segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Adélio Brasil, o costureiro



Entrevistar Adelinho foi muito fácil. A começar pela permissão íntima de se usar o nome no diminutivo; fácil também pelo ambiente confortável de sua casa, pelo vento de março que agitava as árvores da rua e abraçava nossa conversa, pela generosidade com que ele interrompia a entrevista para oferecer suco, cerveja, vinho, qualquer carinho que o valha. Sobretudo fácil, porque todas as perguntas foram respondidas antes mesmo de terem sido feitas. Bastava ouvir. E ouvir, quando o emissor é um exímio contador de histórias, que prolonga ou encurta palavras no momento certo, aumenta ou diminui a entonação da voz no intuito de ênfase, pausa, sabe o peso que cada palavra tem, enfim, ouvir nesse caso é fácil, muito fácil.

Adelinho mora numa casa-ateliê de dois andares, quintal vasto, lugar onde costura, cria, recebe visitas e dança sozinho pelas madrugadas, segundo diz. Lá, recebeu a mim e a Davi para uma prosa caleidoscópica em que início, meio e término se confundiam, assim como nós três. Em sua fala, a todo momento procurava ligações entre nossas três personalidades, num ato tanto de quem se habituou a receber visita e cuida de incluí-la na conversa cotidiana, quanto de artista que recolhe diferentes tecidos espalhados pela casa – e os costura. Adelinho é costureiro e aquela tarde foi de estabelecer elos. 




- Gosto muito do processo de criação no vestir. Eu não trabalho com egoísmos pessoais. O vestir é muito pelo contrário, a pessoa coloca muito mais para fora o que ela realmente é. Tem gente que pensa que vestir é fantasia, e não é. O dia em que eu tô mal, eu tô de calça comprida, uma camisa, assim, lisa, bege... Pode saber, não tá bem – gargalha Adelinho, que naquele dia estava todo de amarelo, qual picolé de pequi.

Formado em Belas Artes e em Decoração, aprendeu a costurar observando as costureiras de uma fábrica para a qual foi chamado para tingir tecidos, em Belo Horizonte, após um período trabalhando, meio a contragosto, como decorador: Sabe quando você se sente em casa? Aquela coisa de manchar tecido e a pintura virar roupa, tomar vida e ir para a rua. Eu acho que o que me fascinou foi isso – abaixa o tom, como quem chega na pedra de uma certeza e a reverencia –, foi isso, sair na rua e ver o tecido que eu pintei andando pela cidade. 



A identificação com os Parangolés, de Hélio Oiticica, que na década de 60 dizia que a “arte deve ser vestida”, não é coincidência, mas influência assumida:

- Quando uma professora de moda perguntou o que era o parangolé para mim, respondi: olha, eu vivo isso. Nunca fiz quadro para ficar estático na parede. Eu faço o tecido pintado, bordado e ele vai embora. Ele tem vida própria. 
Nildo da Mangueira, com Parangolé, 1964

Interrupção para contar outra história
Itzik morou em Pirapora em 1979, ano de enchente, ocasião em que conheceu e se tornou amigo de Adelinho. Judeu, olhos claros, hoje de barba longa e dreads, mora em Jerusalém. Pediu a seu velho amigo uma camiseta colorida bordada. Camiseta bordada? respondeu Adelinho espantado. Logo você que só usa marrom? O costureiro, sempre muito atento às relações entre cores e subjetividades, diz que o amigo, “hippie real e autêntico” que viajou o mundo inteiro e desejava quando moço falar todas as línguas, nunca foi de usar roupas coloridas. Já se cansou de tentar convencê-lo a usar lenços, tintas. Hoje, após o pedido inesperado, contenta-se por bordar uma típica paisagem piraporense numa camiseta branca para o amigo. Itzik receberá Pirapora bordada no peito na capital de Israel, onde ensina às pessoas a respirar. Ninguém sabe respirar, almoçamos correndo, fazemos tudo com pressa  justifica Adelinho, defendendo a relevância do trabalho do amigo. Mas, pessoalmente, entre um assunto e outro não respira. Emenda a conversa.

Após ter trabalhado numa empresa de decoração e numa confecção em Belo Horizonte, Adélio cansou-se do ofício. Seu contato com artistas da capital mineira o fez atentar para o sentido artístico que latejava dentro de si. Eu estava cansado de decoração. Larguei tudo e voltei para Pirapora. Eu queria liberdade, queria começar minha vida de artista, conta. Interessante notar que essa pulsão que o fez buscar a liberdade foi a mesma que o fez buscar a arte, como se fossem os dois um processo só, ou como se fossem sinônimas essas duas palavras. 

- Voltei para Pirapora, trabalhei por uns dois anos com uma, duas máquinas de costura, mas, em um momento percebi que eu precisava melhorar meus instrumentos de trabalho. Por isso, morei em Brasília por quatro meses, onde trabalhei para conseguir dinheiro e então comprar mais máquinas, investir em mim mesmo. Consegui, retornei à Pirapora, abri uma confecção e me tornei o costureiro dos doidão. Sabe esse negócio de customização que falam hoje? Pois é, eu já o fazia no início da década de 90. Tingia, remendava, colocava uma estrela aqui, um brilho acolá... – ri, enquanto relembra.

E, antes de verbalizarmos pergunta já formulada, responde que sempre contou com apoio dentro de casa. Inclusive, em relação a sua sexualidade. Lembra que os amigos conservadores de seu pai chegavam neste para compartilhar um constrangimento: olha, acho que seu filho é ó… E Adélio pai, com uma mentalidade avançada para seu tempo, ouvia os amigos, mas em relação ao filho nunca foi de poda. Pelo contrário, conta Adelinho, ele e minha mãe sempre me deram corda para ser livre. 

- E esse apoio foi fantástico na minha vida. Imagine, eu saí daqui para estudar em BH, trabalhei lá, estava bem sucedido, ganhando dinheiro e, de repente, volto sem nenhum tostão no bolso e a primeira coisa que faço quando chego é abrir um bar numa ilha do rio São Francisco durante a Festa do Sol. Inclusive, eu servia amendoim com o sal numa tampinha e o povo falava que eu servia cocaína. Imagina? Só se eu estivesse rico para servir cocaína no meio do rio – gargalha. Mas o que eu quero dizer é que isso tudo era motivo suficiente para meus pais quebrarem o pau comigo, só que não foi assim. Muito pelo contrário. 


Interrupção para contar outra nova história
Além desse botequim existente durante a Festa do Sol, Adelinho também foi sócio de outro bar, Floridita, junto com um casal de amigos franceses, Christophe e Françoise. O nome do estabelecimento faz referência ao histórico bar homônimo em Havana, Cuba, fundado em 1817, famoso internacionalmente pelo daquiri e por ter sido frequentado pelo escritor norte-americano Ernest Hemingway. O Floridita piraporense não ficou famoso por ter um grande escritor como cliente assíduo, nem por servir cocaína como tira-gosto, mas estava na boca do povo devido aos boatos de que Adelinho se relacionava sexualmente com o casal de amigos. E era verdade? pergunto. Não, responde. Mas beijava a boca dos dois. Não passava disso. 

Davi pintou uma aquarela para dar a Adelinho de presente


A conversa seguiu fluida, pouco organizada, pouco óbvia. Em vários momentos nossas três histórias – minha, de Adelinho e de Davi – se confundiram e não sei se por mérito da energia trocada, ou da capacidade criativa do entrevistado que, ao contar sua própria história, também nos costurava a ela. Somos retalhos ou tecidos inteiros. Roupa é pessoa, Adelinho sintetiza.

Por fim, ou no meio, ou no começo, conversamos ainda sobre a recente movimentação artística pela qual a cidade está passando. Grupos autônomos de literatura, artes plásticas, teatro, capoeira, dança e outras manifestações articulam-se, fortalecem-se mutuamente, resgatando a cultura barranqueira, ou reinventando-a, tirando a poeira que pairou sobre o município durante longos anos. E, sobre o assunto, nós três convergimos no ponto de que não é mais tempo de ficarmos somente exaltando o passado, num saudosismo paralisante, mas de nos perguntarmos: o que podemos fazer para melhorar a produção cultural piraporense hoje, agora? E ficamos felizes em já encontrarmos várias respostas a essa pergunta acontecendo concretamente e outras ainda sendo pensadas todos os dias, pulsantes, latentes. Pirapora vive, concluo. E essa conclusão é minha, mas acho que partilharíamos o ponto de vista se esta afirmativa tivesse sido lançada naquela tarde de março, àqueles ventos que balançavam as árvores e faziam tudo parecer mais colorido, profundo e fácil, sobretudo fácil. 



***


Davi, 18, é artista plástico, autor da exposição Partos, ocorrida em Pirapora, 2014, e atualmente reside em Belo Horizonte. Tumblr:


Douglas de Oliveira Tomaz, 22, é escritor, educador, lançou artesanalmente o livro de poemas Escorre, e atualmente reside em Pirapora. Blog: www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br

segunda-feira, 20 de abril de 2015

“Todo mundo tem medo do bairro do outro” – Bairro Nossa Senhora Aparecida, Pirapora (MG)

Estacionamos o carro na antiga rua dos cabarés, batizada oficialmente como rua Rio Grande do Norte. Ouvi dizer que, na época do transporte fluvial pelo Velho Chico, quando Pirapora foi um ponto importante de carga-descarga, embarque-desembarque, nesta rua concentraram-se muitos cabarés, disse para David, que olhava perdido para as casas tentando encontrar resquícios desse passado narrado. É mesmo? respondeu-me admirado, gente, que beleza.





 

Assim iniciamos nossa caminhada pelo bairro Nossa Senhora Aparecida, berço da cidade de Pirapora (MG), bairro de pescadores, lavadeiras, marujos, mulheres da vida, gente que ia e vinha, seja de casa pro rio, do rio pra casa, ou do rio para outros lugares. Pirapora sempre foi cidade de movimento – ao contrário do que pensam alguns atuais moradores que só veem permanência no lugar onde o Rio São Francisco está em constante ir embora.

Era tarde de uma quinta-feira, dia comum, exceto pelo sol brando, ideal para caminhadas. Mais à frente, um grupo de crianças brincando correu em direção a nós, que tirávamos fotos de velhas construções em ruínas: o que cês tão fazendo? perguntaram-nos. Tirando fotos, algum de nós respondeu. E vocês só tiram fotos de casa velha? Não, de qualquer coisa relacionada ao bairro, respondemos entre risos. Ah! – saíram correndo, de volta para a brincadeira.

Outro morador, que ajudava os meninos a confeccionar uma pipa, também chegou até nós, incomodado com esses dois rapazes desconhecidos tirando fotos de seu pedaço. Chegou num tom de quem cuida da cria, meio desconfiado, demarcando território. Logo dissemos que estávamos fazendo um ensaio fotográfico sobre o bairro, o que lhe desfez os vincos da testa. Fiquem à vontade, nos disse no final da curta conversa, como se abrisse as portas de sua casa, autorizando mexer na geladeira.

Nessa hora, Ludmila, também moradora, cruzou a rua falando alto em tom de deboche com esse morador que nos recepcionara. Ludmila anda tranquila pelas ruas do bairro, trocando palavras com qualquer pessoa que passa, como um eixo articulador de piadas e conversas. Olhou-nos de relance, tirou sarro do jovem morador dizendo que ele estava grande demais para brincar de pipa, ao que ele respondeu com outro sarro, coisa de gente íntima. Prosseguimos caminhada. Ludmila entrou numa casa, depois saiu, sempre nos olhando de relance, curiosa, também desconfiada. Desconcertados, chegamos até ela, pedindo entrevista. Ludmila parece ser dessas pessoas sempre prontas para tirar foto, tirar sarro, impor-se. Parecia também estar em todos os lugares, ser alguém importante para o bairro, embora tenha nos confessado morar ali apenas há cinco anos. Parados na esquina, nos disse:


– Todo mundo tem medo do bairro do outro. Eu adoro meu bairro! Aqui antes era perigoso, não dava nem pra andar na rua, com medo de bala perdida. Hoje tá tranquilo.

– O que mudou? – perguntamos.

– Aí cê me pegou. Não sei. Talvez o povo ruim tenha sido preso.

– Talvez esse povo tenha tomado jeito.

– É.


Após a conversa, como suspeitado, autorizou a foto sem nenhuma resistência.




***

Dona Maria, 83 anos, colocava o lixo na calçada de casa, numa das muitas vielas do bairro. Nossa conversa rendeu bastante, quase puxamos cadeira, pedimos café – quase.


– Moro há 70 anos em Pirapora, vim da Bahia. No bairro Aparecida, moro há 55 anos. Eu que construí minha casa, quando eu cheguei só tinha canudo, conhece canudo? Um mato que dá assim, pontudo.

– Outra moradora me disse que aqui antes já foi perigoso, mas melhorou. A senhora acha que melhorou?

– Não sei. Será que já foi mais perigoso? Não sei. Nesse meu pedaço é tranquilo, de vez em quando acontece umas coisas ali detrás, esses trem de droga. Mas hoje todo lugar tem, né? Todo lugar tem desacerto.


Dona Maria serenamente nos conta como foi ter sua casa inundada pela enchente de 79 e, transportando a questão da moradia para a atualidade, revela, com certo assombro, que os moradores estão aterrando a lagoa que apelida o bairro e construindo casas sobre. Nem existe lagoa mais, diz. E o rio? Não gosto nem de ir lá, complementa, referindo-se à atual seca enfrentada pelo São Francisco. Dona Maria gosta de conversa e, após um grande silêncio, denúncia da prosa que finda, pergunta, meio afirmando: Cês tão procurando saber disso tudo aí pra escrever depois? É, respondo. E, sorrindo, balança afirmativamente a cabeça, como se eu respondesse o óbvio, como se já tivesse passado por muitas entrevistas e estivesse calejada dessa gente desconhecida que aparece fazendo perguntas do nada. Sobretudo, Dona Maria parece gostar dessa gente, embora já a conheça o bastante. Antes da despedida, reluta para tirar a foto, diz estar velha demais e detestar fotografia. Após muita insistência, posa desconfiada, sem qualquer entrega.




***

A visita terminou na Rua da Liberdade, lugar de festas juninas memoráveis, segundo contam. Entramos na ONG Afrogerais, que realiza trabalho de resgaste da cultura afro-brasileira com crianças e adolescentes do bairro, oferecendo gratuitamente oficinas de capoeira, bordado e dança. Lá encontramos Ivani, moradora da Vila Branca, outro bairro de periferia da cidade, mas assídua frequentadora deste. Cansados de caminhada, repousamos no exuberante jardim da casa e na fala de Ivani que, distante o suficiente para generalizar na análise, mas próxima o suficiente para empunhar afeto no que diz, assim definiu o Nossa Senhora Aparecida:


– É o termômetro da cidade. Se você quer saber se o carnaval tá bom, qual político vai ganhar, vá no bairro Aparecida. Acho que pela cidade ter nascido aqui, o bairro tem uma energia diferente.


Fomos embora conscientes de não termos percorrido nem um por cento do todo. Tudo é muito grande visto de perto. Por outro lado, algumas impressões não cabem em palavra alguma e não estão aqui. É preciso pisar para sentir. E o bairro Aparecida merece ver contada sua história. Existe algo muito forte enterrado aqui, disse para David, que se manteve calado para desenhar depois. Algo enterrado, mas que transborda pelas pichações nos muros, pelo alto número de praticantes de umbanda e candomblé silenciados, pelo histórico de marginalização, pela arquitetura barranqueira em ruínas. A palavra fúria, pichada em diferentes lugares, ecoa em minha cabeça enquanto saio do bairro. Pode ser uma boa definição para este algo enterrado, mostro a David. Ele concorda e sorri, cintilando belezas. 























segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Três escritoras, por Brenda K. Souza


Escolher o que se lê parte, antes de tudo, de um reconhecimento. Elenquei aqui três escritoras com as quais me reconheço nas linhas, em suas modificadas formas. Lembro-me da menina que ao descobrir cada uma delas, acabava por se descobrir também. A seu modo, todas escrevem para salvar a si e alguém, e eu leio com essa mesma intenção.

Uma) Clarice Lispector

Louca, hermética, mística, genial, inovadora: adjetivos que perpassaram toda obra escrita de Clarice. De origem pobre, a jovem escritora judia de sotaque engraçado, causa espanto e admiração no cenário da literatura nacional com o lançamento do seu primeiro livro: Perto do coração selvagem. O romance antecederia as principais características das obras subsequentes, a principal delas, o rompimento da lógica cartesiana no romance. Introspectiva para aqueles que não a entenderam, a escritora dá lugar ao pensamento, ao fluxo, escrevendo apenas, como que para salvar a vida de alguém (sem compromissos com o cânone), talvez a dela, como viria a dizer.  Sua escrita é selvagem e convence apenas por ser; suas personagens, assim como sua criadora estão no limiar da descoberta, dos pequenos delitos, das fugas morais, na recriação do mundo e do próprio fazer literário. Em Clarice, biografia e obra se confundem, se misturam, a confissão impregnada nas personagens em terceira pessoa traz em seu cerne um naco grande de carne e essência da escritora, talvez, por isso, ela ficava oca quando terminava de escrever. A palavra para ela é além, é corpórea, matéria vertente, água em fluxo corrente. 

sim, quero a palavra última que também é tão primeira que já se confunde com a parte intangível do real. Ainda tenho medo de afastar da lógica porque caio no instintivo e no direto (...). Que mal porém tem eu me afastar da lógica? Estou lidando com matéria- prima.

Em entrevista ela confirmou minha expectativa ao dizer que para entendê-la era preciso, antes de tudo, sentir, de nada adiantavam as teorias, ela escapava e escapa a qualquer conceituação de gênero. Eu sinto.

Duas) Ana Cristina César

Outra mulher que também causaria reboliço algumas décadas mais tarde, era a carioca Ana C. César. A sua experiência com a escrita começou muito cedo, segundo a mãe, desde pequena, antes mesmo de conhecer os signos escritos, ela ditava e pedia que escrevesse; em suas primeiras publicações há textos produzidos aos 16 anos apenas. Conhecida por ter feito parte da chamada geração mimeógrafo, César teve a maioria de suas publicações desvinculadas de editoras, pois dedicava-se a uma produção artesanal, acessível ao leitor, marginal. Escrita em tom confessional, a poesia de Ana convida a um mergulho na própria identidade, na dela, na nossa. Sua palavra se articula de maneira simples, esvoaçante, descompromissada com regras de sintaxe. A escritora também segue um fluxo, o da confissão, por esse motivo torna-se tênue a linha entre o que é ficção e o que é real; tudo é mentira, tudo tem vias de ser verdade. A intimidade dos textos é atordoante, Ana salta das páginas e mostra ao leitor a janela do texto de onde viria a pular em outubro de 83, escrever é premunir, ler é testemunhar essa poética felina livre, que salta despreocupadamente.

Localizaste o tempo e o espaço no discurso/que não se gatografa impunemente./É ilusório pensar que restam dúvidas/e repetir o pedido imediato./O nome morto vira lápide,/falsa impressão de eternidade./Nem mesmo o cio exterior escapa/à presa discursiva que não sabe. Nem mesmo o gosto frio de cerveja no teu corpo/se localiza solto na grafia./Por mais que se gastem sete vidas/a pressa do discurso recomeça a recontá-las fixamente, sem denúncia/ gatográfica que a salte e cale.

Três) Marjane Satrapi

Ainda buscando relacionar biografia e autora, destaco por último, mas não menos importante, a escritora iraniana Marjane Satrapi. Escrever, criar, é também e sempre um ato político. A escritora e desenhista emerge com uma proposta diferente de contar, de confessar e de estimular atitudes “transgressoras” frente a um regime autoritário e violento. Em seu primeiro livro, Persépolis, escrito e ilustrado através de quadrinhos, a autora relata sobre sua infância até a vida adulta permeada por fatores como política, comportamento, construção de identidade, preconceito e questões que perpassam a vida de qualquer mulher durante seu desenvolvimento. O “universo feminino” tratado no livro vai desde as lembranças das mulheres mais velhas da família a posicionamentos frente à opressão vivida tanto no oriente quanto no ocidente, opressão essa que impõe padrões de comportamento a meninas e mulheres e pune direta ou indiretamente quem não os segue.



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Maria Vargas e As aventuras de Pira-Poré


Autora de quatro volumes de Aventuras de Pira-Poré, coleção de livros infantis dedicados às descobertas do cerrado e da cultura indígena Kariri, a escritora Maria Vargas conta sobre o seu processo criativo, a importância do incentivo à leitura, as dificuldades para lançar-se escritora e, principalmente, sobre o seu amor e dedicação à literatura infantil. O salto agradece a gentileza da autora em ceder esta entrevista. 


Como e quando surgiram As aventuras de Pira-Poré na sua cabeça?

As aventuras do Pira-Poré são histórias ligadas ao Rio São Francisco e o rio é a inspiração maior presente na minha vida. Sempre quis escrever sobre ele. A ideia sempre foi lançar uma visão mais humana sobre o rio e resgatar a história indígena da nossa cidade. Uma visão que não fosse unilateral como a que conhecemos e aprendemos na escola. Aquela visão dos índios agressivos, “belicosos”, que receberam os bandeirantes com flechas e pedras. Eles eram os primeiros moradores e foram expulsos do lugar que escolheram para morar. Eram pessoas integradas à natureza, que sobreviviam dela e certamente enfrentavam, no seu cotidiano, os problemas e vivências característicos da sua comunidade.

O que te motiva a escrever para esse público tão específico?

Busquei o caminho do rio e o resgate da história indígena, por meio da literatura infantil, porque acredito que as crianças possuem uma percepção mais sensível, um olhar mais sincero sobre o que ocorre à sua volta.
A proposta da “Coleção Aventuras de Pira-Poré” é trazer ao público infantil valores como amizade, sociabilidade, cidadania e consciência ambiental. O objetivo é fazer com que as crianças se identifiquem com o personagem, que gostem do que ele vive no dia a dia, que admirem o comportamento dele e que tomem conhecimento de uma cultura diferente daquela que conhecem. Acho que essa identificação pode trazer um aprendizado de maneira mais lúdica e prazerosa, sem imposições que possam provocar desinteresse pelos temas propostos.

Quais foram os caminhos percorridos para a concretização dessas aventuras? Quais as maiores dificuldades?

A maior dificuldade para se lançar escritor é, com certeza, encontrar uma editora que banque o seu projeto. Para o novo escritor, a procura é longa e cansativa. Mas se você procura  alternativas, pode conseguir concretizar o seu sonho. No meu caso, consegui isso por meio de Leis de Incentivo à Cultura. Essas leis oferecem oportunidades para todos os agentes culturais. Elas abrangem literatura, música, audiovisual, teatro e outras manifestações artísticas. Três exemplares de “As Aventuras de Pira-Poré” foram publicados com o patrocínio da Lei Municipal Ascânio Lopes de Incentivo à Cultura, na cidade de Cataguases, onde resido atualmente. Considero a Lei Ascânio Lopes uma grande iniciativa do município. Todo o setor cultural é beneficiado por ela. Para mim é uma honra ter sido contemplada em três anos consecutivos. Tive a oportunidade de distribuir os livros em 27 escolas públicas municipais e de conversar com as crianças da maioria delas. Isso é muito importante. Todas as edições tiveram tiragem de 2.000 livros. A contrapartida para a Prefeitura de Cataguases é de 20% da obra, ou seja, 400 livros. Eu doo mais 600 livros e faço a entrega direta nas escolas, para que todas possam ser contempladas, sem falha. Existem ainda a Lei Estadual e a Federal (Lei Rouanet), que patrocinam projetos culturais através de incentivo fiscal. Quanto à história dos livros, todas as aventuras infantis e os cenários dessas aventuras são experiências vividas por mim, pelos meus irmãos e irmãs, amigos e amigas e que a maioria dos piraporenses e barranqueiros também vivenciaram na infância. A relação com o rio, com o clima, as árvores, os animais, flores e frutas do cerrado são elementos que até hoje fazem parte da vida das pessoas que moram às margens do rio. Evidente que mesmo com esse conhecimento que tenho sobre as coisas do rio e suas histórias, fiz muita pesquisa e inseri nos textos elementos lúdicos de ficção para aproximar o leitor do universo e da cultura indígenas.




Você escreve texto adulto ou somente literatura infantil? Quais são as peculiaridades do texto para crianças?

Tenho escrito textos infantis, que atraem leitores de todas as idades. Nada impede que em um determinado momento eu também escreva textos exclusivamente para um público adulto ou juvenil. O livro infantil tem características fantásticas: o visual, as ilustrações, cores, o design gráfico. Essa possibilidade de “amarrar” a ilustração ao texto é maravilhosa. Em outros casos, somente a ilustração é o bastante, não há necessidade do texto. A história é visual e está lá para ser desvendada pelo leitor. No caso do Pira-Poré,  tenho uma parceira fantástica, a artista plástica Marina Vargas Tomaz. Sendo também de Pirapora, ela tem o olhar sensível e conhecedor sobre a história contada. Além de sobrinha, Marina é minha afilhada. Temos uma ótima relação e total compreensão sobre os objetivos do projeto Pira-Poré. Estamos sempre em contato sobre a melhor forma de se adequar texto, linguagem e ilustrações. Quanto ao texto, acredito que ele tem que apresentar alguns elementos comuns ao mundo infantil: curiosidade, criatividade, imaginação, ou seja, é preciso enxergar o mundo com o olhar da criança. Além disso, o texto não pode ser cansativo e com frases longas. Elas devem ser mais curtas, com palavras e linguagem simples.

Qual a importância da leitura já na infância? Você era uma criança leitora?

Desde a infância sempre tive um incentivo muito grande à leitura. Os livros estavam à nossa disposição. Minha mãe é uma leitora ávida. Sempre discutia conosco sobre as histórias dos livros. Sobre os escritores. O meu pai também. Acho que fui privilegiada nesse aspecto. O gosto e a admiração pelos livros e pelos escritores é que me fizeram sonhar com a possibilidade de poder também, um dia, aventurar-me na literatura. O incentivo deve acontecer de forma natural, sem imposições. A criança deve sentir prazer com a leitura. Ouço muitas vezes que é preciso ter o “hábito” de leitura. Hábito é, por exemplo, tomar banho todos os dias. Em minha opinião, as crianças e as pessoas de modo geral, precisam encarar a leitura como uma ação prazerosa, não impositiva: “Eu tenho que ler, todo mundo está lendo, eu tenho que ter cultura e conhecimento...” etc e tal.  Isso não funciona. Os pais e a escola, cada um a seu modo, devem incentivar com exemplos. Dessa forma a leitura não será encarada como uma obrigação.

Além de escritora, você também é contadora de histórias. Como tem sido essa experiência?

Contar histórias é o recurso que utilizo para conversar com as crianças sobre literatura infantil e sobre a atividade leitora. Essas atividades exigem, primeiramente, entender que elas têm uma experiência e vivência bem diferentes umas das outras. Existem crianças que não são incentivadas à leitura em casa. Só recebem esse incentivo na escola. Os projetos das escolas que incentivam a leitura são muito importantes (dia da leitura, cantinho da leitura, contação de histórias etc). Nos encontros que realizo com as crianças, meu objetivo é o de promover uma reflexão sobre o papel e a importância da leitura. Incentivar a atividade leitora com ênfase na leitura universal, da leitura que te retira do gueto cultural. Eu acredito na leitura que te permite olhar e conhecer além dos muros que cercam o seu espaço social. Acho também que a mesma ênfase, com uma abrangência muito maior, deve ser direcionada aos mediadores de leitura.


(encontro com alunos das escolas municipais  de Cataguases - MG)


Você pensa em projetos de literatura infanto-juvenil, juvenil ou adulta?

No momento não. Os meus projetos atuais são todos voltados para o público infantil.

Como Pirapora recepciona sua carreira? Há espaço, apoio?

Além do incentivo e apoio da família e dos amigos, a única escola em Pirapora que recepciona o meu trabalho é o Colégio Pirapora. Direção, professores, funcionários, alunos e pais de alunos sempre incentivam as apresentações do Pira-Poré. Todos os anos em que eu e Marina estivemos com eles foi uma festa. Sempre nos  recebem com muito carinho. Em Buritizeiro fui convidada por Ildete Braga, uma amiga querida, e me apresentei na Escola Estadual Prefeito José Maria Pereira. Foi um encontro ótimo com os alunos. Adorei e espero voltar na escola.

(lançamento de Pira-Poré e a chuva no Colégio Cenecista de Pirapora)


Por que você escreve?

Porque gosto de literatura. Gosto de ler, contar histórias, compartilhar conhecimento. Aprender sempre. Tenho ainda tantas perguntas sobre o ato de escrever, tanto a aprimorar. Mas continuarei tentando. Tenho outros projetos e espero que eles possam provocar, da mesma forma que o Pira-Poré, entusiasmo nos meus leitores.


(ilustração de Marina Vargas Tomaz)

Maria Vargas


Criada em Pirapora, às margens do Rio São Francisco, a escritora é formada em Relações Públicas pela PUC-Minas e é mestre em Comunicação Social pela mesma instituição. Desde 2010, mora em Cataguases, onde é proprietária da  Vértice Consultoria, empresa que presta serviços de consultoria em pesquisa de clima organizacional, diagnóstico institucional e avaliação de clima comunicacional interno para empresas privadas, públicas e organizações do terceiro setor, além de promover palestras, cursos e seminários ligados a temas como liderança, gestão de pessoas, redes colaborativas e inovação.

A literatura é um sonho que concretizou por meio da “Coleção Aventuras de Pira-Poré”, composta por quatro volumes, que narra a história do curumim  Pira-Poré – indiozinho da tribo Kariri -  nas matas da região do cerrado mineiro. A inspiração para o personagem e suas aventuras veio de ouvir, desde pequena, as lendas sobre o rio São Francisco e as histórias contadas pelos pescadores. Embora familiarizada com a região, ainda assim a história dos índios, antigos habitantes locais, era um mistério para a autora. Reais ou imaginárias, essas histórias enfeitaram sua vida e a inspiraram para a criação do personagem Pira-Poré.

Maria Vargas gosta muito de contar histórias e idealizou o Projeto "Pira-Poré Conta Histórias", apresentado para crianças e professores de escolas estaduais, municipais e particulares. Em seu projeto de incentivo à leitura, a escritora é convidada pelas escolas para o lançamento de seus livros, quando é organizada a sessão de autógrafos com  contação de histórias para as crianças, além de uma palestra e um mini-curso para professores de 1ª a 5ª séries sobre o cotidiano literário das crianças brasileiras e a utilização do livro infantil em sala de aula.

Contato: 
Facebook: Maria Vargas

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Diálogo onírico disforme: Surrealismo, por David Nascimento e Douglas de Oliveira Tomaz



Surrealismo?

David Nascimento:
Fugir ao irreal, incorporando os desejos inalcançáveis. Despertar de um sonho e poder gerá-lo visualmente, proporcionando a busca por novas fantasias. Adormecer, visitar Sigmund Freud em uma cidade chamada clímax, onde os habitantes só se masturbam. Comer um bolo de gozo feito por gafanhotos azuis no purgatório e prosseguir roendo pequis coloridos, que nunca são gastos para a não-existência de espinhos. Dialogar com o inconsciente.

Douglas de Oliveira Tomaz:
Sim, surrealismo, ou sonho, paredes transpostas, rinocerontes em piscinas, corrida para pular na corrida para pular na corrida para pular. Livro que se abre e dá em árvore, em nuvem, nuvem que dá em diamante colorido, Clube da Esquina, Minas Gerais de alguns meses, hoje, hoje, palavras brotando do hoje regadas pela mente de agora, acumulada pelo ontem e pelos anteontens. Surrealismo mistério diário ao acordar pela manhã. Tentativa vã de domar o inconsciente com palavra. Talvez por isso não consigamos lembrar nossos sonhos, em muitas vezes, porque sua linguagem ultrapassa palavra, ultrapassa a lógica consciente da narração, coesão & coerência.  Ultrapassa, inclusive, a tentativa de lembrança, porque lembrança tá na parte segura, terra firme, o consciente está minado por cercas.

David:
Inserir o surrealismo na minha arte é automático. Busco por símbolos e, de forma atrativa, eles se ajeitam na parede úmida dos meus devaneios, esperando o ato de produção. Acabam se transformando em características e são fixados em durações, caso o tal ato demore acontecer. Dalí teve Gala, gavetas, formigas, relógios de Gorgonzola, elefantes, girafas em chamas e pães gigantescos. Tornaram-se marcas de seus períodos. Eu tenho olhos, seios, pênis, vaginas, o erotismo em um só ciclo, atual e sem previsão de término. Tudo atiçado no inconsciente. Frutos de minhas fugas. Vinculadas às motivações pessoais.

Douglas:
Talvez eu nunca incorpore o surrealismo plenamente em minha literatura. Digo ser impossível, por hora, essa incorporação plena, porque, enquanto escritor zumbi rastejante, ainda me preocupo com uma estética tradicional. Conseguirei produzir surrealismo quando essa preocupação não mais existir, quando for só eu e o papel e minha inconsciência, sem revisões, sem preocupação com a repetição de palavras, com a falta de ritmo, com a “ortografia errada”. Conseguirei produzir surrealismo quando a consciência deixar de existir, domadora implacável e chata. Há um tempo, tento, através da escrita, narrar/descrever sonhos importantes; e, abobado, tenho percebido que meu inconsciente é lógico, ou, se não chega a tanto, possui uma organização caótica que ainda desconheço, mas que existe. Percebo a repetição de símbolos, de significados e sentidos nos meus sonhos, como se se comunicassem, ou morassem num mesmo canto onde a conversa acontece sempre fluida. Nas últimas semanas, tenho levado essa tentativa um pouco mais a sério. Escrevi L. e o canal que se expande  a partir de um sonho. Na verdade, é narrativa toda sonhada. Estou adorando esse movimento de diluir paredes e não me preocupar com o de-sen-ca-de-a-men-to dos fatos. Fatos não precisam se desencadear. Podem nascer de si mesmos, sem qualquer relação com a anterioridade. Coincidentemente, estou lendo dois livros também oníricos: O livro dos sonhos, do Jack Kerouac, em que ele literalmente cospe fora seus sonhos após acordar, do jeitinho que eles vêm à mente, e A céu aberto, do João Gilberto Noll, autor contemporâneo brasileiro, que é um romance sem intervalos, sem divisão por capítulos, um fôlego só, pedrada: um fato, ou sonho, vai levando a outro, que leva a outro, que leva a outro e assim vai, parece que sem fim, embora o livro acabe em algum momento – ou  não. Tento aprender com eles. Quando leio também produzo literatura – no inconsciente.

David:
Como não ser influenciado por um indivíduo que eu admire? A literatura que o Douglas concebe é o que eu estava buscando há algum tempo para poder me inspirar, mas as referências anteriores foram todas distantes. Estou podendo acompanhar, absorver do seu processo criativo, e de perto. É como se alguém sonhasse por mim através da escrita, sugerindo o que fabricar. Então posso regressar, tentar propor de volta. A influência se dá na parte eufórica da minha psique, onde posso pressupor através da leitura de suas obras. Está me ajudando no processo de fortalecimento das temáticas, transcendendo o pensamento ‘’normal’’ e abortando a razão.

Douglas:
Desde que conheci a obra surrealista de David, tenho detonado as paredes da minha literatura com dinamites. Conversando com Edson Lopes, outro dia, ele falou em “literatura positiva”, de positivismo mesmo, e gostei do termo, gostei porque tenho tentado me distanciar cada vez mais dela e a obra do David tem me ajudado neste sentido. Olhos na testa, nos seios, seios no nariz, dedos em todos os lugares, pênis desmembrados, rabiscos, rabiscos soltos e livres, de cinco minutos, como ele diz: não há como não sair transformado desse contato. E essa transformação, claro, reflete-se na escrita, porque a escrita é a consequência desse liquidificador ligado que gira vivendo. David é gênio. Um gênio modesto.

De Douglas para David: você utilizou sangue próprio em algumas de suas obras. Sangue é surrealista?

O sangue, hoje, se estendeu em técnica, mas comecei a utilizá-lo em minhas obras como consequência de um sonho que tive. E só é surrealista, porque eu o converto para. Digo, minha obra o converte, com o que ela carrega.

De David para Douglas: quando começou a escrever, já fazia planos de seguir carreira? Consegue se lembrar do primeiro ato literário?

Importante saber que ainda não tenho carreira, estou buscando caminhos. Mas a certeza temporária de que a literatura é o sentido da minha vida existe e está, por enquanto, bem nítida. Quando comecei a escrever, o sentido de “carreira” ainda não estava formado em minha cabeça, ainda bem – preferiria que ele nunca tivesse se formado. A escrita começou com o teatro na infância, como membro do grupo Metralhas, dirigido pelo Roberto Neves, porque como herança deste período,  recebi o contato com o texto teatral. Lembro que escrevi minha primeira peça aos onze anos, para a escola: era sobre folclore, tinha apenas uma página frente e verso e havia sido escrita à mão. Continuei escrevendo peças de teatro para a escola até os quinze, aproximadamente, quando me descobri criando outros tipos de textos, como contos e crônicas, a partir de motivações particulares, sem qualquer demanda externa. Com dezesseis, escrevi um conto pequeno, chamado Um segundo, o primeiro que me despertou para algum sentido de literatura. Havia um conceito nele, uma estética, um uso racional e subjetivo de palavras, mesmo que raso, algum sentimento impregnado. O despertador tocou ali, mas só um ano depois comecei a escrever compulsivamente, todos os dias. Os textos eram ruins, mas o incômodo-dor-coceira-ânsia-perturbação-susto que motiva o texto é o mesmo desde aquele tempo e enquanto existir, vivo.  Viveremos.
  


- trabalhos do David Nascimento aqui.
- L. e o canal que se expande, de Douglas de Oliveira Tomaz, aqui. 

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Brunna Maia Caires, folha, borrão de pincel, formas e rabiscos

Tudo me faz criar, desde uma folha caindo da árvore, um borrão de pincel, formas variadas, rabiscos no papel, ou até um estudo para desenvolver criação específica a partir de um livro, filme, poesia, música.


A moda esteve presente comigo desde criança, porém em várias fases. E me interessei por ela a partir da arte em geral, desde um desenho/pintura de uma casa, uma roupinha para boneca, até começar a desenvolver os traços de um croqui, e aprofundando na arte da moda.


Ser de Pirapora colaborou com o desenvolvimento da minha criatividade. A rica cultura que a cidade possui, as apresentações de talentos barranqueiros, teatro das feirinhas de sexta, tudo isso despertava a minha curiosidade e vontade de fazer algo que fosse ligado a essa área, de poder expressar, transmitir ,apresentar um pouco do que amo e o que quero ser.  Nos finais de semana em que não possuía muitas opções de entretenimento, passava horas e horas desenhando, fazendo moulage de papel, até que comecei a criar os meus modelos de roupas, e eles começaram a sair da folha, despertando ainda mais a minha vontade de prosseguir , alimentando a minha vontade de crescer, de criar.



Sobre o desfile na Expociapi deste ano, ter sido convidada pelo Adélio Brasil foi algo surreal, pois aquele era um momento dele, e ele não me conhecia, disse apenas que tinha escutado falar a meu respeito, e que ia me “presentear com esse momento”. Vibrei de tanta alegria, mas logo me assustei, porque foi uma responsabilidade muito grande. O fato de eu ainda estar no segundo período da faculdade fez o momento ainda mais complicado, já que ainda estou amadurecendo. Desenvolver o desfile foi trabalhoso e muito mais complexo do que muitos podem imaginar, você não ‘apenas’ cria os modelos e fim, existe todo um processo como o estudo do público alvo, as tendências do momento, o compromisso das modelos, patrocinadores, entre outros. Não tenho palavras para explicar o mundo de emoções que estavam dentro de mim poucas semanas antes de tudo acontecer, apenas tentei tornar o momento perfeito.


Sei que é clichê dizer isso, mas espero que o próximo ano possua tantas conquistas como este – se puder ser melhor, claro que será bem vindo. Aconteceu muita coisa boa em pouco tempo, não tenho do que reclamar. Não fiz planos, as coisas boas acontecem quando menos esperamos, assim foi e está sendo. Eu tenho me empenhado muito na minha área e, mesmo sendo tão nova, está decidido o caminho que quero seguir.



- Brunna Maia Caires, em entrevista ao Salto, 01 de dezembro de 2014.

Acompanhe o trabalho de Brunna pelo facebook: Brunna Maia Caires.