quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Literatura marginal? por Edson Lopes


Por estar à margem do circuito editorial estabelecido, nos anos 70, pelo menos até 1975 – quando, a partir dali, passou a ser aceita por grandes editoras como a Brasiliense –, houve em nosso país uma poesia denominada Poesia Marginal. Tal poesia era escrita e distribuída aos leitores através do mimeógrafo.

Em certos termos, quase técnicos, hoje, a Poesia Marginal habita a literatura produzida por escritores considerados menores, no mais amplo espectro da palavra. Claro, que o universo marginal literário habitado apresenta-se, também, em prosa. Os escritores e poetas desta vertente são ignorados, a tal ponto, pela mídia, que mergulham no status não grato da marginalidade.

Pode-se perceber tal situação, de uma forma mais prática, passando um texto de autores como os supracitados a maus leitores, àqueles que leem muito – existem tantos! – e se for dito a eles que a condição dos autores é a de insurgentes, e, mesmo que os textos lhes agradem, esses leitores bocejarão, de forma forçada, após a leitura. O liame temporal é imenso, mas vou citá-lo: não é keating, nem Paulo Coelho. 

Em outros termos, talvez um pouco mais diretos, a marginal é a literatura que se ocupa das coisas, da flora, da fauna racional e irracional, é a que o sistema se esforça em tornar inexistente, mesmo quando esbarra nos raros momentos em que se vê forçada a fazer média com a populaça, seu termômetro, sem querer, sem querer. Aí, ai, ai, ai, aponta o dedo indicador para jornais pingando sangue.

Penso que a tendência marginal mais recente na literatura brasileira, se é que se pode considerar música como literatura, apareceu nas letras punks, nos anos 80, quando a violência, o descaso, a revolta, principalmente a vinda do ABC paulista se recitou, se declamou. A coisa de denúncia distorcida é o som. O que se acentua, também, no Rap, com seus rasgos de um protesto mais contundente, com a favela como espaço, muita ironia. A alma humana se eterniza em sátira.

Incorporo a literatura marginal nos meus textos, sim. Mais notadamente nos livros Maremoto e Lusco-Fusco, há neles uma preocupação de minha parte em evidenciar um país corrompido, uma sociedade corrompida e um poeta sem entrada e sem saída além de lugares comuns, de ironias sutis demais para negar que qualquer uma das dores que um abjeto mortal sente é pequena demais para fazê-lo sangrar.


Antes que acabe:

Sou um tanto quanto pateticamente intransigente com relação a falar sobre literatura, em geral. Sempre que vou tomar umas cervejas com alguém que escreve, tento levar o assunto para o colo da literatura. Ultimamente, minhas expectativas têm se frustrado um pouco. Eu me faço de besta ao não deixar cair a ficha, cair na real de que ninguém vira um porco a pisotear pérolas se falar de outros temas que não sejam poesia. Gostar demais de determinado assunto, e sempre procurar dar-lhe ênfase, torna qualquer um muito chato.







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Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009). 

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