sábado, 16 de janeiro de 2016

Abre a boca, bem grande!


Ato a que me aferro. Escrever. Já senti mais prazer, sim. Atualmente, tenho achado insosso, osso descarnado cozido em água pura. Um tempo sem álcool no organismo e o cérebro funciona melhor, os pensamentos são passíveis de tratamento de um exército obediente. Além do mais, os alimentos perdem o seu caráter de pão com bolor.

Penso nestas sandices enquanto descasco uma enorme manga Sabina, corto-a em pedaços que coloco em um prato com um pouco de sal. Mastigo. Termino de comer. Alguns fiapos me entram nos buracos de um dos dentes superiores do lado esquerdo da boca. Começo um processo de sucção com a língua no inoportuno. O ruído provocado me incomoda. Parece o sugador de água e saliva do consultório dentário da Doutora Elisa Nunes. “Ai, pai! Para com esse barulho chato de chupar o dente! Que nojo!” Minha filha não está agora. Só imagino ouvir sua voz.

Este ano não frequentei a dentista, a expert em proferir palavras que afagam os tímpanos; mesmo. Um paradoxo, em relação ao motor desordeiro, que ela manipula, com destreza, ao tratar meus dentes, em petição de miséria; o torturante processo de extinção de cáries e afins. As incontáveis prestações do orçamento não facilitam muito, mas, pronto: estou no consultório. Sempre que me deito na poltrona reclinável, lembro que, depois de tanto tempo como cliente de Elisa, ainda não sei a cor dos olhos dela. Penso: será que os outros clientes também se sentem pouco à vontade para olhar nos olhos da dentista? Desde quando isso?

Desde a vez em que caí de borco no refugo cortante de cristal, no asfalto. Então, minha boca se encheu de sangue. Meus dentes já não são mais os mesmos. A origem da queda? Jair era da minha sala no tempo de escola. Um moleque forte, quase gordo, misto de mulato e sarará, cabelo crespo, geralmente cortado baixo, com dois destaques em seus caracteres: 1) – O nariz muito chato, com duas enormes crateras. 2) – A bunda muito grande. Percebia-se até certa dificuldade em ele carregá-la. Os shorts velhos, de náilon, que não lhe puderam acompanhar o crescimento, entrando-lhe no rego fundo da bunda; todo tempo, ele a levar a mão ao cu para retirá-los. Gostávamos de troçar um do outro, mas quando eu era gozado nunca reagia às gozações com agressividade.

Dia em que voltávamos da escola, pedi-lhe para ver a caderneta que ele trazia na mão. Ele a abriu e me mostrou, de longe. Vi muitos vermelhos, quase tantos quanto a cor da capa da caderneta de plástico. Eu queria ver o objeto de perto e mais: mostrá-lo aos nossos colegas para que pudéssemos dar boas risadas. Arranquei a caderneta da mão do Jair. Corri. Ele correu-me atrás, passou-me uma rasteira. Dói muito, só de lembrar. Meu instinto era o da reação, mas a única coisa que consegui foi me levantar do chão, manco, a camisa branca suja de cristal moído e quase toda manchada de sangue. Calculo que devo ter cuspido uns quatros dentes. Vi-o pegar a caderneta, enquanto olhava para mim, com fúria e desprezo. “Aprenda a não ser sacana.”

Outras vezes entramos em atrito. Brigávamos pelos motivos mais banais, como por causa do MDB e da Arena. Eu era Tancredo, ele, ofuscado pelo helicóptero vermelho e branco que numa tarde insólita sobrevoara Curvelo, era Eliseu Resende. Até decorávamos as paródias feitas em prol do engrandecimento dos nomes dos candidatos em pé-de-campanha. Nós as cantávamos, em estado de graça e troça. Enervávamo-nos, sem nem idade para votar, influenciados pelas escolhas eleitorais de nossos parentes adultos.

A vez da pelada, por exemplo. O Jair, apelidado pela molecada de Blau-Blau, por se parecer com um urso, me chutou quando lhe dei uma caneta, digo, passei-lhe a bola enorme de couro, por entre as pernas. Chutei-lhe também. Ele me deu um murro no peito, quase desmaiei. Tentei partir para cima dele, mas o ânimo arrefeceu com a saraivada de socos desferidos pelo urso em mim. Fui salvo pelo Careca, um companheiro, bem maior, que jogava no meu time. Caso contrário, certamente teria sido morto.

Fiquei um bom tempo sem me envolver com o Jair, o Blau-Blau, o diabo, até antes da adolescência. Moleques não têm muita vergonha na cara, esquecem, fácil, as mágoas. Fomos, aos poucos, nos reaproximando, até irmos garimpar cristal no terreno da Estrela. Presentes: Jair, meu irmão Rock e eu. Cada um de nós acabou agraciado com a sorte de encontrar um veio dos bons. Porém, ao passarmos a cavar, a tirar belas pedras de cristal, em formas de pirâmides e ovais, do chão encascalhado, precipitou-se, sobre nós, uma bruta tempestade. Chuva de granizo e vento.

Pegamos pás, picaretas e nossos sacos de cristal, relativamente pesados. Ao chegarmos à margem do ribeirão, no caminho de volta...  Melhor, num atalho, o rio se enchera, quase tornara submersa a frágil pinguela. Fui o primeiro a tentar cruzá-lo, mas a pinguela balançava demais. Caí, com saco de cristal, pá e picareta, na água barrenta. Tentei segurar ao menos o fruto do meu trabalho mais pá e picareta, em vão. Quase arrastado pela violenta correnteza, tive de me agarrar, de forma desesperada, a uma touceira de capim. Atravessei o rio. Do outro lado, meus pés afundavam na lama. Que tristeza! “Abre a boca, bem grande!” Meu irmão e Jair atravessaram a pinguela, sem dificuldades.

No caminho, enquanto caminhávamos, combinamos voltar aos veios de cristal, no dia seguinte. Mais ou menos no mesmo horário em que fôramos garimpar, no dia anterior, passamos na casa do Jair. Ainda era cedo. Chamamos, chamamos, chamamos e ninguém atendeu. “Vamos. Aquele preguiçoso que se lasque, deve estar dormindo.” E fomos. O caminho. Longo. O monte de mato. “É de bom tom ter um jiló no bolso ao ir pro mato. Cobra nem beira.” Mitos de minha mãe. “Talvez eu tenha de aplicar anestesia ao tratar este; se doer, levante a mão.” Ao chegarmos ao local de destino, encontramos os veios de cristal todos cavados, revirados. Que frustração! Que vontade de chorar! “Já está acabando. Você é muito valente. Aguentar, sem anestesia, sem reclamar de dor.”

Encontramos o Jair, dois dias após, um cigarro, fazendo verter fumaça pelos buracos do nariz, que então parecia duas grandes chaminés de forno de fábrica de tecido. Vontade de espancá-lo. A cara de mau o fazia parecer mais feio do que era. Vontade de lhe amassar, ainda mais, o nariz achatado. “Fui lá, nos veios, de madrugada, de bicicleta. Foi a vez que tirei mais cristal da minha vida.” Suspirou, olhou ao redor, desconfiado, provavelmente nos julgando uma ameaça. “E aí, apelaram? Vambora resolver no braço?” Jair tinha ao seu lado uma picareta, a força, a ignorância, além do meu trauma dos dentes quebrados pela rasteira dele, na infância. Jogamos fora a briga. Guardamos o ódio. Sentimentos de ódio e vingança são semelhantes ao amor: são infinitos enquanto duram. “Pronto. Acabamos. Pode cuspir. Depois, vou pedir à secretária para marcar sua próxima consulta.”


***


Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Ilustrações: Vinícius Ribeiro http://pensamentoilustrado.tumblr.com/

2 comentários:

  1. Seu Edson. Coisa boa essa crônica. Aliás: Também fico constrangido de meus olhos esbarrarem com os dos(as) dentistas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Rá! Rá! Eu pensava que só eu tinha esse problema. Bom, que não.

      Excluir