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quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Arrumar o quarto



Guardo esta noite para a reconciliação. Quantos voltaram a escrever após arrumarem o quarto. Uma noite inteira para olhar um a um os livros caídos. Se eu pudesse, fotografaria esta cascata. Quanto tempo? Me reconciliar com a poeira dos discos, das revistas, desempilhá-los, observá-los um a um em seu abandono, um quarto. Durante, arroz no fogo, meus dedos abandonam o corte da página, corte preciso, resto de cenoura. Geladeira abandonada. Retorno.

Coletar tomates de uma horta seca. Selecionar a audição de um disco, dois mil e oito. Procuro a data, não encontro. Pintura romântica na estampa da camisa que retiro da mala. Repovoar o guarda-roupa. Com o arroz prestes a queimar, deslizo meus dedos pelos cabides soltos, pelo desejo. A página em corte ainda vivo. Observo os dedos, tão longos para esta idade; de quem herdei os dedos, encaro a noite. Troco as cortinas. Agora a luz virá, quando for de vir.

Se eu pudesse pousar um porta-retrato sobre a escrivaninha. Se houvesse moldura possível para hoje, qual canto. O disco se interrompe sozinho, demoro a ouvir. Demoro a ouvir o silêncio do disco, quanto tempo calado, meu deus, quanto tempo. Cenoura em toco. Plantas semimortas. Cuidar da horta, trocar as cortinas, ainda não é hora de ir lá. Quase tropeço. De tanta demora, estou prestes a virar imagem.

Arrumar o quarto e só agora, dois mil e dois, voltar à casa que se foi. Abro uma revista, leio os resultados. Uma frase, uma história contada a partir de uma frase. Milena se suicida porque já não aguenta os arquejos da mãe. Escreve na borda de uma partitura: não aguento os arquejos de minha mãe. Procuro pelo autor da história dentro do quarto. Mas ele está fora, algo me diz que ele está lá. Ainda não é hora. Retiro da mala o pior dos agasalhos.

Se este texto for tentativa de me comunicar com Milena, não digo. Despetalo a rosa azul e procuro na pilha os livros do mar, que avançam em direção à cama. Londres dentro do quarto. Para que eu possa um dia reencontrar os rastros e perseguir o mar através dos livros como quem procura nas mesmas pétalas azuis a rosa de antes. Dois mil e sete. Arrumar o quarto e ir deixando rastros de uma passagem vaga que no entanto acumula louças, e a poeira quem tira?

Deitar sobre a cama, afastar os livros para evitar o corpo a corpo noturno. Após comer uma comida triste. Após o disco reiniciado quantas vezes. Deitar sobre a cama, afastar as canetas, a jangada em miniatura que sem querer, os cabides soltos, afastar o desejo para que um corpo possa caber. Arrumar o quarto, rastros pela casa, casa, uma presença vaga. Retorno. Através um durante.


***


Douglas de Oliveira Tomaz, 24 anos, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, foi premiado pelo concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi) e possui textos seus publicados pelas revistas Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Publica regularmente crônicas n’O Salto e mora em Belo Horizonte, onde escreve seu primeiro livro de contos.

Ilustração: Vinícius Ribeiro. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)


domingo, 6 de agosto de 2017

Factory


1.
Meu Deus, e agora?

Factory é um objeto que tem como responsabilidade criar outro objeto.

Eu vou entrar agora na máquina aqui.

Aqui é o ponto fatal.


2.
Você mataria sua mãe por um milhão?

Eu gosto muito da minha mãe, mas eu não vou lá não.

Minha avó vai se casar sábado.

Tia Selma vai lá em casa só pra comer o tomate.

Lá em casa o povo não vive muito não, na verdade vive, mas morre de diabetes.

Vão enterrar ele que horas?

Quando você diz “arruma aí”, eu não sei o que é arrumar, mãe.

Vocês lembram quando a gente não tinha farinha de trigo?

Deus lhe pague, Marilene.

Tchau, vó.

Vai com Deus, mãe.


3.
E todos odeiam Daniela.

Eu já explodi um rato com um rodo.

Meu colega compra um cachorro e bota o nome dele de Latrocínio.

Traumatismo craniano na hora.

E eu não tenho nenhum dom, cara.

Não desespera.

Tem que sofrer pra purificar.


4.
Douglas, favor, comparecer à linha de frente.

Eu assino como eu?

O que me mata é trabalhar sábado.

Descansar agora, como se dona de casa descansasse.

Imagina você ir de limusine pro serviço.

Cê acha que eu vou advogar pra pobre, pra peão?

Mas eles nunca vão juntar uma equipe boa, paga pouco, exige muito e trata garçom que nem cachorro.

Que que tem trabalhar em zona, é um serviço digno.

Eu gostaria de poder ter tudo.


5.
O invisível a gente não consegue ver.

Eu faço arroz porque quero comer.

Se você não descer do ônibus, você vai ficar dentro do ônibus.


6.
Cada doido, cada doido, eu acho que deve ter faculdade de doido.

Quando você acha uma pessoa bonita, você stalkeia ela, fi.

Eu vou é pedir o impeachment dele da minha vida.

Este sol é minha kriptonita.

Aí eu falei, putz grila, a mulher jogou passas no meu creme.

Batata pesa, né?

Vou arranjar uma namorada no final do ano, acho que merece.

Então toma um bicarbonato, toma um banho, faz alguma coisa, uai.

Quem vai fazer a limonada hoje?

Passou quando eu tava pagando a passagem.


7.
É muito chão, né?

Quem tem limite é fronteira.

Ai, que bom que você me entendeu.



***



Douglas de Oliveira Tomaz, 24 anos, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, foi premiado pelo concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi) e possui textos seus publicados pelas revistas Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Publica regularmente crônicas n’O Salto e mora em Belo Horizonte, onde escreve seu primeiro livro de contos.



Ilustração: Vinícius Ribeiro. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Ando colecionando frases



Ando colecionando frases. Meu quarto está sujo e tenho dormido num colchão. A cama quebrou à noite, já faz alguns meses. Não sei qual mistério me impede de montar a outra cama, que me espera dentro do quarto ainda em suas partes: cabeceira, parafusos, estrado. É uma cama velha, se pudesse falar, me contaria uma boa história. Me diria uma boa frase.

Jéssica está afetada, escreve sobre a morte. Moramos juntos. Falar sobre a morte é uma das maneiras de se aproximar dela. O assunto mora na casa. Mora na varanda, no vaso de planta, mora no ralo. Para escrever, é preciso morar no que se escreve. Jéssica sabe, tem andado calada. Das frases que já recolhi, poucas são sobre a morte. Dentre as poucas, uma frase dita por Jéssica.

Acabo de chegar da rua e meus pés estão sujos. A última frase que anotei, Quem vai fazer a limonada hoje?, foi dita da cozinha de um pequeno restaurante por uma mulher. Da porta, ela olhava para as mesas vazias, onde se sentavam apenas um homem e duas crianças. Um dos meninos se animou com a pergunta e começou a pular. O homem, pochete na cintura, não se moveu. Passei.

Anotei as últimas frases num recibo de ônibus. Não sei por qual motivo iniciamos coleções. Me atentei para a frase quando passei a ler as crônicas do Victor Heringer. Num entulho, encontrei um colchão de casal. Quantas frases cabem num colchão usado? Passei. Na maioria das vezes, não tomo nota do que penso. Do que falo me esqueço um segundo depois. Os muros dizem boas frases, mas não são essas. Tampouco legendas de foto, ou lapidação.  

O quarto está sujo e escrevo. Não sei porque escrevo, ao invés de arrumar o quarto. A casa estaria mais limpa se eu não escrevesse. Meus pés não estariam sujos. Caminho com as orelhas.


p.s.: um dia me disseram: sua avó está nos seus pés.



***



Douglas de Oliveira Tomaz, 23 anos, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, foi premiado pelo concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi) e possui textos seus publicados pelas revistas Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Publica regularmente crônicas n’O Salto (www.osaltobarranqueiro.blogspot.com.br) e mora em Belo Horizonte, onde escreve seu primeiro livro de contos.



Vinícius Ribeiro, artista. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Crônica com Miró




Encontro Miró num café. Ele tromba em mim e aproveita a colisão para oferecer seu mais recente livro, aDeus. Sentamos numa mesa, ele toma um cafezinho – é o que o dinheiro dá. Eu não peço nada. Estamos numa manhã de novembro e isso se justifica quando uma folha totalmente amarela despenca da árvore sobre nós. Conversamos sobre o livro, sobre quem sou, sobre quem nos tornamos. Nós, os desconhecidos. Quem os desconhecidos se tornam? a gente se pergunta, cotovelos apoiados na mesa. Desde logo compreendo que Miró oferece sua poesia a qualquer um com quem tromba. Esbarrar é sua publicidade e sua fome.

Parou com a bebida após quase morrer sozinho no prédio onde morava. Não havia mais ninguém no apartamento e no prédio inteiro quando ligou para um dos poucos amigos e disse: me tira daqui. O amigo é o Wilson, um médico, que parou tudo o que estava fazendo para salvar a vida do poeta. Miró ficou dez dias internado no hospital, sob efeito do delírio. E Wilson, como recompensa, ganhou uma dedicatória – era o que o dinheiro dava.



solidão é no caixa eletrônico
esquecer a senha

solidão é planta
sentir falta d´água
ver Muribeca indo embora

solidão é você partindo
sem ninguém na rodoviária

as lágrimas caindo
e você com esperança
de que a chuva molhe o chão



Conto, em contrapartida, sobre a dificuldade de chegar até aqui, neste novembro. Miró, então, aperta meu braço, me olha como se olha um poço, e diz: que bom que você veio. Estamos vivos e esta folha muito amarela caiu quando sentamos. Olha, todo dia pego minha bicicleta, coloco uma porção de livros na mochila e vou vender eles na rua. Tem dia que não vendo nada e bate um desespero. Noutro, consigo vender tudo, não volto com nenhum livro pra casa. O que sei é que vivo. 



estou indo
carrego música
e um silêncio imenso
dentro de mim

estou indo
na mochila
alguns poemas para ofertar
aos corações sem amor

para os que não acreditam
que a vida é possível
que beijar
é melhor que comprar
um revólver

estou indo
o dia amanheceu
e Deus não dorme



Escrevi muitos desses poemas enquanto estava no hospital. Pra mim, eu já estava morto. Agora estou aqui, parei de beber e olha este cafezinho. Um amigo me disse que voltei a escrever como Drummond. Será que é mesmo? Depois de tanto gritar o que escrevo por aí, este é um livro pra falar baixo, é isso?



alguns desertos
não precisam de camelos

alguns desertos
não precisam de um copo d´água

precisam de abraços
e a saliva de um beijo

alguns desertos

não ter força
nem de abrir a porta
mesmo com a chave na mão

alguns desertos
nem portas têm



Miró é um poeta de verdade. Sei disso porque ainda sinto o calor de sua mão em meu braço. Sei, porque quando ele entremeia seus versos ao que conta, fecha as pálpebras, introduz um breve silêncio. Sempre tive para mim que poeta de verdade sabe a hora certa de fechar os olhos, a hora certa de abrir. Posso nunca mais cruzar com nenhum poeta. Compro o livro. Na dedicatória, ele me escreve assim: 



Para Douglas
De Minas e do Mundo
Prazer nessa quinta de calor
humano



***



Douglas de Oliveira Tomaz, 23 anos, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, foi premiado pelo concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi) e possui textos seus publicados pelas revistas Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Publica mensalmente crônicas n’O Salto (www.osaltobarranqueiro.blogspot.com.br) e mora em Belo Horizonte, onde escreve seu primeiro livro de contos.


Vinícius Ribeiro, artista. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado ( http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Faço frete


Preciso destes cacos aqui. Tudo o que você precisa é de um documento em branco e de cortes. O caderno de anotações agora tem capa amarela, o sol se desbotou um pouco mais no caderno, nos cabelos dela. Ouço gritos ao redor, juro que ouço. Mãe, você não pode me culpar por não ouvir. O alto do sapato no corredor da empresa. Viro o rosto, olho. Cancelo o documento novo. Passo a passo.

Hoje compreendi. Há uma cabeça plantada no jardim. Ao redor são flores. Toca um samba sem parar naquela sala. Não entro. Trabalho. O caderno agora tem capa amarela, os cabelos dela. É poeta, articulei. Balança os cabelos, sopra a espuma, é poeta – alguém me diz. Hoje compreendi. Escrever é assistir à minha própria ausência.

Existe uma cúmplice dentro de cada poeta. Uma irmã. Preciso deste ruído aqui. Aquelas sombras ficam onde estão, não mexa. Invoco a multidão de silhuetas. Seu nome é ser cabeça plantada no jardim. Corpo plantado. Poeta corta árvore com navalha.

Os passos me espreitam. Interrompo a derrubada. Preciso de violência. Todo texto é casa, todo corpo é texto. Você é a casa que desaba, eu sou a casa que endureço. Ela é poeta, não mora. Preciso de violência e de uma ilha, não mexa. Dentre as portas abertas, a única porta aberta é a porta do texto. Dentre as estradas. Enrolem, por favor, plástico bolha no texto.


***


Douglas de Oliveira Tomaz, 23 anos, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, foi premiado pelo concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi) e possui textos seus publicados pela Revista Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Em 2015, lançou de modo artesanal seu primeiro livro de poemas: Escorre. Atualmente, mora em Belo Horizonte, onde escreve seu primeiro livro de contos.


Ilustração: Vinícius Ribeiro (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

sábado, 13 de agosto de 2016

Anotações sobre cachoeiras


1)      Para se chegar a uma cachoeira é preciso, antes, percorrer uma trilha.

2)     Anterior à trilha, porém, é o povoado. Em todo povoado há um bar chamado O pior buteco do mundo.

3)      Ainda nesse lugarejo, onde há praça, supermercado e feira, é possível encontrar um antiquário, um que seja, que por alguma razão misteriosa só abrirá à noite suas portas.

4)   Parece impossível localizar-se enquanto se anda. Por isso, utilizam-se filmes para marcar a trilha. Rocky Balboa aqui, nesta planta com bíceps; A noviça rebelde ali, naquele campo onde alguém gira. Como a demarcação paira nas cabeças que caminham e desaparece quando elas se vão, outros que chegam não saberão localizar os bíceps, não verão alguém no campo vasto. Exceto no caso de terem fixado os cartazes dos filmes pelas árvores e rochas, será preciso inventar novas referências.

5)      Há sempre, em toda trilha, tempo de parar e esperar.

6)      Os pés que deslizam, o corpo que cai.

7)     E há a cachoeira. Mas antes, por todo o caminho, pedras empilhadas, círculos de pedras com uma ao centro, Stonehenges em miniatura.

8)     No meio d´agua, basta correr os olhos, há uma rocha triangular e, em sua frente, outra, ainda maior, com um círculo atravessado em seu peito. É possível atravessar a rocha pelo meio, como se atravessa uma porta.

9)      Dessa cachoeira em diante, só haverá o caminho pela água.

10)  Catam-se perdas. E água quando encontra água faz silêncio.

11)  Há sempre um cachorro morando na beira. Ele se acomoda entre as pedras, alimenta-se de quem chega (e de moscas), conhece como ninguém todas as pegadas, o atrito secular entre o rio e as rochas.

12)  A água é gelada, faça chuva, faça sol. A única vantagem do extremo frio é esta dúvida: são os músculos ou os ossos que se enrijecem? Os pelos se arrepiam, isso sabemos.

13)  O mergulho só revela a nossa profundeza. Os olhos abertos de quem mergulha capturam apenas dois braços perdidos tentando tocar.

14)  Catam-se pedras. Alguns as levam para casa, outros as abandonam.

15) Ao redor, o vale das garrafas, das maçãs empodrecidas, o município dos pães duros, das camisinhas, o distrito da Elma Chips, o bairro das sacolas plásticas. Cabe fazer visita.

16)  Outras pessoas estão sentadas, encolhidas de frio, tomando sol, submersas. Algumas, querendo roubar o status de queda, pulam. Outras respeitam o fato de que queda mesmo só há uma, aquela que dura – não pulam. E existe, ainda, a moça que no alto somente olha para baixo, pois sabe que o medo é outra forma de reverenciar.

17)  Recomenda-se levar poemas, ler para si mesmo. Quem tiver algum decorado, cantarolá-lo pelo caminho, diante das ribanceiras.

18)  A trilha de volta já não é a mesma. Tudo muda depois que você chega.



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Douglas de Oliveira Tomaz, 23 anos, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, foi premiado pelo concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi) e possui textos seus publicados pela Revista Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Em 2015, lançou de modo artesanal seu primeiro livro de poemas: Escorre. Atualmente, mora em Belo Horizonte, onde escreve seu primeiro livro de contos.


Ilustração: Vinícius Ribeiro (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

domingo, 3 de julho de 2016

É noite nesta encruzilhada


Há esses dias em que tudo que toco vira sal. Termina o espetáculo e não paro de chorar. Algum desconhecido me consola, depois parte. Saio do prédio e a cidade está diante dos meus olhos. Inteira. Permaneço por longos minutos parado numa esquina. É noite nesta encruzilhada. Me disseram que os caminhos já estavam todos traçados. Cato pelas calçadas os livros espalhados.

Ratos correm pelas ruas do centro, isso ninguém conta sobre cidade alguma. O forasteiro só descobre depois que chega – tarde demais. Quero espalhar pelos postes o seguinte aviso: cuidado ao pisar. “Tudo começa e termina nos pés” não estará no cartaz. Nem os livros, nem os ratos, nem os avisos: ninguém parece repará-los.

O espetáculo me fez chorar, digo no ônibus para a mulher ao meu lado. Ela me oferta tudo que tem: seu sorriso de quem já não pode sorrir mais. Depois que desiste de mostrar os dentes, lança um olhar desconfiado para os livros que carrego no colo. Aponta para um e me diz: lê. Passo as páginas à cata de algum poema que satisfaça. A minha vida depende desta leitura – transpareço pelas mãos trêmulas. A voz falha mas começo. Sobrevivo verso por verso. E, no fim, ela aprova apenas com um grunhido. Na próxima estação, desce.

Continuo lendo em voz alta dentro do ônibus. Um homem alguns bancos à frente inclina a cabeça para o lado, talvez assim me ouça melhor. Emposto mais a voz para que ele se vire e me olhe. Quem sabe cara a cara eu pare de declamar. Quem sabe cara a cara minha fala se extinga de vez. Quem sabe olho no olho, talvez. Não há poema que saiba o que seja a palavra amor.

O homem não se vira nunca, mas aparece um vendedor de balas com um radinho pendurado no pescoço. Menina veneno, o mundo é pequeno abafa qualquer tentativa e me calo e o abajur cor de carne informa a todos, de modo mais eficaz para esta hora da noite, o que é poesia então. O vendedor cantarola, como se a música já não servisse de anúncio. O vendedor cantarola e instaura um cânone. Compro duas balas.

Desembarco. Hoje não existe banho que possa resolver. Tropeço e os livros caem dos meus braços, espalham-se pela calçada de pedra. Ia recolher um por um, mas desisto. Deixe que fiquem. Quero voltar pra casa. Conter o gesto até desaparecer.



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Douglas de Oliveira Tomaz, 23 anos, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, recebeu uma menção honrosa no concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi) e possui textos seus publicados pela Revista Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Em 2015, lançou de modo artesanal seu primeiro livro de poemas: Escorre. Atualmente, mora em Belo Horizonte, onde escreve seu primeiro livro de contos.

Ilustração: Vinícius Ribeiro (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Primeira caminhada



Belo Horizonte, Minas

Minha cama fica embaixo da janela. Deitado, consigo vislumbrar pedaço de céu, pedaço de prédio. A cortina não é capaz de cobrir o vidro por completo. Isso quer dizer que, em todas as manhãs, acordo com a luz forte do sol em meu rosto. Preciso passar filtro solar antes de dormir. Penso.

É domingo. Decido fazer uma primeira caminhada pelo bairro. Calço o tênis de caminhar que é o mesmo desde os dezessete anos, o mais confortável que ainda tenho. Duas constatações ao calçar o tênis: meu pé parou de crescer, caminho pouco.

Paro na banca de revistas. A Piauí tem o mesmo preço aqui ou em qualquer outro lugar do país. Esse fato nos conecta: eu e você, eu e os moradores do Piauí, eu e o outro, morador da cidade de onde vim. O preço da Piauí me conecta.

Mapeio: um supermercado, dois cabelereiros, uma universidade, um aeroporto, uma praça, um shopping, uma pequena alameda comercial – nenhum rio. Dentre esses itens, percebe-se a proeminência do aeroporto. Vários estabelecimentos saúdam-no: AeroBalas, AeroShopping, AeroBurguer, AeroPão, Varejão Aeroporto. A Churrascaria do Manuel e o Restaurante Maria das Tranças, embora ignorem a reverência, também são nomes dignos de nota. Julgo eu.

Acordei em silêncio, almocei em silêncio, faço esta caminhada completamente calado. Prefiro me perder a pedir informação, hoje é domingo. Dia de descanso da fala. Permito aos pés falarem no lugar da boca. O ruído emitido é palavra. Evito o uso do mesmo vocabulário de dias da semana. Oi, bom dia, como posso chegar à avenida Santa Rosa? E o aeroporto, onde fica? Meus pés produzem neologismos.

O som dos aviões me acorda junto com a luz do sol entrando pela janela. Moro a duas quadras do aeroporto e próximo, muito próximo do sol. O que já foi mencionado.

Passo em frente a uma igreja, onde se concentra uma grande quantidade de mendigos. Estão deitados na calçada, onde suas sacolas e lonas também se deitam. Descansam, pensam, morrem. Eu morro caminhando – mas, na maior parte do tempo, morro deitado em minha cama, olhando pedaço de céu, pedaço de prédio. Caminho pouco. O quanto de desespero é convertido em fé?

Encontro um amigo de outra vida enquanto folheio a Piauí na banca. O vendedor discute futebol com um cliente, os moradores desta cidade dão muito valor ao futebol, é o que penso quando o amigo de outra vida chega, toca meu ombro, me abraça e diz: o que você está fazendo aqui? Iniciamos conversa. A conversa termina. Prosseguimos caminhada: eu em minha direção (qualquer uma), ele na dele (mais certa). Passo em frente à drogaria Cristina, cuja matriz fica em Pirapora. Há uma franquia da drogaria Cristina em meu novo bairro, paro na porta, espanto na cara. Uma vendedora me olha lá do fundo, ri de mim, forasteiro flagrado. Não, não é possível ser desconhecido em Minas. Não é possível passar despercebido. Perder-se.

Volto pra casa.


***


Douglas de Oliveira Tomaz, nascido em 1993, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, recebeu uma menção honrosa no concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi), edição 2013, e possui textos seus publicados pela Revista Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Em 2015, lançou de modo artesanal seu primeiro livro de poemas: Escorre. Atualmente, mora em Belo Horizonte.


Ilustração: Vinícius Ribeiro (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)