domingo, 19 de junho de 2016

Uma espécie de sonho



Dizem que acontece mais com quem tem problemas de insônia. Momentos que parecem ser verdadeiros. Eternizam-se, em poucos minutos. Beliscar-me, durante tais, não é fácil.

Não sei como fui aparecer naquele poço quase seco. Apenas um filete bem manso a correr de acordo com sua índole, em direção a uma ribanceira. Não formava cachoeira. Nem queda-d’água.

Vi a casca branca da cobra semienterrada na lama. De súbito, não era mais uma casca. Um movimento infinitamente leve ocorreu. Olhos apagados se abriam: uma cobra branca com faixa de meio metro de comprimento. O medo me paralisava, mas, de forma sutil, consegui desviar meu olhar dos dela, hipnóticos. Recuei.

Daria para correr, mesmo que as pernas tremessem, exageradamente.

E, eis que, sob a crosta de lama, por onde corria o filete de água cristalina, aparece outra cobra muito maior, porém, parecida com a primeira.

Uma naja? Boipeba? Surucucu? Sucuri? Qualquer semelhança com algum filme de Indiana Jones teria sido mera coincidência.

Ela começou a se erguer, toda pescoço, em minha direção, cheguei a crer, até, que tivesse pernas e pés e asas. Depois, escorregou por entre pedras lodosas, mergulhou na ribanceira, desapareceu, deixando, atrás de si, a pouca água transformada em lama.

Pensei que fosse uma artimanha do animal para me pegar pelos flancos. Aquilo, penso, poderia engolir um hipopótamo. Pensei, ainda, em vislumbrar vestígios da cobra menor, mas ela havia sumido.

Comecei a correr. Atolava-me, de forma tola, em meus movimentos temerosos.

Saí da lama e esbarrei num trilho, que apareceu do nada. Ao lado do trilho, havia uma floresta gigantesca de pés de assa-peixe. Por que assa-peixe? Não havia tempo para respostas às indagações contidas em meu monólogo. Em verdade, em verdade, as coisas são o que estão por uma questão de falta de alternativa. Uma espécie de charrete guiada por um homem, de chapéu, um homem do qual eu podia ver apenas um vulto escuro, surgia.

Eu tentava gritar, mas a minha garganta não emitia nenhum som. Percebi, também, que eu ia em direção da charrete e ela vinha em minha direção, mas não conseguíamos nos aproximar.

Imensidão de arrepios de pavor e calafrios. A qualquer momento, a cobra gigante poderia me tocaiar, surgir de entre a floresta de pés de assa-peixe.

- Pai! Pai!

Acordei, com o chamado de Mariana.

- Nossa, pai, você estava agitado demais; rolava na cama, falava enquanto dormia.

Mariana tocou minha testa.

- Está quentão, pai, deve ser febre muito alta. Tem que tomar Dipirona. Vou pegar o termômetro. Tem de consultar.

Contei este sonho a um senhor de idade, meu conhecido, que se mete a médium, mas só tem fama de ter feito muitos despachos na vida e curado quebranto, vulgo Zé Macumba. Ele me orientou, com ar onisciente:

- Fizeram um trabalho para você, professorzinho.

Acrescentou, ainda, que iria jogar um passe, com duas cobras e, outro, com cobra e burro, e outro com cobra e veado no jogo-do-bicho.

Fiquei desconfiado que os burro e veado ao qual Zé Macumba se referia eram eu. Desconsiderei. Cocei as picadas de pulga atrás da orelha. Serenei.


***


Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Ilustrações: Vinícius Ribeiro (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

sábado, 14 de maio de 2016

Escuro preto



Aqui, rejeitos abjetos de mim. Um modo de subsistir que consigo perceber e quase compreender agora, mesmo que razão enlouqueça. Crescer sem nenhum ideal no espelho de horas ou eras. Questionário: Quem descobriu o Brasil? Pedro Álvares Cabral. Quando? Dia 22 de abril de 1500. Sobrevida: farsa do abecedário amparado por números. Sim. Agora quase compreendo o menino que perdeu o pai muito cedo e nem se deu conta.

Casa transformada em velório cheia de visitas. Murmúrios. Rezas. Lamentos. Lágrimas. Sorrisos forçados. “Corre lá na venda e compra café.” Meus pés em brasa. Minhas pernas velozes. Nasci descalço e nu. Cresci descalço e seminu. “Meus pêsames.” Sofro por saber que me disfarcei bem demais por tão longo tempo. “Meus sentimentos, Maria.”

Maria, viúva fadada a morrer não tão muito tempo depois do marido. Triste Maria de uma saga de abnegação e entrega. “Deus é mais.” Respira fundo. Passa a mão espalmada sobre os olhos chorosos. Corro até a venda e volto com o pacote de café. Recebo um cafuné de meu tio Oswaldo. “Bão menino.” Alegria tola em mim por achar que meu pai, no caixão, frio, indiferente a qualquer senso de consternação dos que momentaneamente o amparavam, era estimado. 

Penso no aro retirado de pneu que eu fazia rodar pelas ruas de cascalho. Nos tão demais fatos que giraram até aqui. Às vezes ainda me sinto permanecer naquele estado de sono acordado. Água, comida, mais a arte tida como parte de um desencontro. Meu reino desencantado. Vem cá, cavalo bobo, cavalo-de-pau.

Desconfio, com temor, dos que dizem que um sonho pode se tornar realidade. Aprendi como muitos, na escola, que a primeira impressão fica uma vida: cheiro de álcool e tinta de estêncil no obsoleto mimeógrafo. Este escuro preto resistirá aos que se aferram a instantes dignos de abominação. Cortes na árvore causam dor.


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Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Ilustrações: Vinícius Ribeiro (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)



sexta-feira, 6 de maio de 2016

Primeira caminhada



Belo Horizonte, Minas

Minha cama fica embaixo da janela. Deitado, consigo vislumbrar pedaço de céu, pedaço de prédio. A cortina não é capaz de cobrir o vidro por completo. Isso quer dizer que, em todas as manhãs, acordo com a luz forte do sol em meu rosto. Preciso passar filtro solar antes de dormir. Penso.

É domingo. Decido fazer uma primeira caminhada pelo bairro. Calço o tênis de caminhar que é o mesmo desde os dezessete anos, o mais confortável que ainda tenho. Duas constatações ao calçar o tênis: meu pé parou de crescer, caminho pouco.

Paro na banca de revistas. A Piauí tem o mesmo preço aqui ou em qualquer outro lugar do país. Esse fato nos conecta: eu e você, eu e os moradores do Piauí, eu e o outro, morador da cidade de onde vim. O preço da Piauí me conecta.

Mapeio: um supermercado, dois cabelereiros, uma universidade, um aeroporto, uma praça, um shopping, uma pequena alameda comercial – nenhum rio. Dentre esses itens, percebe-se a proeminência do aeroporto. Vários estabelecimentos saúdam-no: AeroBalas, AeroShopping, AeroBurguer, AeroPão, Varejão Aeroporto. A Churrascaria do Manuel e o Restaurante Maria das Tranças, embora ignorem a reverência, também são nomes dignos de nota. Julgo eu.

Acordei em silêncio, almocei em silêncio, faço esta caminhada completamente calado. Prefiro me perder a pedir informação, hoje é domingo. Dia de descanso da fala. Permito aos pés falarem no lugar da boca. O ruído emitido é palavra. Evito o uso do mesmo vocabulário de dias da semana. Oi, bom dia, como posso chegar à avenida Santa Rosa? E o aeroporto, onde fica? Meus pés produzem neologismos.

O som dos aviões me acorda junto com a luz do sol entrando pela janela. Moro a duas quadras do aeroporto e próximo, muito próximo do sol. O que já foi mencionado.

Passo em frente a uma igreja, onde se concentra uma grande quantidade de mendigos. Estão deitados na calçada, onde suas sacolas e lonas também se deitam. Descansam, pensam, morrem. Eu morro caminhando – mas, na maior parte do tempo, morro deitado em minha cama, olhando pedaço de céu, pedaço de prédio. Caminho pouco. O quanto de desespero é convertido em fé?

Encontro um amigo de outra vida enquanto folheio a Piauí na banca. O vendedor discute futebol com um cliente, os moradores desta cidade dão muito valor ao futebol, é o que penso quando o amigo de outra vida chega, toca meu ombro, me abraça e diz: o que você está fazendo aqui? Iniciamos conversa. A conversa termina. Prosseguimos caminhada: eu em minha direção (qualquer uma), ele na dele (mais certa). Passo em frente à drogaria Cristina, cuja matriz fica em Pirapora. Há uma franquia da drogaria Cristina em meu novo bairro, paro na porta, espanto na cara. Uma vendedora me olha lá do fundo, ri de mim, forasteiro flagrado. Não, não é possível ser desconhecido em Minas. Não é possível passar despercebido. Perder-se.

Volto pra casa.


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Douglas de Oliveira Tomaz, nascido em 1993, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, recebeu uma menção honrosa no concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi), edição 2013, e possui textos seus publicados pela Revista Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Em 2015, lançou de modo artesanal seu primeiro livro de poemas: Escorre. Atualmente, mora em Belo Horizonte.


Ilustração: Vinícius Ribeiro (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

terça-feira, 19 de abril de 2016

Bela companhia, sincera e ligeira


Vento. Uivos. Os pés de eucaliptos dançam. Não sei se as enormes raízes que se fincam na terra têm o objetivo de se entrelaçar, de formar uma unidade, de ocupar o espaço alheio. Imagino vizinhança, muros. Um pássaro chamado indefinição me diz que onde eucalipto brota, a terra se torna estéril. Às vezes alma fica neste estado: como figueira aos rogos de pragas de Cristo. Mas a dança é bela quando o vento sopra os eucaliptos.

De colossais alturas, às vezes, algum galho cai, com estrépito. A queda é algo mais que acorda o todo de seu estado habitual. Sentir a impressão de um corpo humano em baque. O meu corpo, quem sabe. Alguns troncos são mais grossos que outros. Isso me lembra de disputa por espaço. Parece indolente o olhar sobre o exército verde. Há um cheiro levemente agradável a vir dali.

Fica próximo do Cemitério da Saudade. Por que todo cemitério é da saudade? E os esquecidos ao morrer? Um banco perto da BR, na saída da cidade. Um curral velho, desativado entre elas, as árvores. Inútil sina de servir para queimar. Um dia, até as enormes raízes serão retiradas daqui como lembranças inúteis. Arquivo onde mortos se perpetuam.

De repente, nem defino o momento em que meu corpo sentido pesado é içado de seu estado inerte. Enquanto caminho, carrego, no peito, uma paranoia gigantesca. Aquela encrenca com a qual eu nada tinha contas a acertar. Um sujeito magro, de barba tão cerrada quanto a minha, correndo. “É aquele! É aquele!” gritos de uma mulher. Um sujeito magro, de barba tão rala quanto a minha, às carreiras. Derradeira visão de momento X. Um golpe em minhas costas. Se existe uma dor grave e aguda ao mesmo tempo é esta. A calçada de paralelepípedos parece investir contra o meu rosto e se vestir de vermelho. Sangue. Quanto sangue! Não tenho a sorte de desmaiar.

Alguém me leva ao hospital. Sou levado a um banheiro de água fria. Ao contato com o líquido, sinto dor inenarrável. Ao costurar meus ferimentos, a enfermeira pergunta se dói. “Claro que dói, sua burra. Anestesia não pega em ébrio.” Só penso em dizer. No dia após, vou trabalhar, o chefe me dispensa. Diz que com minha cara semelhante à de Frankenstein vou assustar os demais funcionários e clientes. Valho-me de eufemismo e considero isso um ato de solidariedade.

Quando, de forma involuntária, a gente mergulha num abismo literal, são raras, mas algumas visitas nos dão o ar de sua graça. Duas meninas. Duas amigas. Uma delas mais amiga. Não gosto dos olhares de dó sobre mim. Eles me fazem sentir pena de mim também. Passo a mão no olho esquerdo de forma intensamente furtiva para que não percebam que enxugo uma lágrima. “Juízo. Cuide-se. Nós gostamos de você.” Conversas consoladoras costumam terminar assim. É horrível a sensação de solidão que se apodera da gente se quem oferece um abraço de conforto a seguir se vai e nos deixa em companhia de quatro paredes.

Enquanto tenho o atestado de convalescência, apresento-me em alguns bares. Os ferimentos cicatrizam. A mágoa, não. Mas os remédios não são tão necessários a ponto de o álcool ser dispensado. Não bebo no bar do Jota desde o dia em que a mulher com migalhas de vaidade insurgiu contra mim. Ao entrar no recinto percebi que ela se achava aparentemente feliz. Jogava sinuca, bebia cerveja no bico da garrafa, colocava a garrafa no chão, engraçava-se a simular um som de axé, sentava-se no colo de homens com odor de pinga e fumo e ria, ria muito.

Eu já havia sofrido preconceito racial, mas não de forma tão escancarada. Quando a mulher dizia com orgulho que era fluminense, que nascera na cidade do rio de janeiro, glosava a minha ignorância e a dos demais frequentadores que ali se achavam, mas ao falar olhava diretamente mais em minha direção. Sua alegria e entusiasmo duraram até o dinheiro se acabar e ela começar a procurar alguém para lhe pagar mais bebidas. Ímã de forças negativas, eu mereço.

“Ô israelita!” voz dela, em tom bem alto.  Fingi não entender, fingi que não era comigo. “Ô israelita!” ela insistiu. Levantou-se da mesa do canto do bar onde se achava. A saia muito curta mostrava as pernas brancas estriadas. Uma blusa transparente mostrava seus seios flácidos com algumas gotas de suor escorrendo no colo. Um ar de baronesa, um ar de intolerância. Meu alvo maior de observação não foi o chapéu de coco que ela usava. Nem os óculos escuros, sem lugar para a tarde que já tinha mesmo postes de luz acesos.

Um toque no meu braço. Senti o hálito. Nada bom. “Ô, você é feio como um israelita, mas deve ter dinheiro para me pagar alguns copos de cerveja!” era comigo. “Dona, já lhe disseram que a senhora tem uma prosa muito ruim?” Misto de perua e pavoa, ela se exaltou um pouco mais que quando falava de suas origens. “Nunca fui tão humilhada em toda minha vida, ainda mais por um israelita fedorento!” Com uma bola de sinuca e uma garrafa na mão teve de ser contida pelo Jota para não me agredir fisicamente. Ele a mandou embora do bar e ela, ao sair, gritava: “Israelita de merda! Israelita de merda!”

Agora, aqui, na sexta garrafa de cerveja, penso que, às vezes, o que resta a alguém sem a grande sorte de ter o direito de ir e vir, sem ser perturbado, alguém que vive à mercê de preconceitos vários, é brindar à infelicidade. “Saia da mesa, quem é covarde!”


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Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Ilustrações: Vinícius Ribeiro (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

sábado, 2 de abril de 2016

O mundo me tornou egoísta e mau


Perdi o emprego.

Briguei com a mãe.

Preciso recuperar, na escrita, o frescor das cartas.

Perdoar o cão que me morde os calcanhares. Oferecer-lhe comida.

Levei meu amor para passear na beira do rio e na beira do rio o amor se acabou.

O pai me abandonou antes mesmo de.

Falar “a-mor” pode destruir o nascituro.

Decepam-me pernas, braços, repartem meu tronco em dois: consigo salvar a cabeça.

A vizinha morreu engasgada de silêncio. No porteiro, silêncio virou câncer. No caso da vizinha, enfiaram-lhe inutilmente o dedo na garganta na tentativa de alcançar o bolo, entupiram-na de farinha. No caso do porteiro, sonda vasculhou, vasculhou, vasculhou, mas não encontrou o tumor.

Finalmente recebi salário que não foi suficiente para quatro meses de atrasos.

É tudo questão de elaborar um discurso. Se não há palavra que denuncia angústia, não há angústia. Se não há palavra que avisa: de-ses-pe-ro. Se há apenas silêncio, ninguém entende nada.

O único alívio foi ter me livrado do carro. Aquele objeto enorme parado. Pegava chuva. Gerava impostos. Oxidava. Desenvolvi fobia a carro. Imagine acordar todos os dias pela manhã e ver aquele objeto ali.

Outro amor: o tipo de amor que não pode dar certo na luz da manhã.

Nada mais me comove tanto. Reencontrar amigos, não. Ganhar presentes raros, não. Conquistar objetivo por muito tempo almejado. Nada.

Desperdiçamos os blues do Djavan.

Desenvolvo um grau de mediunidade que me torna cada vez mais avesso a pessoas e lugares. Sinto a energia das coisas. E senti-la cada vez mais nitidamente significa não entrar, não abrir aquela porta, não voltar lá, esquecer, esquecer. Perder amigos. Cada vez mais insondável.

Não acredito na redenção pela literatura. Recuperar o frescor das cartas talvez não adiante de nada.

A mãe envelheceu. Sua pele não está mais uniforme. Não é o tempo, cansaço chegou antes. O rosto do pai, porém, ainda é a mesma distância. Nunca se aproximou para eu ver.

Mais um amigo se suicida. Dessa vez, uma amiga trans. Tomou remédios, pulou da janela. A última lembrança que tenho dela é a imagem de seus passos rápidos, cabeça baixa, olhar delirante, pela rua. Do outro lado da via, ela parecia cada vez mais perturbada. Não atravessei o asfalto para lhe perguntar se estava tudo bem, se eu poderia. Minhas perturbações, também eu as carregava. Sua cabeça baixa, seu olhar delirante também eram meus – motivações distintas. Quando soube da notícia, era manhã, tomava leite com achocolatado, comia uns biscoitos, ouvia Nara Leão. No prato, um último biscoito sobrou – ainda sobra. Nara cantava para ninguém.

Perante a vida, todos nós fracassamos.

Somos o acúmulo dos nossos mortos.

E minha poesia é um vício triste/ que faço tudo por abafar.


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Douglas de Oliveira Tomaz, nascido em 1993, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, recebeu uma menção honrosa no concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi), edição 2013, e possui textos seus publicados pela Revista Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Em 2015, lançou de modo artesanal seu primeiro livro de poemas: Escorre. Atualmente, reside em Belo Horizonte.

Ilustração: Vinícius Ribeiro (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Segredo sem valor



Passarinho na árvore parece pensar, pois tudo é silêncio então. Alguém podia até dizer algo agora. Então. Agora. Parecemos nos repetir. Quantas cartas você me escreveu? Não lembro. Também não lembro qual de nós dois escreveu a última. Sem honra ao mérito. Sem demérito. Que as melhores impressões, atitudes e momentos fiquem gravados no cofre inviolável da alma. Por falar nisso, aquela carta sua com o cheiro de seu perfume do Boticário, recebida bem nos instantes em que eu ouvia Glory of Love, do Peter Cetera, um som comovente para mim, foi algo muito bom.

Você viu meu nome numa página repleta de nomes de pessoas com desejo de trocar correspondências e escreveu para mim. Eu trocava correspondência com outras pessoas. Sabe, acho que foi assim que tomei gosto por escrever. Eu trocava correspondência com outras pessoas, mas com você havia um clima diferente. Eu percebia calor nas suas cartas, nas suas palavras. Quantas vezes tento encontrar seu nome em um possível endereço eletrônico nas redes sociais! Anseio saber se consegui chegar, no mínimo, ao status de lembrança para você, sumida.

Dizem que numa amizade sincera não devem existir segredos. Entretanto, gostaria de abrir mão do direito de um que guardei escondido de você. Talvez já o tivesse confessado se tivesse logrado êxito em contatá-la. Engraçado. Pensei no trecho do poema Navio Negreiro, do Castro Alves: “Lucimara, onde está que não responde? Em que mundo você se esconde?”

Sabe que sou meio pateta e tenho uma facilidade danada para cair no poço da comicidade. Aquela vez em que nos encontramos no Terminal Rodoviário de Guarulhos e bastou que houvesse um tímido aglomerar de transeuntes para eu me perder de você não sai da minha cabeça oca. Aquela bagagem que eu deixara perto de você quando saí para comprar um litro de água mineral – época em que me preocupava com hidratação.

Sabe, há um longo tempo, aprendi a beber. Há um longo tempo, parei de fumar. Pois é, naquele dia, você via de longe meu estado de aflição, ria quase histericamente, eu quase chorava. Gostei de conhecer sua família, seus pais, irmãos... Não me senti confortável foi com os comentários feitos acerca de meu mineirês. Nem de ficar sabendo que vocês se divertiam com os adesivos de bandas de rock e letras de músicas irreverentes que eu colava nos envelopes das cartas que lhe enviava. No mais, fui muito bem tratado por vocês.

Mudando de assunto, havia em você uma forma coesa e coerente de separar as coisas que impossibilitou que nos enamorássemos. Vejo isso positivamente hoje. Mesmo que alguns amigos meus me dissessem: “Você está dando mole. A menina está afim de você.” Bem. Vou imaginar que não saiu de sua memória o verso Longe é um lugar que não existe, do Richard Bach, também título do livro com o qual lhe presenteei àquela véspera de seu aniversário.

Você se encontrava doente. Eu queria lhe dar uma boneca de pano de presente, mas, para variar, estava quase sem dinheiro, e a que eu tinha visto, com muita cobiça, numa loja de artesanato, era linda, mas muito cara. Em tal ocasião, passei perto de uma livraria e entrei. Perguntei ao vendedor se ali havia algum livro bom para presente que não custasse muito caro. Ele me mostrou alguns em promoção e entre eles o Longe é um lugar que não existe. Me falou do livro, mas eu, avoado demais, nem prestei atenção. Comprei. Pedi para embrulhar com papel de presente, enviei-o por Sedex para você.

Você fez questão de telefonar para o nº que eu lhe havia passado, por não ter telefone em casa, do escritório da fábrica, onde eu trabalhava, para me agradecer. “Valeu, pelo livro. Amei. Que lindo. Era o que eu precisava para melhorar o astral de enferma.” E continuou a tecer comentários muito elogiosos sobre o livro e sua temática em si. Eu monossilabava, fingia estar ciente do texto presente no objeto em foco. “Sim... É... Hum, hum...”

Aqui, eis o segredo: com você aprendi que devemos ler um livro antes se pretendemos dá-lo de presente a alguém.


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Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Ilustrações: Vinícius Ribeiro (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

"Fotografo porque busco a mudança do mundo", Danilo Nascimento

Foto: Davi

Danilo Nascimento aprendeu a fotografar vendo o pôr do sol, o Rio São Francisco. E, hoje, seu amadurecimento profissional também flui naturalmente. Captar uma imagem é trocar energia com o objeto captado. Fotografia se transforma em história.

Radicado em Belo Horizonte – mas ainda fortemente ligado a sua raiz, Pirapora –, nesta entrevista, Danilo submerge aos níveis profundos de seu ofício: o aprendizado trocado entre espaço, indivíduo e fotografia; a dimensão política; suas origens; a perspectiva, materializada em imagem, de quem mora longe do lugar que ama; a compreensão de que o fotógrafo é testemunha do seu lugar e do seu tempo. Deste mergulho, ele emerge para apontar a necessidade de mudança. A fotografia pode transformar o mundo.


Danilo, a fotografia captura instantes. O que apenas um instante revela sobre o lugar, sobre a pessoa fotografada?

A fotografia tida como um instante congelado no tempo sempre revela um conjunto de sentimentos e energia trocados entre o objeto (lugar ou a pessoa) e eu. Por isso cada imagem revela a minha energia pessoal em interação com a energia do objeto fotografado. Se não estivermos em sintonia, provavelmente não teremos boas fotos.


Você tanto se dedica à captura de imagens que acontecem por si mesmas, as imagens espontâneas, quanto à captura de imagens manipuladas pelo seu olhar. O que te dá mais prazer em fotografar? Quais as diferenças?

As imagens espontâneas são as mais interessantes e as que mais gosto de fazer. Tenho um projeto chamado Citadino que tem essa proposta de observar as relações pessoais no meio urbano sem pré-conceitos e julgamentos, como alguém que está invisível e inserido nesse meio sem ser notado, não influenciando em nada. Esse trabalho é um dos que mais tenho me dedicado no momento. A diferença entre a fotografia espontânea e aquela em que podemos manipular o objeto fotografado (retrato, em caso de pessoas) está na beleza do inesperado. Quando as pessoas sabem que são fotografadas, elas se preparam para o retrato, então já não são naturais. Entretanto, quando elas não sabem da foto, a ação natural prevalece, revelando a magia da ação espontânea.



Da série Citadino


O que te despertou para a fotografia?

A beleza da natureza despertou a fotografia em mim. A vontade de eternizar cada imagem bela que se forma nos fenômenos naturais. Sempre gostei de fotografar paisagens, em especial, pores do sol. A fotografia surgiu como uma fuga do estresse.


E hoje, por que ainda fotografa?

A motivação já é outra, não é somente um refúgio. Tenho um compromisso em tornar melhor o universo em que vivo. Busco impactar as pessoas com minhas fotos, ora pela simples beleza de uma imagem, ora pelo incômodo de temas polêmicos que tiram a mente dos espectadores do conforto de uma falsa sensação de que apenas pela fé podemos tornar o mundo melhor e que tudo pode ser revertido quando quisermos. Fotografo ainda hoje porque eu busco a mudança do mundo, e se eu conseguir acender uma pequena centelha no pensamento crítico das pessoas com minhas fotos, já estarei satisfeito. Outro motivo que me mantém nessa jornada é que tenho recebido mensagens de pessoas que passaram a admirar mais a arte depois que passei a publicar meus trabalhos. Isso me mantém querendo aprimorar meus conhecimentos, minha visão, minhas técnicas e, consequentemente, todas as histórias que conto nas minhas fotos. 


Você disse que fotografa para transformar o mundo. O quão transformadora pode ser uma imagem?

A fotografia, assim como todos os tipos de arte, tem o poder de transmitir emoção às pessoas, sendo prazer ou incômodo. A fotografia, por si só, traz um conceito intrínseco, à primeira vista é possível ver a realidade, mas o conceito só aparece quando a imagem é esmiuçada pelo alinhamento olho, cérebro, coração. Gosto sempre de relacionar minhas fotos com algum contexto, conceito ou frase que exprima meus sentimentos no momento em que fiz a imagem. As pessoas são sensíveis, se conectam facilmente com a arte e são tocadas, os pensamentos e atitudes podem ser modificados.


Seu pai já foi pescador e até hoje mantém uma forte ligação com o Rio São Francisco. Você produz ensaios sobre a cultura barranqueira, como o excepcional Poesia e Sugestão. O que interliga esses dois fatos?

Meu pai me ensinou a respeitar a natureza e as pessoas, ele é meu mestre. Eu, como um bom discípulo, sigo os ensinamentos dele, construindo meu próprio caminho e respeitando os valores ensinados. Por isso, tenho essa forte ligação com o Rio São Francisco, pois nasci e vivi como barranqueiro. Hoje sofro com os maus tratos que a natureza vem sofrendo, em especial, o nosso Velho Chico, pois me sinto como se fosse parte dele.

O ensaio Poesia e Sugestão foi muito especial, pois envolveu um contexto literário totalmente engajado à história da modelo e pude contar com a participação da Prof. Bethânia Passos na elaboração do conceito. Além disso, conseguimos encaixar dois elementos que são marcantes para mim, pôr do sol e o Rio São Francisco. O fato é que estou mais inspirado quando estou no ambiente barranqueiro.





Do ensaio Poesia e Sugestão


Atualmente, você vive em Belo Horizonte. Como é Pirapora vista de longe? O que você aprende com a distância?

Pirapora vista de longe é saudade, é vontade de retornar e de poder trabalhar para cuidar dessa terra que sofre com o descuido de políticos. Quando não estamos inseridos diretamente em uma situação e apenas a observamos de longe, temos uma percepção diferente, não melhor, nem pior, apenas diferente. Estando de fora, eu valorizo mais as belezas naturais e enxergo algumas oportunidades de melhoria na cidade que fariam muita diferença na vida dos barranqueiros.


Quais as melhorias mais urgentes?

Vou citar três pontos críticos que enxergo com clareza e que necessitam de uma atenção especial. Primeiramente, a Ponte Marechal Hermes, que é maravilhosa, um patrimônio tombado, e se encontra em uma situação deplorável. Há alguns anos, se não me engano 24 de dezembro de 2012, uma criança caiu entre as tábuas da ponte e morreu. Poderia acontecer com qualquer um de nós. Além disso, os apoios da ponte, assim como toda sua estrutura estão comprometidos pela oxidação, sem falar na iluminação precária.

Outro ponto é o próprio Rio São Francisco. Qualquer um que viveu a sua beira pode perceber a mudança para pior. Diversas ilhas estão se formando e a margem está avançando sobre o leito do rio. O assoreamento está aumentando, há muito lixo e o canal que passa no Barreiro, também passa no Saae, mas deságua no Rio sem nenhum tipo de tratamento. O Rio é responsabilidade de todos e devemos cobrar que seja cuidado.

Por fim, o desenvolvimento urbano. Percebo que Pirapora teve uma pequena evolução desde que saí de lá, mas o crescimento poderia ter sido bem maior. Tenho muita vontade de voltar, mas não posso contar com isso, sabendo que não tem um mercado de trabalho que possa me absorver. Pirapora tem muitos artistas e existem duas opções para eles: ou se jogam no mundo ou vão morrer sem nem mesmo serem vistos pelos seus próprios conterrâneos.


Qual é a sua melhor fotografia?

É difícil falar em melhor fotografia, mas uma das que mais gosto é esta:


Eu não tinha pretensão de ser fotógrafo profissional quando a fiz, assim como outras fotos de que gosto muito. Essa fotografia me dá a sensação de ser o próprio Rio.



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Entrevista: Douglas de Oliveira Tomaz.