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segunda-feira, 12 de junho de 2017

- corte



Antes que eu cortasse o cabelo há mais ou menos um mês atrás, ainda que minha perspectiva de tempo não me dê certeza dos dias, ou de como passam − mantive nos fios, antigos e mais longos, o sabor dos dias em que talvez te amasse. Não é totalmente absurdo dizer que a possibilidade de amor pesa a cabeça, e os cabelos precisam ir pra gente continuar vivendo sem carregar essa ideia no topo do mundo da gente mesmo.

Cortados os fios, cheguei em casa tranquila, mas olhei a janela um dia desses, o que me fez recordar, nos fios antigos, a visão da sua. A minha continua a dar pra varais e barulhos de carros e buzinas. O amor, sempre juvenil, é esse ruído todo, era o que minha mãe dizia enquanto eu chorava por alguma paixão adolescente. Pegava a tesoura, e ia aparando cuidadosa, ponta a ponta, às vezes me punha franjas, às vezes me desfiava, e o peso do mundo desaparecia, porque era outra a pessoa que surgia debaixo das tesouras de minha mãe.

Olhando as janelas: “despe-te dos ruídos”, aparecem os versos que não recordo de quem são e me gritam por dentro, como se lá, no profundo das coisas, existisse sempre alguém que me rodeia e me grita poesia quando me lembro de ti. Os cabelos crescem num outro tom de afeto, mas você vez ou outra me aparece num ruído ou sonho qualquer, e fico imaginando como teria sido se. A cabeça ruidosa se apega menos aos fios, às vezes, e experimenta o oco da luz do fim da tarde, o sino das horas inteiras da igreja do lado, de um dia na cozinha enquanto tateávamos, no escuro, a tentativa do corpo do outro.

Talvez haja amor não por ti, mas pela lembrança barulhenta que vem na fantasiação e me faz colocar Vinicius pra tocar em dia de sábado, como se cortasse os cabelos novamente e desfiasse no som das coisas o passo ruidoso que antecede a gente ante a esse esforço subtil de esquecer.

– porque hoje é sábado. 


***



Brenda K. Souza, 24 anos, mestranda em estudos literários.


Ilustração: Barbarete, ou Bárbara Louzada. Artista, tatuadora e geógrafa, sobretudo uma entusiasta da vida. Atualmente, estuda Artes Plásticas na Universidade Federal do Espírito Santo, mas conserva a certeza de que os cantos do mundo têm muito mais a ensinar e a revelar sobre o universo da arte e do sentir.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Feliz ano novo, ou o ano em que fomos todos paridos


“Estamos em 2015”, diz um político na internet. Ele quis dizer, com essa célebre asserção, que precisamos evoluir de alguma forma. Não acompanhei a discussão, mas na certa se referia a algo relacionado a gênero, violência, ou legalização do aborto. Poderia ser também ao contrário, e o cara só quisesse dizer que estar em 2015 é um ano auspicioso para prender jovens delinquentes. Melhor que isso, ele poderia apenas estar fazendo uma referência à seca, lembrou-se de 1915, lembrou-se do quinze e, 100 anos depois da maior seca já documentada, acometeu-lhe o fato de que estaríamos envoltos do mesmo ciclo. Político ligado em consciência ecológica talvez, em gênero e essas coisas que se passam em 2015, coisa rara hoje em dia.

Há uma crença no imaginário esotérico de que anos ímpares são os anos de maior prosperidade e essa lengalenga toda que acompanha o sentido de ser próspero. É como se se esperasse um ano de desastres e outro de bonança, uma alternância que seria bem justa no final das contas. Daria pra respirar em meio à desgraça se depois de 365 dias tudo fosse ouro no final do arco-íris, e o único problema que nos acometesse fossem os anões guardiões do ouro que tentamos a todo custo, em bró de fantasia, levar pra casa.

A Globo fará uma retrospectiva emocionante no final do ano, promete suor e lágrimas aos telespectadores na hora de acompanhar as notícias mais importantes. Com certeza veremos novamente os naufrágios, crianças mortas, conflitos, congresso em chamas, campanhas, fogo, fogo, fogo, fogo (alguém descuidou do cigarro aceso), e em meio ao incêndio alguma figura que se destacou no ano, por bondade ou honestidade, tão defendidas pelos éticos padrões sociais. Aposto que só veremos o mais importante; não vai ter nêgo barrado em ônibus não, as praias da zona Sul continuaram bem habitadas. Todos os lados sul do país continuarão com sua morosa paz ano que vem e a Cantareira se encherá de água novamente, Deus queira.

Pensemos nos anos que passaram, e coloquemos em pauta questões de suma importância, questões que definam o sujeito que você foi e que você é hoje em dia, no tumultuado ano de 2015. Por exemplo, pedi no café da manhã, desses quase 365 dias, entre essas lanchonetes e padarias encardidas, um grande número de pães de queijo e café. Isso demonstra que mantive um padrão durante o ano, não oscilei no cardápio, aliás, nem mesmo quis experimentar outra coisa pela manhã. Mas ano que vem será diferente, ah, com certeza, totalmente diferente.

– Extra, extra! Parem as máquinas, revejam as notícias do dia! Aqui pro norte, 2016 ainda será um ano de naufrágios, é o que diz os tabloides regionais, a crítica especializada do pessimismo.  Talvez o sertão vire mar nas palavras de algum cantador daqui, mas por enquanto...

Não esperemos nada diferente, mas vamos manter o ritual da mudança, ok? Ah, não sabem como fazê-lo? É fácil, vem aqui que eu lhe ensino. Olha, para ter dinheiro, vista uma roupa íntima na cor amarela e guarde uma nota na carteira durante o ano todo, certo? Tá... eu sei que estamos em crise e blá blá, mas cê quer ter prosperidade ou não?

Segundo passo, coma sete sementes de uva na passagem do ano. Eu não sei bem pra que serve isso, mas dizem que funciona, e não se esqueça de pular as ondas, hein? Se não houver mar, apenas tente não se afogar de outras formas. Por último, mas não menos importante, diga em alto e bom tom: “ano que vem será o meu ano, tudo novo, tudo diferente.”.

Agora, depois dos rituais, se vigie e ore pra não passar o primeiro de janeiro lambendo o prato de comida requentada do dia 31 de dezembro. Quanto a mim, cuidarei para ao menos não comer tanto pão de queijo.


P.S.: devo dizer que em 2015 tropecei à beça, vou cuidar pra manter o equilíbrio no ano que se segue.

***

Brenda K. Souza, estudante de letras, 23 anos, natural de Buritizeiro-MG, sem casa no momento. Está, atualmente, associada do clube nacional do otimismo. Escreve quando não pode, e é quando não deve, isso para omitir detalhes.

Ilustração: Vinicius Ribeiro. 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Três escritoras, por Brenda K. Souza


Escolher o que se lê parte, antes de tudo, de um reconhecimento. Elenquei aqui três escritoras com as quais me reconheço nas linhas, em suas modificadas formas. Lembro-me da menina que ao descobrir cada uma delas, acabava por se descobrir também. A seu modo, todas escrevem para salvar a si e alguém, e eu leio com essa mesma intenção.

Uma) Clarice Lispector

Louca, hermética, mística, genial, inovadora: adjetivos que perpassaram toda obra escrita de Clarice. De origem pobre, a jovem escritora judia de sotaque engraçado, causa espanto e admiração no cenário da literatura nacional com o lançamento do seu primeiro livro: Perto do coração selvagem. O romance antecederia as principais características das obras subsequentes, a principal delas, o rompimento da lógica cartesiana no romance. Introspectiva para aqueles que não a entenderam, a escritora dá lugar ao pensamento, ao fluxo, escrevendo apenas, como que para salvar a vida de alguém (sem compromissos com o cânone), talvez a dela, como viria a dizer.  Sua escrita é selvagem e convence apenas por ser; suas personagens, assim como sua criadora estão no limiar da descoberta, dos pequenos delitos, das fugas morais, na recriação do mundo e do próprio fazer literário. Em Clarice, biografia e obra se confundem, se misturam, a confissão impregnada nas personagens em terceira pessoa traz em seu cerne um naco grande de carne e essência da escritora, talvez, por isso, ela ficava oca quando terminava de escrever. A palavra para ela é além, é corpórea, matéria vertente, água em fluxo corrente. 

sim, quero a palavra última que também é tão primeira que já se confunde com a parte intangível do real. Ainda tenho medo de afastar da lógica porque caio no instintivo e no direto (...). Que mal porém tem eu me afastar da lógica? Estou lidando com matéria- prima.

Em entrevista ela confirmou minha expectativa ao dizer que para entendê-la era preciso, antes de tudo, sentir, de nada adiantavam as teorias, ela escapava e escapa a qualquer conceituação de gênero. Eu sinto.

Duas) Ana Cristina César

Outra mulher que também causaria reboliço algumas décadas mais tarde, era a carioca Ana C. César. A sua experiência com a escrita começou muito cedo, segundo a mãe, desde pequena, antes mesmo de conhecer os signos escritos, ela ditava e pedia que escrevesse; em suas primeiras publicações há textos produzidos aos 16 anos apenas. Conhecida por ter feito parte da chamada geração mimeógrafo, César teve a maioria de suas publicações desvinculadas de editoras, pois dedicava-se a uma produção artesanal, acessível ao leitor, marginal. Escrita em tom confessional, a poesia de Ana convida a um mergulho na própria identidade, na dela, na nossa. Sua palavra se articula de maneira simples, esvoaçante, descompromissada com regras de sintaxe. A escritora também segue um fluxo, o da confissão, por esse motivo torna-se tênue a linha entre o que é ficção e o que é real; tudo é mentira, tudo tem vias de ser verdade. A intimidade dos textos é atordoante, Ana salta das páginas e mostra ao leitor a janela do texto de onde viria a pular em outubro de 83, escrever é premunir, ler é testemunhar essa poética felina livre, que salta despreocupadamente.

Localizaste o tempo e o espaço no discurso/que não se gatografa impunemente./É ilusório pensar que restam dúvidas/e repetir o pedido imediato./O nome morto vira lápide,/falsa impressão de eternidade./Nem mesmo o cio exterior escapa/à presa discursiva que não sabe. Nem mesmo o gosto frio de cerveja no teu corpo/se localiza solto na grafia./Por mais que se gastem sete vidas/a pressa do discurso recomeça a recontá-las fixamente, sem denúncia/ gatográfica que a salte e cale.

Três) Marjane Satrapi

Ainda buscando relacionar biografia e autora, destaco por último, mas não menos importante, a escritora iraniana Marjane Satrapi. Escrever, criar, é também e sempre um ato político. A escritora e desenhista emerge com uma proposta diferente de contar, de confessar e de estimular atitudes “transgressoras” frente a um regime autoritário e violento. Em seu primeiro livro, Persépolis, escrito e ilustrado através de quadrinhos, a autora relata sobre sua infância até a vida adulta permeada por fatores como política, comportamento, construção de identidade, preconceito e questões que perpassam a vida de qualquer mulher durante seu desenvolvimento. O “universo feminino” tratado no livro vai desde as lembranças das mulheres mais velhas da família a posicionamentos frente à opressão vivida tanto no oriente quanto no ocidente, opressão essa que impõe padrões de comportamento a meninas e mulheres e pune direta ou indiretamente quem não os segue.



domingo, 30 de novembro de 2014

Par-to tempo

I

A água escorreu verbo no primeiro banho do dia. Manchou de vapor e suor, espelhos e roupas.O pote encheu-se pingando, pulsando. Na separação das gotas que o compunham, decidi pela escolha da que suasse e soasse impiedosa, a que molhasse primeiro os olhos e meu pedaço de papel. 

II

THERE IS NO TIME

III

Estico as pernas e consigo alcançar a parede do ventre que me carrega agora. É de espaço pequeno, e o desconforto sugere saída.

IV

No espaço cabe um poema, me dê tempo para escrevê-lo. Talvez nasça agora, livre de tudo, nu, ou vire estrela, um parto eterno, um pacto.

V

Vinte e três de setembro, primeira contração, descoberta primaveril dos ipês em flor.E o mundo, me cospe para fora, outra vez.

IV

Aprendo agora meus primeiros sons. Balbucio e entrevejo em roxo o princípio de um delírio, enlouqueço, agora que nasci.



Brenda K. Souza

Descrição possível: Sou suor. De perto do rio, estudante de letras, aspira um dia ser peixe.



facebook: Brenda K. Souza
blog pessoal: Sanguinho Novo