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segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Adélio Brasil, o costureiro



Entrevistar Adelinho foi muito fácil. A começar pela permissão íntima de se usar o nome no diminutivo; fácil também pelo ambiente confortável de sua casa, pelo vento de março que agitava as árvores da rua e abraçava nossa conversa, pela generosidade com que ele interrompia a entrevista para oferecer suco, cerveja, vinho, qualquer carinho que o valha. Sobretudo fácil, porque todas as perguntas foram respondidas antes mesmo de terem sido feitas. Bastava ouvir. E ouvir, quando o emissor é um exímio contador de histórias, que prolonga ou encurta palavras no momento certo, aumenta ou diminui a entonação da voz no intuito de ênfase, pausa, sabe o peso que cada palavra tem, enfim, ouvir nesse caso é fácil, muito fácil.

Adelinho mora numa casa-ateliê de dois andares, quintal vasto, lugar onde costura, cria, recebe visitas e dança sozinho pelas madrugadas, segundo diz. Lá, recebeu a mim e a Davi para uma prosa caleidoscópica em que início, meio e término se confundiam, assim como nós três. Em sua fala, a todo momento procurava ligações entre nossas três personalidades, num ato tanto de quem se habituou a receber visita e cuida de incluí-la na conversa cotidiana, quanto de artista que recolhe diferentes tecidos espalhados pela casa – e os costura. Adelinho é costureiro e aquela tarde foi de estabelecer elos. 




- Gosto muito do processo de criação no vestir. Eu não trabalho com egoísmos pessoais. O vestir é muito pelo contrário, a pessoa coloca muito mais para fora o que ela realmente é. Tem gente que pensa que vestir é fantasia, e não é. O dia em que eu tô mal, eu tô de calça comprida, uma camisa, assim, lisa, bege... Pode saber, não tá bem – gargalha Adelinho, que naquele dia estava todo de amarelo, qual picolé de pequi.

Formado em Belas Artes e em Decoração, aprendeu a costurar observando as costureiras de uma fábrica para a qual foi chamado para tingir tecidos, em Belo Horizonte, após um período trabalhando, meio a contragosto, como decorador: Sabe quando você se sente em casa? Aquela coisa de manchar tecido e a pintura virar roupa, tomar vida e ir para a rua. Eu acho que o que me fascinou foi isso – abaixa o tom, como quem chega na pedra de uma certeza e a reverencia –, foi isso, sair na rua e ver o tecido que eu pintei andando pela cidade. 



A identificação com os Parangolés, de Hélio Oiticica, que na década de 60 dizia que a “arte deve ser vestida”, não é coincidência, mas influência assumida:

- Quando uma professora de moda perguntou o que era o parangolé para mim, respondi: olha, eu vivo isso. Nunca fiz quadro para ficar estático na parede. Eu faço o tecido pintado, bordado e ele vai embora. Ele tem vida própria. 
Nildo da Mangueira, com Parangolé, 1964

Interrupção para contar outra história
Itzik morou em Pirapora em 1979, ano de enchente, ocasião em que conheceu e se tornou amigo de Adelinho. Judeu, olhos claros, hoje de barba longa e dreads, mora em Jerusalém. Pediu a seu velho amigo uma camiseta colorida bordada. Camiseta bordada? respondeu Adelinho espantado. Logo você que só usa marrom? O costureiro, sempre muito atento às relações entre cores e subjetividades, diz que o amigo, “hippie real e autêntico” que viajou o mundo inteiro e desejava quando moço falar todas as línguas, nunca foi de usar roupas coloridas. Já se cansou de tentar convencê-lo a usar lenços, tintas. Hoje, após o pedido inesperado, contenta-se por bordar uma típica paisagem piraporense numa camiseta branca para o amigo. Itzik receberá Pirapora bordada no peito na capital de Israel, onde ensina às pessoas a respirar. Ninguém sabe respirar, almoçamos correndo, fazemos tudo com pressa  justifica Adelinho, defendendo a relevância do trabalho do amigo. Mas, pessoalmente, entre um assunto e outro não respira. Emenda a conversa.

Após ter trabalhado numa empresa de decoração e numa confecção em Belo Horizonte, Adélio cansou-se do ofício. Seu contato com artistas da capital mineira o fez atentar para o sentido artístico que latejava dentro de si. Eu estava cansado de decoração. Larguei tudo e voltei para Pirapora. Eu queria liberdade, queria começar minha vida de artista, conta. Interessante notar que essa pulsão que o fez buscar a liberdade foi a mesma que o fez buscar a arte, como se fossem os dois um processo só, ou como se fossem sinônimas essas duas palavras. 

- Voltei para Pirapora, trabalhei por uns dois anos com uma, duas máquinas de costura, mas, em um momento percebi que eu precisava melhorar meus instrumentos de trabalho. Por isso, morei em Brasília por quatro meses, onde trabalhei para conseguir dinheiro e então comprar mais máquinas, investir em mim mesmo. Consegui, retornei à Pirapora, abri uma confecção e me tornei o costureiro dos doidão. Sabe esse negócio de customização que falam hoje? Pois é, eu já o fazia no início da década de 90. Tingia, remendava, colocava uma estrela aqui, um brilho acolá... – ri, enquanto relembra.

E, antes de verbalizarmos pergunta já formulada, responde que sempre contou com apoio dentro de casa. Inclusive, em relação a sua sexualidade. Lembra que os amigos conservadores de seu pai chegavam neste para compartilhar um constrangimento: olha, acho que seu filho é ó… E Adélio pai, com uma mentalidade avançada para seu tempo, ouvia os amigos, mas em relação ao filho nunca foi de poda. Pelo contrário, conta Adelinho, ele e minha mãe sempre me deram corda para ser livre. 

- E esse apoio foi fantástico na minha vida. Imagine, eu saí daqui para estudar em BH, trabalhei lá, estava bem sucedido, ganhando dinheiro e, de repente, volto sem nenhum tostão no bolso e a primeira coisa que faço quando chego é abrir um bar numa ilha do rio São Francisco durante a Festa do Sol. Inclusive, eu servia amendoim com o sal numa tampinha e o povo falava que eu servia cocaína. Imagina? Só se eu estivesse rico para servir cocaína no meio do rio – gargalha. Mas o que eu quero dizer é que isso tudo era motivo suficiente para meus pais quebrarem o pau comigo, só que não foi assim. Muito pelo contrário. 


Interrupção para contar outra nova história
Além desse botequim existente durante a Festa do Sol, Adelinho também foi sócio de outro bar, Floridita, junto com um casal de amigos franceses, Christophe e Françoise. O nome do estabelecimento faz referência ao histórico bar homônimo em Havana, Cuba, fundado em 1817, famoso internacionalmente pelo daquiri e por ter sido frequentado pelo escritor norte-americano Ernest Hemingway. O Floridita piraporense não ficou famoso por ter um grande escritor como cliente assíduo, nem por servir cocaína como tira-gosto, mas estava na boca do povo devido aos boatos de que Adelinho se relacionava sexualmente com o casal de amigos. E era verdade? pergunto. Não, responde. Mas beijava a boca dos dois. Não passava disso. 

Davi pintou uma aquarela para dar a Adelinho de presente


A conversa seguiu fluida, pouco organizada, pouco óbvia. Em vários momentos nossas três histórias – minha, de Adelinho e de Davi – se confundiram e não sei se por mérito da energia trocada, ou da capacidade criativa do entrevistado que, ao contar sua própria história, também nos costurava a ela. Somos retalhos ou tecidos inteiros. Roupa é pessoa, Adelinho sintetiza.

Por fim, ou no meio, ou no começo, conversamos ainda sobre a recente movimentação artística pela qual a cidade está passando. Grupos autônomos de literatura, artes plásticas, teatro, capoeira, dança e outras manifestações articulam-se, fortalecem-se mutuamente, resgatando a cultura barranqueira, ou reinventando-a, tirando a poeira que pairou sobre o município durante longos anos. E, sobre o assunto, nós três convergimos no ponto de que não é mais tempo de ficarmos somente exaltando o passado, num saudosismo paralisante, mas de nos perguntarmos: o que podemos fazer para melhorar a produção cultural piraporense hoje, agora? E ficamos felizes em já encontrarmos várias respostas a essa pergunta acontecendo concretamente e outras ainda sendo pensadas todos os dias, pulsantes, latentes. Pirapora vive, concluo. E essa conclusão é minha, mas acho que partilharíamos o ponto de vista se esta afirmativa tivesse sido lançada naquela tarde de março, àqueles ventos que balançavam as árvores e faziam tudo parecer mais colorido, profundo e fácil, sobretudo fácil. 



***


Davi, 18, é artista plástico, autor da exposição Partos, ocorrida em Pirapora, 2014, e atualmente reside em Belo Horizonte. Tumblr:


Douglas de Oliveira Tomaz, 22, é escritor, educador, lançou artesanalmente o livro de poemas Escorre, e atualmente reside em Pirapora. Blog: www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br

segunda-feira, 20 de abril de 2015

“Todo mundo tem medo do bairro do outro” – Bairro Nossa Senhora Aparecida, Pirapora (MG)

Estacionamos o carro na antiga rua dos cabarés, batizada oficialmente como rua Rio Grande do Norte. Ouvi dizer que, na época do transporte fluvial pelo Velho Chico, quando Pirapora foi um ponto importante de carga-descarga, embarque-desembarque, nesta rua concentraram-se muitos cabarés, disse para David, que olhava perdido para as casas tentando encontrar resquícios desse passado narrado. É mesmo? respondeu-me admirado, gente, que beleza.





 

Assim iniciamos nossa caminhada pelo bairro Nossa Senhora Aparecida, berço da cidade de Pirapora (MG), bairro de pescadores, lavadeiras, marujos, mulheres da vida, gente que ia e vinha, seja de casa pro rio, do rio pra casa, ou do rio para outros lugares. Pirapora sempre foi cidade de movimento – ao contrário do que pensam alguns atuais moradores que só veem permanência no lugar onde o Rio São Francisco está em constante ir embora.

Era tarde de uma quinta-feira, dia comum, exceto pelo sol brando, ideal para caminhadas. Mais à frente, um grupo de crianças brincando correu em direção a nós, que tirávamos fotos de velhas construções em ruínas: o que cês tão fazendo? perguntaram-nos. Tirando fotos, algum de nós respondeu. E vocês só tiram fotos de casa velha? Não, de qualquer coisa relacionada ao bairro, respondemos entre risos. Ah! – saíram correndo, de volta para a brincadeira.

Outro morador, que ajudava os meninos a confeccionar uma pipa, também chegou até nós, incomodado com esses dois rapazes desconhecidos tirando fotos de seu pedaço. Chegou num tom de quem cuida da cria, meio desconfiado, demarcando território. Logo dissemos que estávamos fazendo um ensaio fotográfico sobre o bairro, o que lhe desfez os vincos da testa. Fiquem à vontade, nos disse no final da curta conversa, como se abrisse as portas de sua casa, autorizando mexer na geladeira.

Nessa hora, Ludmila, também moradora, cruzou a rua falando alto em tom de deboche com esse morador que nos recepcionara. Ludmila anda tranquila pelas ruas do bairro, trocando palavras com qualquer pessoa que passa, como um eixo articulador de piadas e conversas. Olhou-nos de relance, tirou sarro do jovem morador dizendo que ele estava grande demais para brincar de pipa, ao que ele respondeu com outro sarro, coisa de gente íntima. Prosseguimos caminhada. Ludmila entrou numa casa, depois saiu, sempre nos olhando de relance, curiosa, também desconfiada. Desconcertados, chegamos até ela, pedindo entrevista. Ludmila parece ser dessas pessoas sempre prontas para tirar foto, tirar sarro, impor-se. Parecia também estar em todos os lugares, ser alguém importante para o bairro, embora tenha nos confessado morar ali apenas há cinco anos. Parados na esquina, nos disse:


– Todo mundo tem medo do bairro do outro. Eu adoro meu bairro! Aqui antes era perigoso, não dava nem pra andar na rua, com medo de bala perdida. Hoje tá tranquilo.

– O que mudou? – perguntamos.

– Aí cê me pegou. Não sei. Talvez o povo ruim tenha sido preso.

– Talvez esse povo tenha tomado jeito.

– É.


Após a conversa, como suspeitado, autorizou a foto sem nenhuma resistência.




***

Dona Maria, 83 anos, colocava o lixo na calçada de casa, numa das muitas vielas do bairro. Nossa conversa rendeu bastante, quase puxamos cadeira, pedimos café – quase.


– Moro há 70 anos em Pirapora, vim da Bahia. No bairro Aparecida, moro há 55 anos. Eu que construí minha casa, quando eu cheguei só tinha canudo, conhece canudo? Um mato que dá assim, pontudo.

– Outra moradora me disse que aqui antes já foi perigoso, mas melhorou. A senhora acha que melhorou?

– Não sei. Será que já foi mais perigoso? Não sei. Nesse meu pedaço é tranquilo, de vez em quando acontece umas coisas ali detrás, esses trem de droga. Mas hoje todo lugar tem, né? Todo lugar tem desacerto.


Dona Maria serenamente nos conta como foi ter sua casa inundada pela enchente de 79 e, transportando a questão da moradia para a atualidade, revela, com certo assombro, que os moradores estão aterrando a lagoa que apelida o bairro e construindo casas sobre. Nem existe lagoa mais, diz. E o rio? Não gosto nem de ir lá, complementa, referindo-se à atual seca enfrentada pelo São Francisco. Dona Maria gosta de conversa e, após um grande silêncio, denúncia da prosa que finda, pergunta, meio afirmando: Cês tão procurando saber disso tudo aí pra escrever depois? É, respondo. E, sorrindo, balança afirmativamente a cabeça, como se eu respondesse o óbvio, como se já tivesse passado por muitas entrevistas e estivesse calejada dessa gente desconhecida que aparece fazendo perguntas do nada. Sobretudo, Dona Maria parece gostar dessa gente, embora já a conheça o bastante. Antes da despedida, reluta para tirar a foto, diz estar velha demais e detestar fotografia. Após muita insistência, posa desconfiada, sem qualquer entrega.




***

A visita terminou na Rua da Liberdade, lugar de festas juninas memoráveis, segundo contam. Entramos na ONG Afrogerais, que realiza trabalho de resgaste da cultura afro-brasileira com crianças e adolescentes do bairro, oferecendo gratuitamente oficinas de capoeira, bordado e dança. Lá encontramos Ivani, moradora da Vila Branca, outro bairro de periferia da cidade, mas assídua frequentadora deste. Cansados de caminhada, repousamos no exuberante jardim da casa e na fala de Ivani que, distante o suficiente para generalizar na análise, mas próxima o suficiente para empunhar afeto no que diz, assim definiu o Nossa Senhora Aparecida:


– É o termômetro da cidade. Se você quer saber se o carnaval tá bom, qual político vai ganhar, vá no bairro Aparecida. Acho que pela cidade ter nascido aqui, o bairro tem uma energia diferente.


Fomos embora conscientes de não termos percorrido nem um por cento do todo. Tudo é muito grande visto de perto. Por outro lado, algumas impressões não cabem em palavra alguma e não estão aqui. É preciso pisar para sentir. E o bairro Aparecida merece ver contada sua história. Existe algo muito forte enterrado aqui, disse para David, que se manteve calado para desenhar depois. Algo enterrado, mas que transborda pelas pichações nos muros, pelo alto número de praticantes de umbanda e candomblé silenciados, pelo histórico de marginalização, pela arquitetura barranqueira em ruínas. A palavra fúria, pichada em diferentes lugares, ecoa em minha cabeça enquanto saio do bairro. Pode ser uma boa definição para este algo enterrado, mostro a David. Ele concorda e sorri, cintilando belezas. 























sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Diálogo onírico disforme: Surrealismo, por David Nascimento e Douglas de Oliveira Tomaz



Surrealismo?

David Nascimento:
Fugir ao irreal, incorporando os desejos inalcançáveis. Despertar de um sonho e poder gerá-lo visualmente, proporcionando a busca por novas fantasias. Adormecer, visitar Sigmund Freud em uma cidade chamada clímax, onde os habitantes só se masturbam. Comer um bolo de gozo feito por gafanhotos azuis no purgatório e prosseguir roendo pequis coloridos, que nunca são gastos para a não-existência de espinhos. Dialogar com o inconsciente.

Douglas de Oliveira Tomaz:
Sim, surrealismo, ou sonho, paredes transpostas, rinocerontes em piscinas, corrida para pular na corrida para pular na corrida para pular. Livro que se abre e dá em árvore, em nuvem, nuvem que dá em diamante colorido, Clube da Esquina, Minas Gerais de alguns meses, hoje, hoje, palavras brotando do hoje regadas pela mente de agora, acumulada pelo ontem e pelos anteontens. Surrealismo mistério diário ao acordar pela manhã. Tentativa vã de domar o inconsciente com palavra. Talvez por isso não consigamos lembrar nossos sonhos, em muitas vezes, porque sua linguagem ultrapassa palavra, ultrapassa a lógica consciente da narração, coesão & coerência.  Ultrapassa, inclusive, a tentativa de lembrança, porque lembrança tá na parte segura, terra firme, o consciente está minado por cercas.

David:
Inserir o surrealismo na minha arte é automático. Busco por símbolos e, de forma atrativa, eles se ajeitam na parede úmida dos meus devaneios, esperando o ato de produção. Acabam se transformando em características e são fixados em durações, caso o tal ato demore acontecer. Dalí teve Gala, gavetas, formigas, relógios de Gorgonzola, elefantes, girafas em chamas e pães gigantescos. Tornaram-se marcas de seus períodos. Eu tenho olhos, seios, pênis, vaginas, o erotismo em um só ciclo, atual e sem previsão de término. Tudo atiçado no inconsciente. Frutos de minhas fugas. Vinculadas às motivações pessoais.

Douglas:
Talvez eu nunca incorpore o surrealismo plenamente em minha literatura. Digo ser impossível, por hora, essa incorporação plena, porque, enquanto escritor zumbi rastejante, ainda me preocupo com uma estética tradicional. Conseguirei produzir surrealismo quando essa preocupação não mais existir, quando for só eu e o papel e minha inconsciência, sem revisões, sem preocupação com a repetição de palavras, com a falta de ritmo, com a “ortografia errada”. Conseguirei produzir surrealismo quando a consciência deixar de existir, domadora implacável e chata. Há um tempo, tento, através da escrita, narrar/descrever sonhos importantes; e, abobado, tenho percebido que meu inconsciente é lógico, ou, se não chega a tanto, possui uma organização caótica que ainda desconheço, mas que existe. Percebo a repetição de símbolos, de significados e sentidos nos meus sonhos, como se se comunicassem, ou morassem num mesmo canto onde a conversa acontece sempre fluida. Nas últimas semanas, tenho levado essa tentativa um pouco mais a sério. Escrevi L. e o canal que se expande  a partir de um sonho. Na verdade, é narrativa toda sonhada. Estou adorando esse movimento de diluir paredes e não me preocupar com o de-sen-ca-de-a-men-to dos fatos. Fatos não precisam se desencadear. Podem nascer de si mesmos, sem qualquer relação com a anterioridade. Coincidentemente, estou lendo dois livros também oníricos: O livro dos sonhos, do Jack Kerouac, em que ele literalmente cospe fora seus sonhos após acordar, do jeitinho que eles vêm à mente, e A céu aberto, do João Gilberto Noll, autor contemporâneo brasileiro, que é um romance sem intervalos, sem divisão por capítulos, um fôlego só, pedrada: um fato, ou sonho, vai levando a outro, que leva a outro, que leva a outro e assim vai, parece que sem fim, embora o livro acabe em algum momento – ou  não. Tento aprender com eles. Quando leio também produzo literatura – no inconsciente.

David:
Como não ser influenciado por um indivíduo que eu admire? A literatura que o Douglas concebe é o que eu estava buscando há algum tempo para poder me inspirar, mas as referências anteriores foram todas distantes. Estou podendo acompanhar, absorver do seu processo criativo, e de perto. É como se alguém sonhasse por mim através da escrita, sugerindo o que fabricar. Então posso regressar, tentar propor de volta. A influência se dá na parte eufórica da minha psique, onde posso pressupor através da leitura de suas obras. Está me ajudando no processo de fortalecimento das temáticas, transcendendo o pensamento ‘’normal’’ e abortando a razão.

Douglas:
Desde que conheci a obra surrealista de David, tenho detonado as paredes da minha literatura com dinamites. Conversando com Edson Lopes, outro dia, ele falou em “literatura positiva”, de positivismo mesmo, e gostei do termo, gostei porque tenho tentado me distanciar cada vez mais dela e a obra do David tem me ajudado neste sentido. Olhos na testa, nos seios, seios no nariz, dedos em todos os lugares, pênis desmembrados, rabiscos, rabiscos soltos e livres, de cinco minutos, como ele diz: não há como não sair transformado desse contato. E essa transformação, claro, reflete-se na escrita, porque a escrita é a consequência desse liquidificador ligado que gira vivendo. David é gênio. Um gênio modesto.

De Douglas para David: você utilizou sangue próprio em algumas de suas obras. Sangue é surrealista?

O sangue, hoje, se estendeu em técnica, mas comecei a utilizá-lo em minhas obras como consequência de um sonho que tive. E só é surrealista, porque eu o converto para. Digo, minha obra o converte, com o que ela carrega.

De David para Douglas: quando começou a escrever, já fazia planos de seguir carreira? Consegue se lembrar do primeiro ato literário?

Importante saber que ainda não tenho carreira, estou buscando caminhos. Mas a certeza temporária de que a literatura é o sentido da minha vida existe e está, por enquanto, bem nítida. Quando comecei a escrever, o sentido de “carreira” ainda não estava formado em minha cabeça, ainda bem – preferiria que ele nunca tivesse se formado. A escrita começou com o teatro na infância, como membro do grupo Metralhas, dirigido pelo Roberto Neves, porque como herança deste período,  recebi o contato com o texto teatral. Lembro que escrevi minha primeira peça aos onze anos, para a escola: era sobre folclore, tinha apenas uma página frente e verso e havia sido escrita à mão. Continuei escrevendo peças de teatro para a escola até os quinze, aproximadamente, quando me descobri criando outros tipos de textos, como contos e crônicas, a partir de motivações particulares, sem qualquer demanda externa. Com dezesseis, escrevi um conto pequeno, chamado Um segundo, o primeiro que me despertou para algum sentido de literatura. Havia um conceito nele, uma estética, um uso racional e subjetivo de palavras, mesmo que raso, algum sentimento impregnado. O despertador tocou ali, mas só um ano depois comecei a escrever compulsivamente, todos os dias. Os textos eram ruins, mas o incômodo-dor-coceira-ânsia-perturbação-susto que motiva o texto é o mesmo desde aquele tempo e enquanto existir, vivo.  Viveremos.
  


- trabalhos do David Nascimento aqui.
- L. e o canal que se expande, de Douglas de Oliveira Tomaz, aqui. 

domingo, 30 de novembro de 2014

David Nascimento, outros trabalhos







o perfil do artista aqui.

David Nascimento

O processo criativo surge da minha distração, sempre estou à procura de situações que me levam a outra dimensão, fazendo produzir com mais intensidade. Distraio-me em simplicidades, e a simplicidade hipnótica do olhar é a principal das minhas distrações. Eu acho que, das coisas que me motivam, a visão aberta e ilimitada é a mais importante. Sou muito questionado quanto à maneira que retrato o olhar em minhas obras. Vai além de uma fissura desde que me entendo por gente, percepção, atenção, cuidado, perspicácia são coisas que as pessoas me cobram com intensidade, e a melhor maneira que encontrei para evoluir nesse sentido, foi a de inserir isso na minha arte. 


Estou em um processo corrosivo de encontro, com tantos recursos, a arte se expande de forma monstruosa. Mas isso vai além do pessoal, abrange algo que todo o mundo deveria ter: a visão completa dos sentidos vista de todos os ângulos, a mostra da realidade no irreal e o abandono dos limites referenciais. 


Minhas duas maiores influências tiveram vidas opostas, mas viveram de forma intensa: uma foi mulher, sofreu e amou com intensidade, teve como única alternativa, a pintura. Pintava sua realidade, a realidade do sofrimento, não se deixou vegetar. O outro se intitulava o próprio surrealismo, teve uma base oposta, uma evolução prematura e transgressora. 


Descobri em mim, a oportunidade de ser sonho e realidade, quebrar essa tênue e acompanhar com suavidade a minha evolução. Lembro-me de que, ainda pirralho, na casa da minha avó, pegava caracóis em tempo de chuva e pintava suas conchas. Eu enxergava mais vida, acho que todos deveriam pintar suas conchas, não se limitar na proteção, fazer dela seu acervo de sonhos.


- David Nascimento, em entrevista concedida ao Salto, 03 de outubro de 2014.

Mais trabalhos do artista aqui. 

David Nascimento


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