domingo, 24 de setembro de 2017

Arribação: “Um grande acordo nacional”, Cecília Donateli



Um grande acordo nacional

É da boa educação
limpar os sapatos
no tapete Welcome

Adentro disjuntores,
santinhos, chicotes,
fotos de família,
banda larga,
frigobares e jornais
com as metas do governo

Ninguém pode acusar o brasileiro
de não ser capaz de fixar
vertigens

O dólar caiu,
toda reforma que vem
vem para o bem
de toda a gente de bem
do Brasil

Trabalha e confia

Deus abençoa
quem chega sorrindo
de cambalhota
à própria guilhotina


***



Cecília Donateli (1989) é capixaba, mineira e carioca em um corpo só. Graduou-se em Direito. Para compensar esse auto-boicote, escreve poemas.

domingo, 6 de agosto de 2017

Factory


1.
Meu Deus, e agora?

Factory é um objeto que tem como responsabilidade criar outro objeto.

Eu vou entrar agora na máquina aqui.

Aqui é o ponto fatal.


2.
Você mataria sua mãe por um milhão?

Eu gosto muito da minha mãe, mas eu não vou lá não.

Minha avó vai se casar sábado.

Tia Selma vai lá em casa só pra comer o tomate.

Lá em casa o povo não vive muito não, na verdade vive, mas morre de diabetes.

Vão enterrar ele que horas?

Quando você diz “arruma aí”, eu não sei o que é arrumar, mãe.

Vocês lembram quando a gente não tinha farinha de trigo?

Deus lhe pague, Marilene.

Tchau, vó.

Vai com Deus, mãe.


3.
E todos odeiam Daniela.

Eu já explodi um rato com um rodo.

Meu colega compra um cachorro e bota o nome dele de Latrocínio.

Traumatismo craniano na hora.

E eu não tenho nenhum dom, cara.

Não desespera.

Tem que sofrer pra purificar.


4.
Douglas, favor, comparecer à linha de frente.

Eu assino como eu?

O que me mata é trabalhar sábado.

Descansar agora, como se dona de casa descansasse.

Imagina você ir de limusine pro serviço.

Cê acha que eu vou advogar pra pobre, pra peão?

Mas eles nunca vão juntar uma equipe boa, paga pouco, exige muito e trata garçom que nem cachorro.

Que que tem trabalhar em zona, é um serviço digno.

Eu gostaria de poder ter tudo.


5.
O invisível a gente não consegue ver.

Eu faço arroz porque quero comer.

Se você não descer do ônibus, você vai ficar dentro do ônibus.


6.
Cada doido, cada doido, eu acho que deve ter faculdade de doido.

Quando você acha uma pessoa bonita, você stalkeia ela, fi.

Eu vou é pedir o impeachment dele da minha vida.

Este sol é minha kriptonita.

Aí eu falei, putz grila, a mulher jogou passas no meu creme.

Batata pesa, né?

Vou arranjar uma namorada no final do ano, acho que merece.

Então toma um bicarbonato, toma um banho, faz alguma coisa, uai.

Quem vai fazer a limonada hoje?

Passou quando eu tava pagando a passagem.


7.
É muito chão, né?

Quem tem limite é fronteira.

Ai, que bom que você me entendeu.



***



Douglas de Oliveira Tomaz, 24 anos, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, foi premiado pelo concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi) e possui textos seus publicados pelas revistas Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Publica regularmente crônicas n’O Salto e mora em Belo Horizonte, onde escreve seu primeiro livro de contos.



Ilustração: Vinícius Ribeiro. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

domingo, 25 de junho de 2017

Arribação

Seguindo o caminho aberto no ano passado, meio de ano é tempo de migração. Tempo de peixe se mover, de artista se mostrar. Envie sua produção artística pra gente!

E releia aqui o que já foi publicado.



(arte de divulgação: Vinícius Ribeiro)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

- corte



Antes que eu cortasse o cabelo há mais ou menos um mês atrás, ainda que minha perspectiva de tempo não me dê certeza dos dias, ou de como passam − mantive nos fios, antigos e mais longos, o sabor dos dias em que talvez te amasse. Não é totalmente absurdo dizer que a possibilidade de amor pesa a cabeça, e os cabelos precisam ir pra gente continuar vivendo sem carregar essa ideia no topo do mundo da gente mesmo.

Cortados os fios, cheguei em casa tranquila, mas olhei a janela um dia desses, o que me fez recordar, nos fios antigos, a visão da sua. A minha continua a dar pra varais e barulhos de carros e buzinas. O amor, sempre juvenil, é esse ruído todo, era o que minha mãe dizia enquanto eu chorava por alguma paixão adolescente. Pegava a tesoura, e ia aparando cuidadosa, ponta a ponta, às vezes me punha franjas, às vezes me desfiava, e o peso do mundo desaparecia, porque era outra a pessoa que surgia debaixo das tesouras de minha mãe.

Olhando as janelas: “despe-te dos ruídos”, aparecem os versos que não recordo de quem são e me gritam por dentro, como se lá, no profundo das coisas, existisse sempre alguém que me rodeia e me grita poesia quando me lembro de ti. Os cabelos crescem num outro tom de afeto, mas você vez ou outra me aparece num ruído ou sonho qualquer, e fico imaginando como teria sido se. A cabeça ruidosa se apega menos aos fios, às vezes, e experimenta o oco da luz do fim da tarde, o sino das horas inteiras da igreja do lado, de um dia na cozinha enquanto tateávamos, no escuro, a tentativa do corpo do outro.

Talvez haja amor não por ti, mas pela lembrança barulhenta que vem na fantasiação e me faz colocar Vinicius pra tocar em dia de sábado, como se cortasse os cabelos novamente e desfiasse no som das coisas o passo ruidoso que antecede a gente ante a esse esforço subtil de esquecer.

– porque hoje é sábado. 


***



Brenda K. Souza, 24 anos, mestranda em estudos literários.


Ilustração: Barbarete, ou Bárbara Louzada. Artista, tatuadora e geógrafa, sobretudo uma entusiasta da vida. Atualmente, estuda Artes Plásticas na Universidade Federal do Espírito Santo, mas conserva a certeza de que os cantos do mundo têm muito mais a ensinar e a revelar sobre o universo da arte e do sentir.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Cantiga em prosa



Instantes de ânsia extrema.

Você o tempo todo no pensamento, a preencher horas de ação e de ócio.

Seu beijo. Seu cheiro. Seu corpo abraçado por mim com a loucura de quem queria ver o tempo parar. O pânico de não conseguir negar que a impossibilidade de eternizar nossos momentos fosse possível.

Era você. Anjo às vezes. Às vezes um demônio num corpo de luxo. A me obrigar a congelar o calor torturante de meus genitais, apalpá-los, apertá-los, como se assim diminuísse a gula de possuir você inteiramente.

Estamos diante do portão de sua casa, 23h:30min. Ou diante do portão de meus pensamentos? Você usa uma camiseta que tem uma foto da Mary Poppins estampada, sem sutiã por baixo. Você veste uma minissaia. Beijo sua boca. Mordisco seus lábios. Esfrego-me em seu corpo. Você chupa minha língua com volúpia. Toco seus seios. Minhas mãos passeiam pela sua bunda. Você me empurra. Pede para eu parar.

Era você. O nome que eu sussurrava enquanto descia de montes isolados para tocar punheta, sentir-me mais vazio depois de gozar.

Tanta laranja madura, tanto limão pelo chão!

Era você que fazia com que eu achasse que ir longe demais fosse perto. Era você que fazia e ainda faz meu coração bater de forma acelerada e dolorosa.

– Melhor acabarmos com isso.

Você acabou comigo.

– Morrer de amor não mata.

– Não? E o louva-a-deus?

– Eu disse morrer de amor. Não disse morrer de amar.

Tanto sangue derramado dentro do meu coração!



***


Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015) e Piolhos (2016), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Vinícius Ribeiro, artista. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

domingo, 7 de maio de 2017

O colapso da torre é o maior dos arcanos maiores



Nada muda a direção de uma faca a abrir-lhe o peito às 6 horas da manhã. É vendo a mesa, o pão e a xícara que se descobre como se movem as correntes marinhas e os demais movimentos continuados de uma matéria. Uma onça, sálmica, no cume da rocha, tentando fugir do fogo que jamais tivera a chance de causar: lá fora as pessoas tomam o ônibus para ir ao trabalho.

Esse é, assim parece, o regime do corpo. O corpo, que pode ser a mãe de três filhos e também o facínora, o corpo cuja pele é o que há de mais profundo, submetido à retórica do sacolejo. Um umbigo muitas vezes é um poço raso em que, com algum esforço, se pode afogar.

Em 1854, Auguste Salzmann fotografou os muros de Jerusalém do lado de fora. A revista Annales Archéologiques, à época, disse que as fotos demonstravam uma relação sálmica com a cidade sagrada.

Sálmica é a onça que dorme em pé da Zona Norte à Zona Sul.


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Cecília Donateli (1989) é capixaba, mineira e carioca em um corpo só. Graduou-se em Direito. Para compensar esse auto-boicote, escreve poemas.


Vinícius Ribeiro, artista. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado http://pensamentoilustrado.tumblr.com/

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Ando colecionando frases



Ando colecionando frases. Meu quarto está sujo e tenho dormido num colchão. A cama quebrou à noite, já faz alguns meses. Não sei qual mistério me impede de montar a outra cama, que me espera dentro do quarto ainda em suas partes: cabeceira, parafusos, estrado. É uma cama velha, se pudesse falar, me contaria uma boa história. Me diria uma boa frase.

Jéssica está afetada, escreve sobre a morte. Moramos juntos. Falar sobre a morte é uma das maneiras de se aproximar dela. O assunto mora na casa. Mora na varanda, no vaso de planta, mora no ralo. Para escrever, é preciso morar no que se escreve. Jéssica sabe, tem andado calada. Das frases que já recolhi, poucas são sobre a morte. Dentre as poucas, uma frase dita por Jéssica.

Acabo de chegar da rua e meus pés estão sujos. A última frase que anotei, Quem vai fazer a limonada hoje?, foi dita da cozinha de um pequeno restaurante por uma mulher. Da porta, ela olhava para as mesas vazias, onde se sentavam apenas um homem e duas crianças. Um dos meninos se animou com a pergunta e começou a pular. O homem, pochete na cintura, não se moveu. Passei.

Anotei as últimas frases num recibo de ônibus. Não sei por qual motivo iniciamos coleções. Me atentei para a frase quando passei a ler as crônicas do Victor Heringer. Num entulho, encontrei um colchão de casal. Quantas frases cabem num colchão usado? Passei. Na maioria das vezes, não tomo nota do que penso. Do que falo me esqueço um segundo depois. Os muros dizem boas frases, mas não são essas. Tampouco legendas de foto, ou lapidação.  

O quarto está sujo e escrevo. Não sei porque escrevo, ao invés de arrumar o quarto. A casa estaria mais limpa se eu não escrevesse. Meus pés não estariam sujos. Caminho com as orelhas.


p.s.: um dia me disseram: sua avó está nos seus pés.



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Douglas de Oliveira Tomaz, 23 anos, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, foi premiado pelo concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi) e possui textos seus publicados pelas revistas Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Publica regularmente crônicas n’O Salto (www.osaltobarranqueiro.blogspot.com.br) e mora em Belo Horizonte, onde escreve seu primeiro livro de contos.



Vinícius Ribeiro, artista. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)