domingo, 1 de outubro de 2017

Xará



Ser um garoto com ar de gasto desde os primórdios da infância tem lá ao menos uma vantagem: passar despercebido, por exemplo. As pessoas o têm como uma face vista e revista vezes sem conta, mesmo à primeira vista.

Jonas Júnior Silva. O nome da pessoa.

Uma criaturinha que moldava sua personalidade (se é que tinha alguma) ao ritmo da monotonia. Jonas Júnior Silva tivera tataravô, bisavô, avô, pai e tios com o nome de Jonas. Jonas tinha com todos seus parentes uma semelhança significativa. Ele era uma pessoa transparente demais. Tinha cicatrizado à flor da alma (se é que tinha alguma) o receio de guardar segredos. E não é segredo de ninguém que uma pessoa para ser considerada interessante precisa acumular alguns segredos.

Jonas Júnior Silva era chamado pelos amigos de infância de Xará. O epíteto fossilizou, tomou forma de perenidade. Nada de mal. Xará é aquele que tem o mesmo nome. Nenhuma nuance a mais a acrescentar ao livro aberto dessa vida em voga. Uma vida besta, diria Drumonnd em um de seus célebres poemas.

Em referência sonora à palavra célebre, Xará tinha três cães. Cruzamento de pitbull com vira-lata. Os três cães tinham o mesmo nome: Cérebro, que, por sua vez, aludia ao nome mítico de Cérbero, o cão de três cabeças, guardião do portal do inferno.

A esquisitice do menino não parava por aí. Sua coleção de minhocas era outro caso. Ele não deixava as minhocas passarem de sete. Quando tal número era ultrapassado com o surgimento de novos comedores de lama, ele separava os maiores, os aparentemente mais saudáveis, excluía, assim, os mais fracos, que sacrificava aos peixes de um aquário, onde criava pirambebas, pequenos peixes da espécie das piranhas, em ato bastante cerimonial.

– Um projeto de Hidra –, definia, assim, Jonas, a sua coleção de minhocas. Complementava que os bichos também raciocinam, mas que o uso acentuado do lado direito, o criativo, e o do lado esquerdo, o racional, é predicado dos humanos. Ao ouvi-lo assim falar, seus pais achavam que o filho tinha miolos de minhoca.

Jonas, ou Xará, tinha dificuldade de recordar nomes e muita facilidade de esquecê-los. Ele ainda sofria, solitário, uma crise de identidade que insistentemente negava.

Porém, em seu caderno de apontamentos, era comum (o que não era comum em um menino que negava ser incomum o tempo todo?) serem encontradas frases de teor cáustico, recicladas de leituras feitas ao longo de seu tempo, em um caderno de apontamentos. Exemplos:


1 – A existência é um osso antigo que ainda verte sangue virgem nas mãos de um mendigo imerso em ilusão.

2 – Pé de rosa nasce num jardim mal cuidado, onde, de forma furtiva, feto abortado foi enterrado.

3 – Cheiro de peixe podre. Mosca excitada, a ponto de copular com lâmpada apagada. Lâmpada apagada, acossada. Tímpanos zumbem. Verbo crescer em forma de gerúndio: CRESCENDO!

4 – Quem pariu a humanidade foi uma pedra.


            E por aí ia. Tudo documentado, visto e revisto, desde a capa à contracapa.



***


Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro-MG há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015) e Piolhos (2016), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Ilustração: Vinícius Ribeiro. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

domingo, 24 de setembro de 2017

Arribação: “Um grande acordo nacional”, Cecília Donateli



Um grande acordo nacional

É da boa educação
limpar os sapatos
no tapete Welcome

Adentro disjuntores,
santinhos, chicotes,
fotos de família,
banda larga,
frigobares e jornais
com as metas do governo

Ninguém pode acusar o brasileiro
de não ser capaz de fixar
vertigens

O dólar caiu,
toda reforma que vem
vem para o bem
de toda a gente de bem
do Brasil

Trabalha e confia

Deus abençoa
quem chega sorrindo
de cambalhota
à própria guilhotina


***



Cecília Donateli (1989) é capixaba, mineira e carioca em um corpo só. Graduou-se em Direito. Para compensar esse auto-boicote, escreve poemas.

domingo, 6 de agosto de 2017

Factory


1.
Meu Deus, e agora?

Factory é um objeto que tem como responsabilidade criar outro objeto.

Eu vou entrar agora na máquina aqui.

Aqui é o ponto fatal.


2.
Você mataria sua mãe por um milhão?

Eu gosto muito da minha mãe, mas eu não vou lá não.

Minha avó vai se casar sábado.

Tia Selma vai lá em casa só pra comer o tomate.

Lá em casa o povo não vive muito não, na verdade vive, mas morre de diabetes.

Vão enterrar ele que horas?

Quando você diz “arruma aí”, eu não sei o que é arrumar, mãe.

Vocês lembram quando a gente não tinha farinha de trigo?

Deus lhe pague, Marilene.

Tchau, vó.

Vai com Deus, mãe.


3.
E todos odeiam Daniela.

Eu já explodi um rato com um rodo.

Meu colega compra um cachorro e bota o nome dele de Latrocínio.

Traumatismo craniano na hora.

E eu não tenho nenhum dom, cara.

Não desespera.

Tem que sofrer pra purificar.


4.
Douglas, favor, comparecer à linha de frente.

Eu assino como eu?

O que me mata é trabalhar sábado.

Descansar agora, como se dona de casa descansasse.

Imagina você ir de limusine pro serviço.

Cê acha que eu vou advogar pra pobre, pra peão?

Mas eles nunca vão juntar uma equipe boa, paga pouco, exige muito e trata garçom que nem cachorro.

Que que tem trabalhar em zona, é um serviço digno.

Eu gostaria de poder ter tudo.


5.
O invisível a gente não consegue ver.

Eu faço arroz porque quero comer.

Se você não descer do ônibus, você vai ficar dentro do ônibus.


6.
Cada doido, cada doido, eu acho que deve ter faculdade de doido.

Quando você acha uma pessoa bonita, você stalkeia ela, fi.

Eu vou é pedir o impeachment dele da minha vida.

Este sol é minha kriptonita.

Aí eu falei, putz grila, a mulher jogou passas no meu creme.

Batata pesa, né?

Vou arranjar uma namorada no final do ano, acho que merece.

Então toma um bicarbonato, toma um banho, faz alguma coisa, uai.

Quem vai fazer a limonada hoje?

Passou quando eu tava pagando a passagem.


7.
É muito chão, né?

Quem tem limite é fronteira.

Ai, que bom que você me entendeu.



***



Douglas de Oliveira Tomaz, 24 anos, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, foi premiado pelo concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi) e possui textos seus publicados pelas revistas Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Publica regularmente crônicas n’O Salto e mora em Belo Horizonte, onde escreve seu primeiro livro de contos.



Ilustração: Vinícius Ribeiro. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

domingo, 25 de junho de 2017

Arribação

Seguindo o caminho aberto no ano passado, meio de ano é tempo de migração. Tempo de peixe se mover, de artista se mostrar. Envie sua produção artística pra gente!

E releia aqui o que já foi publicado.



(arte de divulgação: Vinícius Ribeiro)

segunda-feira, 12 de junho de 2017

- corte



Antes que eu cortasse o cabelo há mais ou menos um mês atrás, ainda que minha perspectiva de tempo não me dê certeza dos dias, ou de como passam − mantive nos fios, antigos e mais longos, o sabor dos dias em que talvez te amasse. Não é totalmente absurdo dizer que a possibilidade de amor pesa a cabeça, e os cabelos precisam ir pra gente continuar vivendo sem carregar essa ideia no topo do mundo da gente mesmo.

Cortados os fios, cheguei em casa tranquila, mas olhei a janela um dia desses, o que me fez recordar, nos fios antigos, a visão da sua. A minha continua a dar pra varais e barulhos de carros e buzinas. O amor, sempre juvenil, é esse ruído todo, era o que minha mãe dizia enquanto eu chorava por alguma paixão adolescente. Pegava a tesoura, e ia aparando cuidadosa, ponta a ponta, às vezes me punha franjas, às vezes me desfiava, e o peso do mundo desaparecia, porque era outra a pessoa que surgia debaixo das tesouras de minha mãe.

Olhando as janelas: “despe-te dos ruídos”, aparecem os versos que não recordo de quem são e me gritam por dentro, como se lá, no profundo das coisas, existisse sempre alguém que me rodeia e me grita poesia quando me lembro de ti. Os cabelos crescem num outro tom de afeto, mas você vez ou outra me aparece num ruído ou sonho qualquer, e fico imaginando como teria sido se. A cabeça ruidosa se apega menos aos fios, às vezes, e experimenta o oco da luz do fim da tarde, o sino das horas inteiras da igreja do lado, de um dia na cozinha enquanto tateávamos, no escuro, a tentativa do corpo do outro.

Talvez haja amor não por ti, mas pela lembrança barulhenta que vem na fantasiação e me faz colocar Vinicius pra tocar em dia de sábado, como se cortasse os cabelos novamente e desfiasse no som das coisas o passo ruidoso que antecede a gente ante a esse esforço subtil de esquecer.

– porque hoje é sábado. 


***



Brenda K. Souza, 24 anos, mestranda em estudos literários.


Ilustração: Barbarete, ou Bárbara Louzada. Artista, tatuadora e geógrafa, sobretudo uma entusiasta da vida. Atualmente, estuda Artes Plásticas na Universidade Federal do Espírito Santo, mas conserva a certeza de que os cantos do mundo têm muito mais a ensinar e a revelar sobre o universo da arte e do sentir.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Cantiga em prosa



Instantes de ânsia extrema.

Você o tempo todo no pensamento, a preencher horas de ação e de ócio.

Seu beijo. Seu cheiro. Seu corpo abraçado por mim com a loucura de quem queria ver o tempo parar. O pânico de não conseguir negar que a impossibilidade de eternizar nossos momentos fosse possível.

Era você. Anjo às vezes. Às vezes um demônio num corpo de luxo. A me obrigar a congelar o calor torturante de meus genitais, apalpá-los, apertá-los, como se assim diminuísse a gula de possuir você inteiramente.

Estamos diante do portão de sua casa, 23h:30min. Ou diante do portão de meus pensamentos? Você usa uma camiseta que tem uma foto da Mary Poppins estampada, sem sutiã por baixo. Você veste uma minissaia. Beijo sua boca. Mordisco seus lábios. Esfrego-me em seu corpo. Você chupa minha língua com volúpia. Toco seus seios. Minhas mãos passeiam pela sua bunda. Você me empurra. Pede para eu parar.

Era você. O nome que eu sussurrava enquanto descia de montes isolados para tocar punheta, sentir-me mais vazio depois de gozar.

Tanta laranja madura, tanto limão pelo chão!

Era você que fazia com que eu achasse que ir longe demais fosse perto. Era você que fazia e ainda faz meu coração bater de forma acelerada e dolorosa.

– Melhor acabarmos com isso.

Você acabou comigo.

– Morrer de amor não mata.

– Não? E o louva-a-deus?

– Eu disse morrer de amor. Não disse morrer de amar.

Tanto sangue derramado dentro do meu coração!



***


Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015) e Piolhos (2016), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Vinícius Ribeiro, artista. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

domingo, 7 de maio de 2017

O colapso da torre é o maior dos arcanos maiores



Nada muda a direção de uma faca a abrir-lhe o peito às 6 horas da manhã. É vendo a mesa, o pão e a xícara que se descobre como se movem as correntes marinhas e os demais movimentos continuados de uma matéria. Uma onça, sálmica, no cume da rocha, tentando fugir do fogo que jamais tivera a chance de causar: lá fora as pessoas tomam o ônibus para ir ao trabalho.

Esse é, assim parece, o regime do corpo. O corpo, que pode ser a mãe de três filhos e também o facínora, o corpo cuja pele é o que há de mais profundo, submetido à retórica do sacolejo. Um umbigo muitas vezes é um poço raso em que, com algum esforço, se pode afogar.

Em 1854, Auguste Salzmann fotografou os muros de Jerusalém do lado de fora. A revista Annales Archéologiques, à época, disse que as fotos demonstravam uma relação sálmica com a cidade sagrada.

Sálmica é a onça que dorme em pé da Zona Norte à Zona Sul.


***


Cecília Donateli (1989) é capixaba, mineira e carioca em um corpo só. Graduou-se em Direito. Para compensar esse auto-boicote, escreve poemas.


Vinícius Ribeiro, artista. Começou a desenhar desde a mais tenra idade e nunca mais parou. Atualmente, estuda Artes Visuais na Universidade Estadual de Montes Claros. Colabora periodicamente como ilustrador para O Salto, além de ser autor do blog pessoal Pensamento Ilustrado http://pensamentoilustrado.tumblr.com/