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sábado, 4 de fevereiro de 2017

Atlas dos saraus de BH: poesia como produção do espaço

Por Camila Félix


Ouvem-se poemas sendo declamados na pequena praça, antes abandonada, no bairro afastado do centro projetado da cidade, longe da Praça da Estação. Textos são falados ao vento no centro de uma grande roda de poetas sentados em círculo no chão. Enquanto, na cidade vizinha, uma antiga escadaria agora é uma praça da poesia, tal como o grande jardim que sobra em uma esquina próxima à escola industrial. São, até agora, mais de cem espaços em que acontecem encontros com a poesia falada em Belo Horizonte.

A literatura é vista predominantemente relacionada ao privado, à subjetividade, ao particular. E a leitura de poesia poucas vezes é pensada junto a um espaço público, ou como um fator de organização da vida social, capaz de estabelecer formas próprias de convívio, laços comunitários, aproximação entre as pessoas. Pensa-se muito pouco na literatura instituindo modos de estar e ser no mundo com os outros, com os iguais, com os comuns.

Mas a realidade urbana é outra, ocorreram 26 encontros de poesia na região metropolitana de Belo Horizonte no ano de 2016. Metade desses, itinerantes, utilizando um novo espaço a cada mês, quinzena ou semana; transformando praças, escadarias abandonadas, esquinas e não-lugares do espaço urbano; constituindo-se como marco inicial de coletivos de atividade cultural na periferia, de engajamento político e de modificações no projeto de alguns espaços públicos e na elaboração de editais de cultura.





O sarau, caracterizado como uma reunião para leitura de poesia, podendo conter música, teatro e performances diversas, acontece desde o século XVII, em casas particulares, como um evento das elites cultas. Acredita-se que movimentos artísticos-literários como a Geração Beat em Nova York, a Poesia Marginal no Rio de Janeiro e programas culturais na periferia do Brasil foram caracterizados, respectivamente, pela abertura da poesia para a fala, o declamar, o urbano; para a rua, para o popular e a um maior acesso; e para o encontro com movimentos de disseminação da cultura na periferia, ou a uma cultura da periferia.




Nos moldes dos que acontecem atualmente, o Cooperifa começa em um bar da cidade de São Paulo em 2001 e rapidamente se espalha como inspiração, em rede. Logo, muitos outros surgem, extrapolam o espaço do bar e começam a acontecer em esquinas e praças, até surgir uma multiplicidade de formas de saraus. Em 2008, estudantes de letras de Belo Horizonte descobrem o movimento e o recriam na região do Barreiro, reunindo todas as quartas, também em um bar, poetas de todas as partes da cidade, até que esses visitantes começam a organizar saraus em outros cantos da capital mineira e a história se desdobra de várias formas.

A partir do momento em que pessoas se reúnem num espaço de uma forma não usual, uma outra arquitetura se forma, um outro uso surge e há uma invenção no modo de existir na cidade. Esta pesquisa, que foi toda baseada em entrevistas com todos os saraus da região metropolitana de Belo Horizonte e diversas visitas e encontros, possui muitos relatos e fatos dessas mudanças. São várias pessoas que nunca se viram como artistas, escritores ou produtores culturais e, hoje, depois de um histórico com saraus, possuem uma mudança de vida grande, assim como praças e outros espaços públicos que foram reformados, ampliados, criados e inventados pelo acontecimento de um sarau naquele local.

Abaixo, a listagem com todos os 26 saraus, acompanhada de uma breve descrição de cada.


Coletivoz: o primeiro sarau marginal de Belo Horizonte começa em 2008 em um bar na região do Barreiro, periferia da cidade, sempre às quartas-feiras. Hoje se estabelece na Casa de Cultura Coletivoz, no bairro Olaria, também no Barreiro, que funciona também como espaço de lançamento de livros, estudos sobre poesia, dentre outros.

Sementes da Poesia: começa também em 2008 com uma performance da poeta e artista Regina Mello e, desde então, já aconteceu mais de 100 vezes, sempre no terceiro domingo do mês na Praça dos Fundadores, dentro do Parque Municipal de Belo Horizonte. Sempre integrado com lançamentos de livros, performances e com um público de mais idade.


Sementes da Poesia


Sarau Vira-Lata: surge em 2011 a partir de um grupo de estudantes que participavam e se inspiravam no Coletivoz e, desde então, uma terça-feira sim, uma não, ocupa não-lugares, espaços abandonados ou esquecidos da cidade. É um dos mais famosos e que consegue reunir um maior público.


Sarau Vira-Lata


Sarau dos Vagal: começa em 2012 na cidade de Nova Lima e, desde então, reúne os jovens chamados de “vagabundos” nos locais mais inusitados e bonitos da cidade, sempre nos finais de semana. Consegue atrair um público grande.

Sarau ELER – Entre Letras e Retalhos: reunião de estudantes de diversos cursos da UFMG, o sarau acontece desde 2012, principalmente nos festivais e eventos internos da universidade, e procura dar espaço para artistas e escritores poderem se expressar e se encontrar. Muito ligado a performances e movimentos políticos, já organizou saraus em várias cidades do Brasil nos eventos de literatura.

Sarau do Ribeirão: iniciativa do coletivo Semifusa, que procura promover a literatura na periferia de Ribeirão das Neves, o sarau começa em 2012 e ocupa praças da cidade com poesia.


Sarau do Ribeirão


Sarau Cabeçativa: parte de ações diversas do Coletivo Cabeçativa, começa em 2013 e acontece em algumas terças-feiras, ora na Pista de Skate, ora no Viaduto das Artes, ambos no Barreiro. Iniciativa inovadora na ocupação de espaços abandonados da cidade, reúne um grande público dos bairros afastados do centro, que compõem a regional, e não possuem muito acesso a eventos de cultura.


Sarau Cabeçativa


Sarau Apoema: começa em 2014 através do Festival F5, festival de cultura independente de Contagem, e desde então acontece na última sexta-feira do mês na escadaria da Avenida Norberto Meyer, que hoje é reconhecida como Praça Apoema até pelos buscados do Google. Um evento que reúne um grande público da cidade e se integra a muitos outros eventos como teatro, performance e seminários, além de ressignificar o espaço público.

Nosso Sarau: sempre no último domingo do mês, acontece na Praça da Estação de Sarzedo, cidade da região metropolitana de BH. Procura ampliar o acesso à cultura e por isso se integra a outros movimentos, além de organizar uma biblioteca pública.

Sarau Comum: começa em 2014 no Espaço Comum Luiz Estrela, casarão ocupado por artistas para manter sua preservação, e desde então acontece uma sexta-feira sim e uma não, reunindo um público diverso e recebendo os principais poetas da cidade, além de visitantes de todo o país.

Sarau’Sarau: união de poetas e artistas da cidade de Betim, o sarau começa em 2014 e desde então acontece no terceiro domingo do mês. Reúne um grande público de jovens da cidade, possui uma forte rede de troca e doação de livros e tem como característica a decoração colorida e marcante, assim como os espaços públicos da cidade que escolhe para acontecer.


Sarau'Sarau


Sarau das Cachorras: começa em 2014, quando a artista Cida Barcelos, importante participante do sarau Vira-Lata, é convidada para organizar um sarau no dia das mulheres. Desde então, acontece em espaços diversos do bairro Lagoinha de BH, integrado com peças da atriz e performances.

Sarau das Lanternas: começa em 2014 na Praça Sinimbu, bairro Santa Mônica, região de Venda Nova, periferia de BH. Desde então, acontece sempre no quarto domingo do mês, reunindo um grande público e envolvendo outros eventos culturais. Por sua atividade intensa, conseguiu fazer um acordo público-privado para realizar a reforma da praça, além de montar de forma independente a Casa de Cultura Lanternas.

Sarau Desjejum: sempre na manhã do último domingo do mês, acontece no Parque Lagoa do Nado, na região de Venda Nova, desde 2014. Com um público de mais idade e na maioria músicos, foi aprovado pela prefeitura para ter uma verba de apoio.

Sarau da Partilha: organizado pelo Coletivo Partilha, surge em 2015 como forma de os diversos artistas e poetas que o compõem promoverem performances e eventos, sempre ligados a instituições culturais, editais de cultura e eventos já estabilizados pela cidade.

Sarau Roots Ativa: sempre na última segunda-feira do mês na Casa Roots Ativa no Aglomerado da Serra, o sarau acontece desde 2015 como evento de acesso ao encontro e à cultura para os moradores da região.

Sarau Terra Firme: parte de muitos dos eventos organizados pelo Coletivo Terra Firme para promover o acesso à cultura e ao lazer aos moradores de Ibirité, acontece sempre na segunda quinta-feira do mês em uma praça da Morada da Serra, periferia da cidade da região metropolitana de BH.

Sarau Barulho: o evento, que começou em 2015 em uma sala do Maletta, pretende unir barulho, música e poesia com performances e improvisações diversas e livres. Hoje, acontece em espaços do centro da cidade de Belo Horizonte.

Sarau Va Gabundo: surge em 2015 como oportunidade de apresentação de trabalhos dos alunos de teatro, dança e artes da Escola Arena da Cultura, no centro de Belo Horizonte. Estabeleceu-se como evento aberto a toda e qualquer pessoa e arte e acontece sempre na última sexta-feira do mês.

Sarau Livre – palavras de rua: acontece desde 2015 em praças públicas da região do Barreiro, na periferia de Belo Horizonte, muito ligado a eventos de duelos de rap. Reúne o público jovem da região.

Sarau Raízes: organizado pelo coletivo Árvore, acontece desde 2015 nas principais praças do sul e centro-sul de Belo Horizonte e é parte de eventos de reggae organizados pelo grupo. Envolve um público de classe alta, diferente da maioria dos outros saraus da cidade.

Sarau da Amizade: sempre às quintas-feiras na Praça da Amizade no Bethânia, periferia de BH, o sarau acontece desde 2015 e reúne um grande público jovem da região. Muito ligado a movimentos como duelo de rap e competição de skate.

Sarau Sabará: organizado por poetas no centro da cidade de Sabará. Reúne um público de mais idade e é ligado a outros eventos culturais da cidade.

Sarau Libertário: evento bimestral que acontece no museu das Minas e Metal na Praça da Liberdade, convida importantes artistas e poetas da cidade para se apresentarem, seguido de um momento de microfone livre.

Sarau Lá da Favelinha: o evento acontece na Casa de Cultura Lá da Favelinha, que é parte de diversos movimentos culturais organizados no Aglomerado da Serra.


Sarau Lá da Favelinha


Sarau do Zoião: acontece na praça do bairro Pilar, periferia do sul de Belo Horizonte, em sábados alternados, e pretende oferecer acesso à cultura para jovens da região.

Slam: evento de competição de poesia declamada, acontece em quatro locais da cidade: Slam Clube da Luta, centro; Slam Trincheira, Barreiro; Slanternas, Venda Nova; e Slam do Nosso Sarau, Ibirité.

Antissarau: encontro para leitura e estudo de poesia contemporânea brasileira, acontece quase todo domingo em bares do centro da cidade de Belo Horizonte.


***



Camila Félix é poeta, militante da poesia e dos saraus e estudante de arquitetura. Por isso, tenta trabalhar e estudar as relações entre cidade e literatura. Participa de performances e de vários saraus e eventos de Belo Horizonte, provocando ocupações do espaço público e uma cidade mais acessível e justa.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Adélio Brasil, o costureiro



Entrevistar Adelinho foi muito fácil. A começar pela permissão íntima de se usar o nome no diminutivo; fácil também pelo ambiente confortável de sua casa, pelo vento de março que agitava as árvores da rua e abraçava nossa conversa, pela generosidade com que ele interrompia a entrevista para oferecer suco, cerveja, vinho, qualquer carinho que o valha. Sobretudo fácil, porque todas as perguntas foram respondidas antes mesmo de terem sido feitas. Bastava ouvir. E ouvir, quando o emissor é um exímio contador de histórias, que prolonga ou encurta palavras no momento certo, aumenta ou diminui a entonação da voz no intuito de ênfase, pausa, sabe o peso que cada palavra tem, enfim, ouvir nesse caso é fácil, muito fácil.

Adelinho mora numa casa-ateliê de dois andares, quintal vasto, lugar onde costura, cria, recebe visitas e dança sozinho pelas madrugadas, segundo diz. Lá, recebeu a mim e a Davi para uma prosa caleidoscópica em que início, meio e término se confundiam, assim como nós três. Em sua fala, a todo momento procurava ligações entre nossas três personalidades, num ato tanto de quem se habituou a receber visita e cuida de incluí-la na conversa cotidiana, quanto de artista que recolhe diferentes tecidos espalhados pela casa – e os costura. Adelinho é costureiro e aquela tarde foi de estabelecer elos. 




- Gosto muito do processo de criação no vestir. Eu não trabalho com egoísmos pessoais. O vestir é muito pelo contrário, a pessoa coloca muito mais para fora o que ela realmente é. Tem gente que pensa que vestir é fantasia, e não é. O dia em que eu tô mal, eu tô de calça comprida, uma camisa, assim, lisa, bege... Pode saber, não tá bem – gargalha Adelinho, que naquele dia estava todo de amarelo, qual picolé de pequi.

Formado em Belas Artes e em Decoração, aprendeu a costurar observando as costureiras de uma fábrica para a qual foi chamado para tingir tecidos, em Belo Horizonte, após um período trabalhando, meio a contragosto, como decorador: Sabe quando você se sente em casa? Aquela coisa de manchar tecido e a pintura virar roupa, tomar vida e ir para a rua. Eu acho que o que me fascinou foi isso – abaixa o tom, como quem chega na pedra de uma certeza e a reverencia –, foi isso, sair na rua e ver o tecido que eu pintei andando pela cidade. 



A identificação com os Parangolés, de Hélio Oiticica, que na década de 60 dizia que a “arte deve ser vestida”, não é coincidência, mas influência assumida:

- Quando uma professora de moda perguntou o que era o parangolé para mim, respondi: olha, eu vivo isso. Nunca fiz quadro para ficar estático na parede. Eu faço o tecido pintado, bordado e ele vai embora. Ele tem vida própria. 
Nildo da Mangueira, com Parangolé, 1964

Interrupção para contar outra história
Itzik morou em Pirapora em 1979, ano de enchente, ocasião em que conheceu e se tornou amigo de Adelinho. Judeu, olhos claros, hoje de barba longa e dreads, mora em Jerusalém. Pediu a seu velho amigo uma camiseta colorida bordada. Camiseta bordada? respondeu Adelinho espantado. Logo você que só usa marrom? O costureiro, sempre muito atento às relações entre cores e subjetividades, diz que o amigo, “hippie real e autêntico” que viajou o mundo inteiro e desejava quando moço falar todas as línguas, nunca foi de usar roupas coloridas. Já se cansou de tentar convencê-lo a usar lenços, tintas. Hoje, após o pedido inesperado, contenta-se por bordar uma típica paisagem piraporense numa camiseta branca para o amigo. Itzik receberá Pirapora bordada no peito na capital de Israel, onde ensina às pessoas a respirar. Ninguém sabe respirar, almoçamos correndo, fazemos tudo com pressa  justifica Adelinho, defendendo a relevância do trabalho do amigo. Mas, pessoalmente, entre um assunto e outro não respira. Emenda a conversa.

Após ter trabalhado numa empresa de decoração e numa confecção em Belo Horizonte, Adélio cansou-se do ofício. Seu contato com artistas da capital mineira o fez atentar para o sentido artístico que latejava dentro de si. Eu estava cansado de decoração. Larguei tudo e voltei para Pirapora. Eu queria liberdade, queria começar minha vida de artista, conta. Interessante notar que essa pulsão que o fez buscar a liberdade foi a mesma que o fez buscar a arte, como se fossem os dois um processo só, ou como se fossem sinônimas essas duas palavras. 

- Voltei para Pirapora, trabalhei por uns dois anos com uma, duas máquinas de costura, mas, em um momento percebi que eu precisava melhorar meus instrumentos de trabalho. Por isso, morei em Brasília por quatro meses, onde trabalhei para conseguir dinheiro e então comprar mais máquinas, investir em mim mesmo. Consegui, retornei à Pirapora, abri uma confecção e me tornei o costureiro dos doidão. Sabe esse negócio de customização que falam hoje? Pois é, eu já o fazia no início da década de 90. Tingia, remendava, colocava uma estrela aqui, um brilho acolá... – ri, enquanto relembra.

E, antes de verbalizarmos pergunta já formulada, responde que sempre contou com apoio dentro de casa. Inclusive, em relação a sua sexualidade. Lembra que os amigos conservadores de seu pai chegavam neste para compartilhar um constrangimento: olha, acho que seu filho é ó… E Adélio pai, com uma mentalidade avançada para seu tempo, ouvia os amigos, mas em relação ao filho nunca foi de poda. Pelo contrário, conta Adelinho, ele e minha mãe sempre me deram corda para ser livre. 

- E esse apoio foi fantástico na minha vida. Imagine, eu saí daqui para estudar em BH, trabalhei lá, estava bem sucedido, ganhando dinheiro e, de repente, volto sem nenhum tostão no bolso e a primeira coisa que faço quando chego é abrir um bar numa ilha do rio São Francisco durante a Festa do Sol. Inclusive, eu servia amendoim com o sal numa tampinha e o povo falava que eu servia cocaína. Imagina? Só se eu estivesse rico para servir cocaína no meio do rio – gargalha. Mas o que eu quero dizer é que isso tudo era motivo suficiente para meus pais quebrarem o pau comigo, só que não foi assim. Muito pelo contrário. 


Interrupção para contar outra nova história
Além desse botequim existente durante a Festa do Sol, Adelinho também foi sócio de outro bar, Floridita, junto com um casal de amigos franceses, Christophe e Françoise. O nome do estabelecimento faz referência ao histórico bar homônimo em Havana, Cuba, fundado em 1817, famoso internacionalmente pelo daquiri e por ter sido frequentado pelo escritor norte-americano Ernest Hemingway. O Floridita piraporense não ficou famoso por ter um grande escritor como cliente assíduo, nem por servir cocaína como tira-gosto, mas estava na boca do povo devido aos boatos de que Adelinho se relacionava sexualmente com o casal de amigos. E era verdade? pergunto. Não, responde. Mas beijava a boca dos dois. Não passava disso. 

Davi pintou uma aquarela para dar a Adelinho de presente


A conversa seguiu fluida, pouco organizada, pouco óbvia. Em vários momentos nossas três histórias – minha, de Adelinho e de Davi – se confundiram e não sei se por mérito da energia trocada, ou da capacidade criativa do entrevistado que, ao contar sua própria história, também nos costurava a ela. Somos retalhos ou tecidos inteiros. Roupa é pessoa, Adelinho sintetiza.

Por fim, ou no meio, ou no começo, conversamos ainda sobre a recente movimentação artística pela qual a cidade está passando. Grupos autônomos de literatura, artes plásticas, teatro, capoeira, dança e outras manifestações articulam-se, fortalecem-se mutuamente, resgatando a cultura barranqueira, ou reinventando-a, tirando a poeira que pairou sobre o município durante longos anos. E, sobre o assunto, nós três convergimos no ponto de que não é mais tempo de ficarmos somente exaltando o passado, num saudosismo paralisante, mas de nos perguntarmos: o que podemos fazer para melhorar a produção cultural piraporense hoje, agora? E ficamos felizes em já encontrarmos várias respostas a essa pergunta acontecendo concretamente e outras ainda sendo pensadas todos os dias, pulsantes, latentes. Pirapora vive, concluo. E essa conclusão é minha, mas acho que partilharíamos o ponto de vista se esta afirmativa tivesse sido lançada naquela tarde de março, àqueles ventos que balançavam as árvores e faziam tudo parecer mais colorido, profundo e fácil, sobretudo fácil. 



***


Davi, 18, é artista plástico, autor da exposição Partos, ocorrida em Pirapora, 2014, e atualmente reside em Belo Horizonte. Tumblr:


Douglas de Oliveira Tomaz, 22, é escritor, educador, lançou artesanalmente o livro de poemas Escorre, e atualmente reside em Pirapora. Blog: www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br

segunda-feira, 20 de abril de 2015

“Todo mundo tem medo do bairro do outro” – Bairro Nossa Senhora Aparecida, Pirapora (MG)

Estacionamos o carro na antiga rua dos cabarés, batizada oficialmente como rua Rio Grande do Norte. Ouvi dizer que, na época do transporte fluvial pelo Velho Chico, quando Pirapora foi um ponto importante de carga-descarga, embarque-desembarque, nesta rua concentraram-se muitos cabarés, disse para David, que olhava perdido para as casas tentando encontrar resquícios desse passado narrado. É mesmo? respondeu-me admirado, gente, que beleza.





 

Assim iniciamos nossa caminhada pelo bairro Nossa Senhora Aparecida, berço da cidade de Pirapora (MG), bairro de pescadores, lavadeiras, marujos, mulheres da vida, gente que ia e vinha, seja de casa pro rio, do rio pra casa, ou do rio para outros lugares. Pirapora sempre foi cidade de movimento – ao contrário do que pensam alguns atuais moradores que só veem permanência no lugar onde o Rio São Francisco está em constante ir embora.

Era tarde de uma quinta-feira, dia comum, exceto pelo sol brando, ideal para caminhadas. Mais à frente, um grupo de crianças brincando correu em direção a nós, que tirávamos fotos de velhas construções em ruínas: o que cês tão fazendo? perguntaram-nos. Tirando fotos, algum de nós respondeu. E vocês só tiram fotos de casa velha? Não, de qualquer coisa relacionada ao bairro, respondemos entre risos. Ah! – saíram correndo, de volta para a brincadeira.

Outro morador, que ajudava os meninos a confeccionar uma pipa, também chegou até nós, incomodado com esses dois rapazes desconhecidos tirando fotos de seu pedaço. Chegou num tom de quem cuida da cria, meio desconfiado, demarcando território. Logo dissemos que estávamos fazendo um ensaio fotográfico sobre o bairro, o que lhe desfez os vincos da testa. Fiquem à vontade, nos disse no final da curta conversa, como se abrisse as portas de sua casa, autorizando mexer na geladeira.

Nessa hora, Ludmila, também moradora, cruzou a rua falando alto em tom de deboche com esse morador que nos recepcionara. Ludmila anda tranquila pelas ruas do bairro, trocando palavras com qualquer pessoa que passa, como um eixo articulador de piadas e conversas. Olhou-nos de relance, tirou sarro do jovem morador dizendo que ele estava grande demais para brincar de pipa, ao que ele respondeu com outro sarro, coisa de gente íntima. Prosseguimos caminhada. Ludmila entrou numa casa, depois saiu, sempre nos olhando de relance, curiosa, também desconfiada. Desconcertados, chegamos até ela, pedindo entrevista. Ludmila parece ser dessas pessoas sempre prontas para tirar foto, tirar sarro, impor-se. Parecia também estar em todos os lugares, ser alguém importante para o bairro, embora tenha nos confessado morar ali apenas há cinco anos. Parados na esquina, nos disse:


– Todo mundo tem medo do bairro do outro. Eu adoro meu bairro! Aqui antes era perigoso, não dava nem pra andar na rua, com medo de bala perdida. Hoje tá tranquilo.

– O que mudou? – perguntamos.

– Aí cê me pegou. Não sei. Talvez o povo ruim tenha sido preso.

– Talvez esse povo tenha tomado jeito.

– É.


Após a conversa, como suspeitado, autorizou a foto sem nenhuma resistência.




***

Dona Maria, 83 anos, colocava o lixo na calçada de casa, numa das muitas vielas do bairro. Nossa conversa rendeu bastante, quase puxamos cadeira, pedimos café – quase.


– Moro há 70 anos em Pirapora, vim da Bahia. No bairro Aparecida, moro há 55 anos. Eu que construí minha casa, quando eu cheguei só tinha canudo, conhece canudo? Um mato que dá assim, pontudo.

– Outra moradora me disse que aqui antes já foi perigoso, mas melhorou. A senhora acha que melhorou?

– Não sei. Será que já foi mais perigoso? Não sei. Nesse meu pedaço é tranquilo, de vez em quando acontece umas coisas ali detrás, esses trem de droga. Mas hoje todo lugar tem, né? Todo lugar tem desacerto.


Dona Maria serenamente nos conta como foi ter sua casa inundada pela enchente de 79 e, transportando a questão da moradia para a atualidade, revela, com certo assombro, que os moradores estão aterrando a lagoa que apelida o bairro e construindo casas sobre. Nem existe lagoa mais, diz. E o rio? Não gosto nem de ir lá, complementa, referindo-se à atual seca enfrentada pelo São Francisco. Dona Maria gosta de conversa e, após um grande silêncio, denúncia da prosa que finda, pergunta, meio afirmando: Cês tão procurando saber disso tudo aí pra escrever depois? É, respondo. E, sorrindo, balança afirmativamente a cabeça, como se eu respondesse o óbvio, como se já tivesse passado por muitas entrevistas e estivesse calejada dessa gente desconhecida que aparece fazendo perguntas do nada. Sobretudo, Dona Maria parece gostar dessa gente, embora já a conheça o bastante. Antes da despedida, reluta para tirar a foto, diz estar velha demais e detestar fotografia. Após muita insistência, posa desconfiada, sem qualquer entrega.




***

A visita terminou na Rua da Liberdade, lugar de festas juninas memoráveis, segundo contam. Entramos na ONG Afrogerais, que realiza trabalho de resgaste da cultura afro-brasileira com crianças e adolescentes do bairro, oferecendo gratuitamente oficinas de capoeira, bordado e dança. Lá encontramos Ivani, moradora da Vila Branca, outro bairro de periferia da cidade, mas assídua frequentadora deste. Cansados de caminhada, repousamos no exuberante jardim da casa e na fala de Ivani que, distante o suficiente para generalizar na análise, mas próxima o suficiente para empunhar afeto no que diz, assim definiu o Nossa Senhora Aparecida:


– É o termômetro da cidade. Se você quer saber se o carnaval tá bom, qual político vai ganhar, vá no bairro Aparecida. Acho que pela cidade ter nascido aqui, o bairro tem uma energia diferente.


Fomos embora conscientes de não termos percorrido nem um por cento do todo. Tudo é muito grande visto de perto. Por outro lado, algumas impressões não cabem em palavra alguma e não estão aqui. É preciso pisar para sentir. E o bairro Aparecida merece ver contada sua história. Existe algo muito forte enterrado aqui, disse para David, que se manteve calado para desenhar depois. Algo enterrado, mas que transborda pelas pichações nos muros, pelo alto número de praticantes de umbanda e candomblé silenciados, pelo histórico de marginalização, pela arquitetura barranqueira em ruínas. A palavra fúria, pichada em diferentes lugares, ecoa em minha cabeça enquanto saio do bairro. Pode ser uma boa definição para este algo enterrado, mostro a David. Ele concorda e sorri, cintilando belezas.