lugares, pênis desmembrados, rabiscos, rabiscos soltos e livres, de cinco minutos, como ele diz: não há como não sair transformado desse contato. E essa transformação, claro, reflete-se na escrita, porque a escrita é a consequência desse liquidificador ligado que gira vivendo. David é gênio. Um gênio modesto.

De Douglas para David: você utilizou sangue próprio em algumas de suas obras. Sangue é surrealista?

O sangue, hoje, se estendeu em técnica, mas comecei a utilizá-lo em minhas obras como consequência de um sonho que tive. E só é surrealista, porque eu o converto para. Digo, minha obra o converte, com o que ela carrega.

De David para Douglas: quando começou a escrever, já fazia planos de seguir carreira? Consegue se lembrar do primeiro ato literário?

Importante saber que ainda não tenho carreira, estou buscando caminhos. Mas a certeza temporária de que a literatura é o sentido da minha vida existe e está, por enquanto, bem nítida. Quando comecei a escrever, o sentido de “carreira” ainda não estava formado em minha cabeça, ainda bem – preferiria que ele nunca tivesse se formado. A escrita começou com o teatro na infância, como membro do grupo Metralhas, dirigido pelo Roberto Neves, porque como herança deste período,  recebi o contato com o texto teatral. Lembro que escrevi minha primeira peça aos onze anos, para a escola: era sobre folclore, tinha apenas uma página frente e verso e havia sido escrita à mão. Continuei escrevendo peças de teatro para a escola até os quinze, aproximadamente, quando me descobri criando outros tipos de textos, como contos e crônicas, a partir de motivações particulares, sem qualquer demanda externa. Com dezesseis, escrevi um conto pequeno, chamado Um segundo, o primeiro que me despertou para algum sentido de literatura. Havia um conceito nele, uma estética, um uso racional e subjetivo de palavras, mesmo que raso, algum sentimento impregnado. O despertador tocou ali, mas só um ano depois comecei a escrever compulsivamente, todos os dias. Os textos eram ruins, mas o incômodo-dor-coceira-ânsia-perturbação-susto que motiva o texto é o mesmo desde aquele tempo e enquanto existir, vivo.  Viveremos.
  


- trabalhos do David Nascimento aqui.
- L. e o canal que se expande, de Douglas de Oliveira Tomaz, aqui. 

domingo, 30 de novembro de 2014

"Minha voz é do rio", Priscila Magella



“Aprendi a cantar dentro das águas do Velho Chico, aprendi a doar minha energia de uma forma mais pura, sem esperar nada em troca. Minha voz é do rio.” Priscila Magella é compositora, cantora, atriz e poeta, contabilizando catorze anos de carreira. Nascida piraporense, com os pés, o corpo e a voz muito bem fincados nas águas do Velho Chico, no chão norte-mineiro, Priscila abre espaço no mundo. Abre espaço cantando. Seu último CD, A Barranqueira, trata da vida no rio, amor e sertão, em canções autorais e de outros compositores consagrados, como Magela e Pepeh Paraguassú. Priscila é mais do que uma voz a serviço do rio. Priscila é voz e voz é rio, força que faz as águas nunca pararem. Abaixo, segue a entrevista concedida gentilmente ao Salto. 

Quem te apresentou a possibilidade de ser cantora? 

A vida inteira fui presenteada com essa possibilidade, minha família sempre muito musical, minha Mãe com sua voz maravilhosa, meu Tio com suas lindas canções barranqueiras e meu querido Pepeh Paraguassú com seu violão que sempre abriram caminhos pra me tornar cantadeira do São Francisco. Mas a compreensão do nosso talento musical nunca está plena, entendi o meu caminho através do Rio.

Você vive de música? Quais as dificuldades de se produzir e viver de arte no Brasil? 

Sim, vivo para a Música. E as dificuldades são muitas, a música é uma energia que roda a alma dos poetas e não poetas, é o que nos faz saber que temos um coração, isso dificulta os padrões materiais em que vivemos. Não é fácil, mas é prazeroso.

O que te move, Priscila? 

Não existe apenas um mover, somos parte de uma unificação de movimentos e no meu caso as energias das músicas e das águas sempre me envolvem para o crescimento. O que me leva a produzir arte é, em primeiro lugar, o amor e, depois, a elevação desse sentimento a todos a minha volta. O que me faz cantar é minha alma à parte, esse amor exacerbado que existe em mim. 

Por que você canta?

Porque eu sou o Rouxinol (risos), assim que me chamam.

Quais são suas influências artísticas? 

Sempre busquei muito, mas as condições eram poucas, como até hoje; não tínhamos internet, ou coisas maiores em Pirapora, ou era pago, ou era longe, enfim, era de difícil acesso. Ouvi muito Edith Piaf, Mozart, Billie Holiday, Caetano, Chico, Bethânia, o início do funk, Cazuza, Legião, Luiz Gonzaga, Geraldinho Azevedo, Capitão Magela e minha Mãe, sempre minha Mãe e meu Tio Magela. Li muitas coisas desde os nove anos, livros bem grandes como O mundo de Sofia, e muitos de Zíbia, Shakespeare, Platão, Guimarães Rosa pra caramba, Gabriel Garcia na atualidade, Cecília Meireles, Lília Diniz, Clarice Lispector, também sou poeta, escrevo muitas coisas. Assisti muitos filmes, não em cinema, porque na cidade até hoje não tem; gostava de imitar personagens, sempre fui fissurada por artes, fiz teatro no grupo Metralhas e hoje retomei isso aqui no NET. Ia pro Ateliê Mil Cores ver Tia Mirian e Vó Iracema pintar, adoro o cheiro das tintas, amava ver os desenhos do meu irmão Cristiano e dormir quando ele tocava Ursinho Pimpão na flauta. Arrumava o escritório de Isaías Ramos e Maria Elisa na escola de música Sala Mozart, pra fazer algumas aulas, porque não podia pagar; depois me tornei muito amiga deles e todos os dias ouvia coisas novas, como Beethoven, Chopin, Bach, entre outros. A música erudita me mostrou caminhos jamais vistos, principalmente as cantoras francesas e suas óperas. Hoje ouço muita coisa, porém de cultura popular, boi de maracanã, toco um pouco de maracatu, faço oficinas de ciranda e voz e já conheci alguns mestres dessa nossa cultura que me presenteou em poder cantar suas “loas”. Fiz capoeira no Grupo Bantus e no grupo Capoeirarte e, como não tinha grana pra batizar, trancei todos os cordéis dos meninos pra ganhar o meu primeiro, no Bantus (risos). Então acho que a vontade é maior que as possibilidades.

Como Pirapora recepciona sua carreira? 

Nossa, bem complexo falar de Pirapora. Quando se diz da cidade enquanto pessoas, o meu canto é sempre bem vindo, mas quando se trata de governo, existe um coronelismo bem forte até hoje, não quero entrar nesse aspecto, mesmo porque todos que me conhecem sabem qual é a minha postura. Um dia, Marku Ribas me disse bem assim: “Priscilinha, ame Pirapora geograficamente...”. Não entendi de cara, mas, hoje, entendo e vivo isso na pele. Mas, como disse, sempre recebi o apoio do público, acho que as pessoas ficam felizes em saber que conto, canto e levo um pouco do nosso sertão por onde passo.

Como você compreende a Arte Barranqueira?

É uma força de vontade bem grande de crescimento e amplitude, antigamente se ouvia mais cantos barranqueiros, viam-se carranqueiros, canoeiros, lavadeiras e toda essa arte que tem se perdido na teia do tempo. O barranqueiro defende seu sertão, canta pro Rio, se queima de sol e tudo é arte, até quando não se está fazendo arte.

E a música barranqueira? 

É uma singela oração ao Velho Chico!