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sábado, 4 de fevereiro de 2017

Atlas dos saraus de BH: poesia como produção do espaço

Por Camila Félix


Ouvem-se poemas sendo declamados na pequena praça, antes abandonada, no bairro afastado do centro projetado da cidade, longe da Praça da Estação. Textos são falados ao vento no centro de uma grande roda de poetas sentados em círculo no chão. Enquanto, na cidade vizinha, uma antiga escadaria agora é uma praça da poesia, tal como o grande jardim que sobra em uma esquina próxima à escola industrial. São, até agora, mais de cem espaços em que acontecem encontros com a poesia falada em Belo Horizonte.

A literatura é vista predominantemente relacionada ao privado, à subjetividade, ao particular. E a leitura de poesia poucas vezes é pensada junto a um espaço público, ou como um fator de organização da vida social, capaz de estabelecer formas próprias de convívio, laços comunitários, aproximação entre as pessoas. Pensa-se muito pouco na literatura instituindo modos de estar e ser no mundo com os outros, com os iguais, com os comuns.

Mas a realidade urbana é outra, ocorreram 26 encontros de poesia na região metropolitana de Belo Horizonte no ano de 2016. Metade desses, itinerantes, utilizando um novo espaço a cada mês, quinzena ou semana; transformando praças, escadarias abandonadas, esquinas e não-lugares do espaço urbano; constituindo-se como marco inicial de coletivos de atividade cultural na periferia, de engajamento político e de modificações no projeto de alguns espaços públicos e na elaboração de editais de cultura.





O sarau, caracterizado como uma reunião para leitura de poesia, podendo conter música, teatro e performances diversas, acontece desde o século XVII, em casas particulares, como um evento das elites cultas. Acredita-se que movimentos artísticos-literários como a Geração Beat em Nova York, a Poesia Marginal no Rio de Janeiro e programas culturais na periferia do Brasil foram caracterizados, respectivamente, pela abertura da poesia para a fala, o declamar, o urbano; para a rua, para o popular e a um maior acesso; e para o encontro com movimentos de disseminação da cultura na periferia, ou a uma cultura da periferia.




Nos moldes dos que acontecem atualmente, o Cooperifa começa em um bar da cidade de São Paulo em 2001 e rapidamente se espalha como inspiração, em rede. Logo, muitos outros surgem, extrapolam o espaço do bar e começam a acontecer em esquinas e praças, até surgir uma multiplicidade de formas de saraus. Em 2008, estudantes de letras de Belo Horizonte descobrem o movimento e o recriam na região do Barreiro, reunindo todas as quartas, também em um bar, poetas de todas as partes da cidade, até que esses visitantes começam a organizar saraus em outros cantos da capital mineira e a história se desdobra de várias formas.

A partir do momento em que pessoas se reúnem num espaço de uma forma não usual, uma outra arquitetura se forma, um outro uso surge e há uma invenção no modo de existir na cidade. Esta pesquisa, que foi toda baseada em entrevistas com todos os saraus da região metropolitana de Belo Horizonte e diversas visitas e encontros, possui muitos relatos e fatos dessas mudanças. São várias pessoas que nunca se viram como artistas, escritores ou produtores culturais e, hoje, depois de um histórico com saraus, possuem uma mudança de vida grande, assim como praças e outros espaços públicos que foram reformados, ampliados, criados e inventados pelo acontecimento de um sarau naquele local.

Abaixo, a listagem com todos os 26 saraus, acompanhada de uma breve descrição de cada.


Coletivoz: o primeiro sarau marginal de Belo Horizonte começa em 2008 em um bar na região do Barreiro, periferia da cidade, sempre às quartas-feiras. Hoje se estabelece na Casa de Cultura Coletivoz, no bairro Olaria, também no Barreiro, que funciona também como espaço de lançamento de livros, estudos sobre poesia, dentre outros.

Sementes da Poesia: começa também em 2008 com uma performance da poeta e artista Regina Mello e, desde então, já aconteceu mais de 100 vezes, sempre no terceiro domingo do mês na Praça dos Fundadores, dentro do Parque Municipal de Belo Horizonte. Sempre integrado com lançamentos de livros, performances e com um público de mais idade.


Sementes da Poesia


Sarau Vira-Lata: surge em 2011 a partir de um grupo de estudantes que participavam e se inspiravam no Coletivoz e, desde então, uma terça-feira sim, uma não, ocupa não-lugares, espaços abandonados ou esquecidos da cidade. É um dos mais famosos e que consegue reunir um maior público.


Sarau Vira-Lata


Sarau dos Vagal: começa em 2012 na cidade de Nova Lima e, desde então, reúne os jovens chamados de “vagabundos” nos locais mais inusitados e bonitos da cidade, sempre nos finais de semana. Consegue atrair um público grande.

Sarau ELER – Entre Letras e Retalhos: reunião de estudantes de diversos cursos da UFMG, o sarau acontece desde 2012, principalmente nos festivais e eventos internos da universidade, e procura dar espaço para artistas e escritores poderem se expressar e se encontrar. Muito ligado a performances e movimentos políticos, já organizou saraus em várias cidades do Brasil nos eventos de literatura.

Sarau do Ribeirão: iniciativa do coletivo Semifusa, que procura promover a literatura na periferia de Ribeirão das Neves, o sarau começa em 2012 e ocupa praças da cidade com poesia.


Sarau do Ribeirão


Sarau Cabeçativa: parte de ações diversas do Coletivo Cabeçativa, começa em 2013 e acontece em algumas terças-feiras, ora na Pista de Skate, ora no Viaduto das Artes, ambos no Barreiro. Iniciativa inovadora na ocupação de espaços abandonados da cidade, reúne um grande público dos bairros afastados do centro, que compõem a regional, e não possuem muito acesso a eventos de cultura.


Sarau Cabeçativa


Sarau Apoema: começa em 2014 através do Festival F5, festival de cultura independente de Contagem, e desde então acontece na última sexta-feira do mês na escadaria da Avenida Norberto Meyer, que hoje é reconhecida como Praça Apoema até pelos buscados do Google. Um evento que reúne um grande público da cidade e se integra a muitos outros eventos como teatro, performance e seminários, além de ressignificar o espaço público.

Nosso Sarau: sempre no último domingo do mês, acontece na Praça da Estação de Sarzedo, cidade da região metropolitana de BH. Procura ampliar o acesso à cultura e por isso se integra a outros movimentos, além de organizar uma biblioteca pública.

Sarau Comum: começa em 2014 no Espaço Comum Luiz Estrela, casarão ocupado por artistas para manter sua preservação, e desde então acontece uma sexta-feira sim e uma não, reunindo um público diverso e recebendo os principais poetas da cidade, além de visitantes de todo o país.

Sarau’Sarau: união de poetas e artistas da cidade de Betim, o sarau começa em 2014 e desde então acontece no terceiro domingo do mês. Reúne um grande público de jovens da cidade, possui uma forte rede de troca e doação de livros e tem como característica a decoração colorida e marcante, assim como os espaços públicos da cidade que escolhe para acontecer.


Sarau'Sarau


Sarau das Cachorras: começa em 2014, quando a artista Cida Barcelos, importante participante do sarau Vira-Lata, é convidada para organizar um sarau no dia das mulheres. Desde então, acontece em espaços diversos do bairro Lagoinha de BH, integrado com peças da atriz e performances.

Sarau das Lanternas: começa em 2014 na Praça Sinimbu, bairro Santa Mônica, região de Venda Nova, periferia de BH. Desde então, acontece sempre no quarto domingo do mês, reunindo um grande público e envolvendo outros eventos culturais. Por sua atividade intensa, conseguiu fazer um acordo público-privado para realizar a reforma da praça, além de montar de forma independente a Casa de Cultura Lanternas.

Sarau Desjejum: sempre na manhã do último domingo do mês, acontece no Parque Lagoa do Nado, na região de Venda Nova, desde 2014. Com um público de mais idade e na maioria músicos, foi aprovado pela prefeitura para ter uma verba de apoio.

Sarau da Partilha: organizado pelo Coletivo Partilha, surge em 2015 como forma de os diversos artistas e poetas que o compõem promoverem performances e eventos, sempre ligados a instituições culturais, editais de cultura e eventos já estabilizados pela cidade.

Sarau Roots Ativa: sempre na última segunda-feira do mês na Casa Roots Ativa no Aglomerado da Serra, o sarau acontece desde 2015 como evento de acesso ao encontro e à cultura para os moradores da região.

Sarau Terra Firme: parte de muitos dos eventos organizados pelo Coletivo Terra Firme para promover o acesso à cultura e ao lazer aos moradores de Ibirité, acontece sempre na segunda quinta-feira do mês em uma praça da Morada da Serra, periferia da cidade da região metropolitana de BH.

Sarau Barulho: o evento, que começou em 2015 em uma sala do Maletta, pretende unir barulho, música e poesia com performances e improvisações diversas e livres. Hoje, acontece em espaços do centro da cidade de Belo Horizonte.

Sarau Va Gabundo: surge em 2015 como oportunidade de apresentação de trabalhos dos alunos de teatro, dança e artes da Escola Arena da Cultura, no centro de Belo Horizonte. Estabeleceu-se como evento aberto a toda e qualquer pessoa e arte e acontece sempre na última sexta-feira do mês.

Sarau Livre – palavras de rua: acontece desde 2015 em praças públicas da região do Barreiro, na periferia de Belo Horizonte, muito ligado a eventos de duelos de rap. Reúne o público jovem da região.

Sarau Raízes: organizado pelo coletivo Árvore, acontece desde 2015 nas principais praças do sul e centro-sul de Belo Horizonte e é parte de eventos de reggae organizados pelo grupo. Envolve um público de classe alta, diferente da maioria dos outros saraus da cidade.

Sarau da Amizade: sempre às quintas-feiras na Praça da Amizade no Bethânia, periferia de BH, o sarau acontece desde 2015 e reúne um grande público jovem da região. Muito ligado a movimentos como duelo de rap e competição de skate.

Sarau Sabará: organizado por poetas no centro da cidade de Sabará. Reúne um público de mais idade e é ligado a outros eventos culturais da cidade.

Sarau Libertário: evento bimestral que acontece no museu das Minas e Metal na Praça da Liberdade, convida importantes artistas e poetas da cidade para se apresentarem, seguido de um momento de microfone livre.

Sarau Lá da Favelinha: o evento acontece na Casa de Cultura Lá da Favelinha, que é parte de diversos movimentos culturais organizados no Aglomerado da Serra.


Sarau Lá da Favelinha


Sarau do Zoião: acontece na praça do bairro Pilar, periferia do sul de Belo Horizonte, em sábados alternados, e pretende oferecer acesso à cultura para jovens da região.

Slam: evento de competição de poesia declamada, acontece em quatro locais da cidade: Slam Clube da Luta, centro; Slam Trincheira, Barreiro; Slanternas, Venda Nova; e Slam do Nosso Sarau, Ibirité.

Antissarau: encontro para leitura e estudo de poesia contemporânea brasileira, acontece quase todo domingo em bares do centro da cidade de Belo Horizonte.


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Camila Félix é poeta, militante da poesia e dos saraus e estudante de arquitetura. Por isso, tenta trabalhar e estudar as relações entre cidade e literatura. Participa de performances e de vários saraus e eventos de Belo Horizonte, provocando ocupações do espaço público e uma cidade mais acessível e justa.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Literatura marginal? por Edson Lopes


Por estar à margem do circuito editorial estabelecido, nos anos 70, pelo menos até 1975 – quando, a partir dali, passou a ser aceita por grandes editoras como a Brasiliense –, houve em nosso país uma poesia denominada Poesia Marginal. Tal poesia era escrita e distribuída aos leitores através do mimeógrafo.

Em certos termos, quase técnicos, hoje, a Poesia Marginal habita a literatura produzida por escritores considerados menores, no mais amplo espectro da palavra. Claro, que o universo marginal literário habitado apresenta-se, também, em prosa. Os escritores e poetas desta vertente são ignorados, a tal ponto, pela mídia, que mergulham no status não grato da marginalidade.

Pode-se perceber tal situação, de uma forma mais prática, passando um texto de autores como os supracitados a maus leitores, àqueles que leem muito – existem tantos! – e se for dito a eles que a condição dos autores é a de insurgentes, e, mesmo que os textos lhes agradem, esses leitores bocejarão, de forma forçada, após a leitura. O liame temporal é imenso, mas vou citá-lo: não é keating, nem Paulo Coelho. 

Em outros termos, talvez um pouco mais diretos, a marginal é a literatura que se ocupa das coisas, da flora, da fauna racional e irracional, é a que o sistema se esforça em tornar inexistente, mesmo quando esbarra nos raros momentos em que se vê forçada a fazer média com a populaça, seu termômetro, sem querer, sem querer. Aí, ai, ai, ai, aponta o dedo indicador para jornais pingando sangue.

Penso que a tendência marginal mais recente na literatura brasileira, se é que se pode considerar música como literatura, apareceu nas letras punks, nos anos 80, quando a violência, o descaso, a revolta, principalmente a vinda do ABC paulista se recitou, se declamou. A coisa de denúncia distorcida é o som. O que se acentua, também, no Rap, com seus rasgos de um protesto mais contundente, com a favela como espaço, muita ironia. A alma humana se eterniza em sátira.

Incorporo a literatura marginal nos meus textos, sim. Mais notadamente nos livros Maremoto e Lusco-Fusco, há neles uma preocupação de minha parte em evidenciar um país corrompido, uma sociedade corrompida e um poeta sem entrada e sem saída além de lugares comuns, de ironias sutis demais para negar que qualquer uma das dores que um abjeto mortal sente é pequena demais para fazê-lo sangrar.


Antes que acabe:

Sou um tanto quanto pateticamente intransigente com relação a falar sobre literatura, em geral. Sempre que vou tomar umas cervejas com alguém que escreve, tento levar o assunto para o colo da literatura. Ultimamente, minhas expectativas têm se frustrado um pouco. Eu me faço de besta ao não deixar cair a ficha, cair na real de que ninguém vira um porco a pisotear pérolas se falar de outros temas que não sejam poesia. Gostar demais de determinado assunto, e sempre procurar dar-lhe ênfase, torna qualquer um muito chato.







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Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009). 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Três escritoras, por Brenda K. Souza


Escolher o que se lê parte, antes de tudo, de um reconhecimento. Elenquei aqui três escritoras com as quais me reconheço nas linhas, em suas modificadas formas. Lembro-me da menina que ao descobrir cada uma delas, acabava por se descobrir também. A seu modo, todas escrevem para salvar a si e alguém, e eu leio com essa mesma intenção.

Uma) Clarice Lispector

Louca, hermética, mística, genial, inovadora: adjetivos que perpassaram toda obra escrita de Clarice. De origem pobre, a jovem escritora judia de sotaque engraçado, causa espanto e admiração no cenário da literatura nacional com o lançamento do seu primeiro livro: Perto do coração selvagem. O romance antecederia as principais características das obras subsequentes, a principal delas, o rompimento da lógica cartesiana no romance. Introspectiva para aqueles que não a entenderam, a escritora dá lugar ao pensamento, ao fluxo, escrevendo apenas, como que para salvar a vida de alguém (sem compromissos com o cânone), talvez a dela, como viria a dizer.  Sua escrita é selvagem e convence apenas por ser; suas personagens, assim como sua criadora estão no limiar da descoberta, dos pequenos delitos, das fugas morais, na recriação do mundo e do próprio fazer literário. Em Clarice, biografia e obra se confundem, se misturam, a confissão impregnada nas personagens em terceira pessoa traz em seu cerne um naco grande de carne e essência da escritora, talvez, por isso, ela ficava oca quando terminava de escrever. A palavra para ela é além, é corpórea, matéria vertente, água em fluxo corrente. 

sim, quero a palavra última que também é tão primeira que já se confunde com a parte intangível do real. Ainda tenho medo de afastar da lógica porque caio no instintivo e no direto (...). Que mal porém tem eu me afastar da lógica? Estou lidando com matéria- prima.

Em entrevista ela confirmou minha expectativa ao dizer que para entendê-la era preciso, antes de tudo, sentir, de nada adiantavam as teorias, ela escapava e escapa a qualquer conceituação de gênero. Eu sinto.

Duas) Ana Cristina César

Outra mulher que também causaria reboliço algumas décadas mais tarde, era a carioca Ana C. César. A sua experiência com a escrita começou muito cedo, segundo a mãe, desde pequena, antes mesmo de conhecer os signos escritos, ela ditava e pedia que escrevesse; em suas primeiras publicações há textos produzidos aos 16 anos apenas. Conhecida por ter feito parte da chamada geração mimeógrafo, César teve a maioria de suas publicações desvinculadas de editoras, pois dedicava-se a uma produção artesanal, acessível ao leitor, marginal. Escrita em tom confessional, a poesia de Ana convida a um mergulho na própria identidade, na dela, na nossa. Sua palavra se articula de maneira simples, esvoaçante, descompromissada com regras de sintaxe. A escritora também segue um fluxo, o da confissão, por esse motivo torna-se tênue a linha entre o que é ficção e o que é real; tudo é mentira, tudo tem vias de ser verdade. A intimidade dos textos é atordoante, Ana salta das páginas e mostra ao leitor a janela do texto de onde viria a pular em outubro de 83, escrever é premunir, ler é testemunhar essa poética felina livre, que salta despreocupadamente.

Localizaste o tempo e o espaço no discurso/que não se gatografa impunemente./É ilusório pensar que restam dúvidas/e repetir o pedido imediato./O nome morto vira lápide,/falsa impressão de eternidade./Nem mesmo o cio exterior escapa/à presa discursiva que não sabe. Nem mesmo o gosto frio de cerveja no teu corpo/se localiza solto na grafia./Por mais que se gastem sete vidas/a pressa do discurso recomeça a recontá-las fixamente, sem denúncia/ gatográfica que a salte e cale.

Três) Marjane Satrapi

Ainda buscando relacionar biografia e autora, destaco por último, mas não menos importante, a escritora iraniana Marjane Satrapi. Escrever, criar, é também e sempre um ato político. A escritora e desenhista emerge com uma proposta diferente de contar, de confessar e de estimular atitudes “transgressoras” frente a um regime autoritário e violento. Em seu primeiro livro, Persépolis, escrito e ilustrado através de quadrinhos, a autora relata sobre sua infância até a vida adulta permeada por fatores como política, comportamento, construção de identidade, preconceito e questões que perpassam a vida de qualquer mulher durante seu desenvolvimento. O “universo feminino” tratado no livro vai desde as lembranças das mulheres mais velhas da família a posicionamentos frente à opressão vivida tanto no oriente quanto no ocidente, opressão essa que impõe padrões de comportamento a meninas e mulheres e pune direta ou indiretamente quem não os segue.