domingo, 31 de janeiro de 2016

Sertão Urbano



Aqui no mato
Vai ocupando o concreto
Os bichos pastam
Onde há de haver mais prédios
Condomínios que prometem
O prazer do mato dentro da cidade
Mato dá prazer
Mato dá prazer
Mato dá prazer

- Salma Jô e Macloys (Carne Doce)


Mayana abre uma das sacolas repousadas no banco do carona, retira dois pacotinhos de jujuba, abre-os. Enfia na boca três jujubas de uma vez. Inspira, prende o ar por uns segundos, depois solta. Repete o movimento. Quando as três jujubas se dissolvem, repõe mais três: laranja, morango, uva. Inspira, prende, solta. Após repetir o ciclo respiratório por vinte vezes, já não cabem três jujubas na boca, apenas duas. O açúcar já começara a fechar sua garganta. Meditando, calcula que na sexagésima vez não haverá espaço para nenhuma. Nenhuma.

A buzina incessante dos veículos ao redor a retira do transe. Interrompe a meditação e, remexendo em outras sacolas, retira dois cedês recém-comprados. Duas bandas novas, totalmente desconhecidas. Abre com dificuldade o plástico do primeiro, retira o encarte, tenta ler as letras. Mas a buzina incessante. Desiste. Passa do lado de fora uma moto apressada que quase arranca seu retrovisor direito. Mayana inspira, prende o ar por uns segundos, depois solta. Retira o cedê, insere-o no som do carro. Deixa tocar a primeira música. Tenta acompanhar a letra. Sorri para alguns versos engraçadinhos. Após um minuto e uns segundos quebrados, retira o cedê, guarda-o no porta-luvas junto com o outro, ainda plastificado. Insere o pen-drive.

Interrompe as jujubas. Retira de outra sacola uma barra de chocolate branco. Destaca três gomos, mas, desta vez, espera o primeiro começar a se dissolver para ingerir o segundo. No fim do terceiro, bebe um longo gole d´agua. Está pronta para mais três gomos. Sem culpa.

Um homem calvo desce do carro parado à esquerda. Posiciona uma das mãos acima dos olhos, tenta alcançar o fim do congestionamento. Não alcança. Xinga, bate com a mesma mão em cima do capô, vai até o volante, aperta insistentemente a buzina. Xinga outra vez, desta vez mais alto, palavrão novo. Encosta na lateral, grita algo ao jovem sarado à frente, que já esperava do lado de fora. Os dois levantam os braços para o alto, como orangotangos.

No fim do sexto gomo de chocolate, após beber mais um gole d´agua, Mayana vê passar um cavalo branco encardido pelo lado direito. Repousa a garrafa no banco do carona, franze a testa, observa. Atrás do primeiro, surgem mais dois cavalos, um marrom e outro negro; passam correndo. Pelo lado esquerdo, surgem quatro: malhado, amarelo, marrom de tom mais escuro e outro de tom mais claro. O homem calvo e o jovem sarado interrompem a discussão e entram assustados nos carros. Fecham os vidros.

Os cavalos costuram o trânsito congestionado. Alguns param, encostam seus focinhos nos vidros, assombram as pessoas, depois saem. Outros parecem perdidos: correm, param, retrocedem, trotam de um lado a outro da mesma via. Surgem mais oito, Mayana conta. Finalmente, olha para trás e vê que corre em sua direção um número de cavalos equivalente aos carros parados. Olha outra vez para frente, empurra fortemente suas costas contra o banco, coloca o cinto de segurança. Não há mais ninguém do lado de fora, exceto os motociclistas, que não têm onde se esconder.

Os animais rodeiam seu carro de modo que ela só vê os veículos pelas frestas. Ninguém mais buzina. Mayana prende a respiração. Demora soltar. Inspira pouco. Suas mãos apertam o volante, seu pé direito involuntariamente pisa o acelerador, como se fosse arrancar por cima do congestionamento. Quando um cavalo marrom e branco tromba na lateral esquerda do seu carro, balançando-o, ela pisa fundo. Nada muda.

Ao passarem – alguns correndo, outros trotando, todos perdidos –, os cavalos quebram vários retrovisores. Dois começam a brigar atrás do carro de Mayana. Ela ainda consegue ouvir os relinchos, apesar de ter aumentado o volume do som, que somente toca músicas conhecidas. Para conter a ansiedade, sua psiquiatra receitou: não ouvir músicas novas em momentos de pavor. Um cavalo cinza de crina preta sobe em cima de um carro prateado. Amassa-o. No alto, olha para frente por uns minutos, sem qualquer outra movimentação. Olha.  Os donos do veículo somente não saem, porque não há como fugir: cavalos se espremem por entre os carros. E tudo ao redor é cavalo.

Num movimento coordenado, o cinza de crina preta desce do carro prateado, os dois que brigavam interrompem a briga e seguem. Aqueles que se debatiam de um lado a outro da via encontram o norte, olham para lá, vão sem pressa. Como que coreografados, os cavalos todos encontram a direção e se movimentam para o fim da avenida, fim do congestionamento. Mayana olha novamente para trás e vê o número de animais diminuir. Entre eles, lá no fundo, vê um farol de moto seguindo-os. Ao se aproximarem, distingue um homem de pele queimada em cima da moto, com o capacete levantado na cabeça, sorrindo. Por vezes, fica em pé na motocicleta em movimento, levanta um dos braços e grita algo. Ele e os cavalos seguem.

À medida que passam, as pessoas atrás deles, livres dos bichos, descem dos veículos e olham também para frente, algumas fotografam. De um ônibus escolar desce uma multidão de crianças uniformizadas. Elas pulam, batem palmas, soltam gritos, dizem umas para as outras o que é aquilo. Mayana, ainda sem entender, abre o vidro do lado direito para ver passar, agora sem perigo, os últimos cavalos e o motoqueiro. Quando passam por ela, um pouco mais a frente, o homem se levanta outra vez na moto, retira o capacete, levanta-o com o braço direito e, num fôlego prolongado, grita: arreia!

Mayana não desce do carro como os outros, mas permanece olhando. Só desvia o olhar para a esquerda quando vê descer o homem calvo que, também vidrado, enxuga lágrimas do rosto. Ele vai até o jovem sarado no carro da frente, passa o braço em seu ombro, gritam juntos o canto do motociclista. Mayana fecha novamente o vidro. Remexe nas sacolas do banco do carona, retira de uma delas um livro editado pela Cosac. Tinha decidido ir ao shopping comprar logo uma boa quantidade antes que tudo acabe. Antes de abrir o livro, porém, olha para frente e vê ainda o motoqueiro sumir rodeado pelos últimos cavalos no horizonte sem fim de carros. Não é mais possível ver para onde seguem. Volta-se ao livro, abre num poema que começa: Um enorme rabo de baleia/ cruzaria a sala neste momento(...).



***



Douglas de Oliveira Tomaz, nascido em 1993, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, recebeu uma menção honrosa no concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi), edição 2013, e possui textos seus publicados pela Revista Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Em 2015, lançou de modo artesanal seu primeiro livro de poemas: Escorre. Atualmente, reside em Pirapora - Minas Gerais.


Ilustração: Vinícius Ribeiro (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

sábado, 16 de janeiro de 2016

Abre a boca, bem grande!


Ato a que me aferro. Escrever. Já senti mais prazer, sim. Atualmente, tenho achado insosso, osso descarnado cozido em água pura. Um tempo sem álcool no organismo e o cérebro funciona melhor, os pensamentos são passíveis de tratamento de um exército obediente. Além do mais, os alimentos perdem o seu caráter de pão com bolor.

Penso nestas sandices enquanto descasco uma enorme manga Sabina, corto-a em pedaços que coloco em um prato com um pouco de sal. Mastigo. Termino de comer. Alguns fiapos me entram nos buracos de um dos dentes superiores do lado esquerdo da boca. Começo um processo de sucção com a língua no inoportuno. O ruído provocado me incomoda. Parece o sugador de água e saliva do consultório dentário da Doutora Elisa Nunes. “Ai, pai! Para com esse barulho chato de chupar o dente! Que nojo!” Minha filha não está agora. Só imagino ouvir sua voz.

Este ano não frequentei a dentista, a expert em proferir palavras que afagam os tímpanos; mesmo. Um paradoxo, em relação ao motor desordeiro, que ela manipula, com destreza, ao tratar meus dentes, em petição de miséria; o torturante processo de extinção de cáries e afins. As incontáveis prestações do orçamento não facilitam muito, mas, pronto: estou no consultório. Sempre que me deito na poltrona reclinável, lembro que, depois de tanto tempo como cliente de Elisa, ainda não sei a cor dos olhos dela. Penso: será que os outros clientes também se sentem pouco à vontade para olhar nos olhos da dentista? Desde quando isso?

Desde a vez em que caí de borco no refugo cortante de cristal, no asfalto. Então, minha boca se encheu de sangue. Meus dentes já não são mais os mesmos. A origem da queda? Jair era da minha sala no tempo de escola. Um moleque forte, quase gordo, misto de mulato e sarará, cabelo crespo, geralmente cortado baixo, com dois destaques em seus caracteres: 1) – O nariz muito chato, com duas enormes crateras. 2) – A bunda muito grande. Percebia-se até certa dificuldade em ele carregá-la. Os shorts velhos, de náilon, que não lhe puderam acompanhar o crescimento, entrando-lhe no rego fundo da bunda; todo tempo, ele a levar a mão ao cu para retirá-los. Gostávamos de troçar um do outro, mas quando eu era gozado nunca reagia às gozações com agressividade.

Dia em que voltávamos da escola, pedi-lhe para ver a caderneta que ele trazia na mão. Ele a abriu e me mostrou, de longe. Vi muitos vermelhos, quase tantos quanto a cor da capa da caderneta de plástico. Eu queria ver o objeto de perto e mais: mostrá-lo aos nossos colegas para que pudéssemos dar boas risadas. Arranquei a caderneta da mão do Jair. Corri. Ele correu-me atrás, passou-me uma rasteira. Dói muito, só de lembrar. Meu instinto era o da reação, mas a única coisa que consegui foi me levantar do chão, manco, a camisa branca suja de cristal moído e quase toda manchada de sangue. Calculo que devo ter cuspido uns quatros dentes. Vi-o pegar a caderneta, enquanto olhava para mim, com fúria e desprezo. “Aprenda a não ser sacana.”

Outras vezes entramos em atrito. Brigávamos pelos motivos mais banais, como por causa do MDB e da Arena. Eu era Tancredo, ele, ofuscado pelo helicóptero vermelho e branco que numa tarde insólita sobrevoara Curvelo, era Eliseu Resende. Até decorávamos as paródias feitas em prol do engrandecimento dos nomes dos candidatos em pé-de-campanha. Nós as cantávamos, em estado de graça e troça. Enervávamo-nos, sem nem idade para votar, influenciados pelas escolhas eleitorais de nossos parentes adultos.

A vez da pelada, por exemplo. O Jair, apelidado pela molecada de Blau-Blau, por se parecer com um urso, me chutou quando lhe dei uma caneta, digo, passei-lhe a bola enorme de couro, por entre as pernas. Chutei-lhe também. Ele me deu um murro no peito, quase desmaiei. Tentei partir para cima dele, mas o ânimo arrefeceu com a saraivada de socos desferidos pelo urso em mim. Fui salvo pelo Careca, um companheiro, bem maior, que jogava no meu time. Caso contrário, certamente teria sido morto.

Fiquei um bom tempo sem me envolver com o Jair, o Blau-Blau, o diabo, até antes da adolescência. Moleques não têm muita vergonha na cara, esquecem, fácil, as mágoas. Fomos, aos poucos, nos reaproximando, até irmos garimpar cristal no terreno da Estrela. Presentes: Jair, meu irmão Rock e eu. Cada um de nós acabou agraciado com a sorte de encontrar um veio dos bons. Porém, ao passarmos a cavar, a tirar belas pedras de cristal, em formas de pirâmides e ovais, do chão encascalhado, precipitou-se, sobre nós, uma bruta tempestade. Chuva de granizo e vento.

Pegamos pás, picaretas e nossos sacos de cristal, relativamente pesados. Ao chegarmos à margem do ribeirão, no caminho de volta...  Melhor, num atalho, o rio se enchera, quase tornara submersa a frágil pinguela. Fui o primeiro a tentar cruzá-lo, mas a pinguela balançava demais. Caí, com saco de cristal, pá e picareta, na água barrenta. Tentei segurar ao menos o fruto do meu trabalho mais pá e picareta, em vão. Quase arrastado pela violenta correnteza, tive de me agarrar, de forma desesperada, a uma touceira de capim. Atravessei o rio. Do outro lado, meus pés afundavam na lama. Que tristeza! “Abre a boca, bem grande!” Meu irmão e Jair atravessaram a pinguela, sem dificuldades.

No caminho, enquanto caminhávamos, combinamos voltar aos veios de cristal, no dia seguinte. Mais ou menos no mesmo horário em que fôramos garimpar, no dia anterior, passamos na casa do Jair. Ainda era cedo. Chamamos, chamamos, chamamos e ninguém atendeu. “Vamos. Aquele preguiçoso que se lasque, deve estar dormindo.” E fomos. O caminho. Longo. O monte de mato. “É de bom tom ter um jiló no bolso ao ir pro mato. Cobra nem beira.” Mitos de minha mãe. “Talvez eu tenha de aplicar anestesia ao tratar este; se doer, levante a mão.” Ao chegarmos ao local de destino, encontramos os veios de cristal todos cavados, revirados. Que frustração! Que vontade de chorar! “Já está acabando. Você é muito valente. Aguentar, sem anestesia, sem reclamar de dor.”

Encontramos o Jair, dois dias após, um cigarro, fazendo verter fumaça pelos buracos do nariz, que então parecia duas grandes chaminés de forno de fábrica de tecido. Vontade de espancá-lo. A cara de mau o fazia parecer mais feio do que era. Vontade de lhe amassar, ainda mais, o nariz achatado. “Fui lá, nos veios, de madrugada, de bicicleta. Foi a vez que tirei mais cristal da minha vida.” Suspirou, olhou ao redor, desconfiado, provavelmente nos julgando uma ameaça. “E aí, apelaram? Vambora resolver no braço?” Jair tinha ao seu lado uma picareta, a força, a ignorância, além do meu trauma dos dentes quebrados pela rasteira dele, na infância. Jogamos fora a briga. Guardamos o ódio. Sentimentos de ódio e vingança são semelhantes ao amor: são infinitos enquanto duram. “Pronto. Acabamos. Pode cuspir. Depois, vou pedir à secretária para marcar sua próxima consulta.”


***


Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Ilustrações: Vinícius Ribeiro http://pensamentoilustrado.tumblr.com/

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Literatura marginal? por Edson Lopes


Por estar à margem do circuito editorial estabelecido, nos anos 70, pelo menos até 1975 – quando, a partir dali, passou a ser aceita por grandes editoras como a Brasiliense –, houve em nosso país uma poesia denominada Poesia Marginal. Tal poesia era escrita e distribuída aos leitores através do mimeógrafo.

Em certos termos, quase técnicos, hoje, a Poesia Marginal habita a literatura produzida por escritores considerados menores, no mais amplo espectro da palavra. Claro, que o universo marginal literário habitado apresenta-se, também, em prosa. Os escritores e poetas desta vertente são ignorados, a tal ponto, pela mídia, que mergulham no status não grato da marginalidade.

Pode-se perceber tal situação, de uma forma mais prática, passando um texto de autores como os supracitados a maus leitores, àqueles que leem muito – existem tantos! – e se for dito a eles que a condição dos autores é a de insurgentes, e, mesmo que os textos lhes agradem, esses leitores bocejarão, de forma forçada, após a leitura. O liame temporal é imenso, mas vou citá-lo: não é keating, nem Paulo Coelho. 

Em outros termos, talvez um pouco mais diretos, a marginal é a literatura que se ocupa das coisas, da flora, da fauna racional e irracional, é a que o sistema se esforça em tornar inexistente, mesmo quando esbarra nos raros momentos em que se vê forçada a fazer média com a populaça, seu termômetro, sem querer, sem querer. Aí, ai, ai, ai, aponta o dedo indicador para jornais pingando sangue.

Penso que a tendência marginal mais recente na literatura brasileira, se é que se pode considerar música como literatura, apareceu nas letras punks, nos anos 80, quando a violência, o descaso, a revolta, principalmente a vinda do ABC paulista se recitou, se declamou. A coisa de denúncia distorcida é o som. O que se acentua, também, no Rap, com seus rasgos de um protesto mais contundente, com a favela como espaço, muita ironia. A alma humana se eterniza em sátira.

Incorporo a literatura marginal nos meus textos, sim. Mais notadamente nos livros Maremoto e Lusco-Fusco, há neles uma preocupação de minha parte em evidenciar um país corrompido, uma sociedade corrompida e um poeta sem entrada e sem saída além de lugares comuns, de ironias sutis demais para negar que qualquer uma das dores que um abjeto mortal sente é pequena demais para fazê-lo sangrar.


Antes que acabe:

Sou um tanto quanto pateticamente intransigente com relação a falar sobre literatura, em geral. Sempre que vou tomar umas cervejas com alguém que escreve, tento levar o assunto para o colo da literatura. Ultimamente, minhas expectativas têm se frustrado um pouco. Eu me faço de besta ao não deixar cair a ficha, cair na real de que ninguém vira um porco a pisotear pérolas se falar de outros temas que não sejam poesia. Gostar demais de determinado assunto, e sempre procurar dar-lhe ênfase, torna qualquer um muito chato.







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Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009). 

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Documentário homenageia antepassados da Umbanda e Candomblé de Pirapora - MG



Produzido pela Casa de Cultura Afrogerais, em parceria com o fotógrafo Aparício Mansur, o documentário reúne depoimentos de praticantes da Umbanda e do Candomblé em Pirapora e Buritizeiro (MG). Eles foram responsáveis por consolidar as religiões de matriz africana na região numa época em que a intolerância religiosa era ainda mais intensa. “Era uma dificuldade, o povo não queria, as autoridades achavam que não podia”, comenta Pai Firmo, da Tenda Espírita Ketumar. “(...) Mas eu falei: vou civilizar o espiritismo dentro de Pirapora com muita honra; e eu civilizei mesmo, abri as portas aqui pra todo mundo espiritualmente.”

A Afrogerais se dedica ao resgaste da cultura afro-brasileira com crianças e adolescentes do bairro Nossa Senhora Aparecida, em Pirapora, através de aulas de capoeira, dança e bordado. Além disso, mantém o rito religioso ligado à nação candomblecista. O objetivo, ao produzirem o documentário, foi resgatar a memória oral da Umbanda e do Candomblé na região, para que ela não se perca no suceder das gerações, além de firmar o compromisso na luta contra a intolerância religiosa, ainda presente em seu cotidiano.  

O vídeo foi exibido pela primeira vez no dia 30 de novembro de 2015 em comemoração ao dia da consciência negra.



(assista noYoutube)


Foto: Aparício Mansur

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Cartinha de amor



Pão, água e luz deviam ser tudo o que precisamos. Sobreviver não basta. Viver nos leva ao ponto. Você não sorriria de forma tão simplória para mim depois de sangrar meu coração com suas unhas grandes pintadas de vermelho. Eu devia ser o atual e não o nem outro. Uso palavras repetidas. Que palavras nunca são ditas? “Aquela cartinha de amor foi o ponto”, diz-me, de forma irônica, meu amigo Lauro. “Não acho que isso tenha sido o fator preponderante”, retruco. “Pare de falar difícil”, ele. E acrescenta: “Você foi burro e artificial em seu procedimento, para não dizer, falso.” Não me importa mais. Não digo não gostar, mas não ligo tanto para você.

Neste momento, estou sobre um morro de uns vinte e tantos metros, uma altura considerável, leve tentação de mergulho. É um dia atípico. O que rola nos ares pode ser chamado de cerração ou de neblina? De longe será? Do Arraial do Tijuco, devaneio. Estrada de Curvelo até Diamantina. Vejo carros, caminhões, motos, ônibus, bicicletas, pedestres, cachorros, vacas, cavalos, lá, no asfalto. Dos ônibus, em particular, você costumava falar comigo, quando éramos pouco mais que criança. Ria dos meninos da vizinhança, com empolgação, ao ouvi-los dizer que os carros em movimento contrários uns aos outros eram deles. “Corre, Combe! Corre!” “Afunda, Mercedes!” Eu lhe dizia que o ônibus da Gontijo era o mais bonito porque o nome se assemelhava, na escrita, ao de duas pessoas junto: Gontijo + ou – Contigo.

E tocava com polidez em seu rosto com as costas da mão direita para sentir minha mão tremer e seu rosto mudar de cor. “Pássaro Verde! É o ônibus mais bonito. Asas da liberdade + o verde da esperança. Mais. Sem menos.” Você declamava tais frases como se se apossasse de um poema condoreiro de Castro Alves. Agora, eu acusaria sua lógica de démodé, mas teria mais astúcia, ao expressar meus argumentos. Liberdade? Mesmo o mais estulto dos poetas sabe que ela só existe se nos encontrarmos presos a quem amamos. Pior: mesmo não sendo amados. Esperança? Na maioria das vezes ela frustra mesmo os passos que chegam longe e as mãos que quase se apoderam do infinito. Tive tal reflexão, sentado numa pedra grande, à sombra do Ingazeiro. Você já não morava aqui.

“Cartinha de amor? Ah! Ah! Ah! Em pleno fim de Século XX? Voltemos ao ponto.” Lauro se fartava de rir de mim. Eu gostava de ler, mas ainda não me havia aventurado no mundo da escrita. Você sabe. Naquela época em que ficou com cabeça e corpo de mulher madura. A pequena biblioteca da cidade quase todos os dias recebia minha presença. À época, não tinha norteamento literário. Lia mais os livros que Beatriz, a bibliotecária, de óculos, uma pose de intelectual, me indicava. Eu que lia os gêneros Western de meu irmão mais velho, as HQs, que chamávamos de gibis. Ante a iminência de praticamente nada para ler, pegava, escondido, romances açucarados de Sabrina ou de Júlia que minha irmã guardava numa caixa sobre um guarda-roupa. Dos últimos, devo ter adquirido a mania de me apaixonar fácil.

Com você foi diferente? Claro, para conquistar seu universo, eu tinha de dizer assim. “Você devia ter chegado nela, dito na lata. Mulher gosta é de atitude.” Falas de Lauro, aos risos e tragadas de cigarro Arizona e copos de Brahma. Falar é fácil. Escrever, não.

Muito tempo eu ficara fora da escola, estava com uns dezenove anos. Prestes a tirar o Primeiro Grau. Vira que você já estava para tirar o Segundo, um ano mais nova que eu. A gente trabalhava na Fábrica de Tecidos Amália Maria. Na fiação. Seção quente. Com muita poeira e pó de algodão. Fazia muito barulho ali. Eu com vontade de lhe falar. Mas havia o Anselmo. Eu percebia a proximidade de vocês. “Não quero atrapalhar vocês dois”, eu lhe disse um dia depois de esboçar uma declaração.

Numa das muitas vezes em que não tinha nada para ler, achei no meio dos livros de minha irmã um, com o título As Mais Lindas Cartas de Amor. A particularidade desse livro é que todos os textos começam com os advérbios de lugar, datas, plausíveis em toda carta, mais a frase: Meu inesquecível amor... Entre as cartas, vi uma em que o eu lírico se evidencia na figura de um rapaz pobre, que, por sua vez, vê na sua paixão clássica Cinderela na janela, uma menina-moça à espera do amor idealizado (Um príncipe do cavalo branco? Do carro branco? Da motocicleta branca? Da bicicleta branca?)

Anselmo tinha uma bicicleta branca de dez marchas que fazia o maior uau no coração de muitas meninas de Curvelo à época. Agravante: era ciclista de primeira.  “Ah! Ah! Ah!” o Lauro. “Você podia ao menos ter criado a carta, poeta, em vez de ter copiado.” Alguns amigos têm mania de tripudiar de nós. Eu: “A carta era de amor. Ela se prestava ao propósito de conquistar o coração de uma garota.” Lauro: “Ah! Ah! Ah! Cartinha de meu inesquecível amor!” Eu ficava enraivecido. “Você sabe muito bem porque meu artificio deu zebra.” Lauro: “Sim. Ah! Ah! Ah!” Odiava a risada dele de mim. Lauro: “O Vitalício, que seria seu cunhado, me contou que a Zenaide, o nome lembra o de Dulcineia del Toboso, Ze-nai-de, nome infeliz!” Concordo, a dona do nome era mais bonitinha que a namorada do Quixote. “Pois é, o Vitalício me contou que a sua pretendida achou a carta de amor, que você copiou, e enviou a ela, num livro. Acho que, pouco depois de você ter transcrito a carta, sua irmã, que por acaso pôs o olho no livro, falou dele ao objeto de sua paixão. Ze-nai-de pediu o livro As Mais Lindas Cartas de Amor emprestado. Eis porque não deu à mínima para o seu amor.”

Ele estava certo. Você não respondeu e nunca mais falou comigo. Sua resposta ao meu pedido de namoro à sério só veio na forma de um não, quando vi você passar por mim, de mãos dadas ao Anselmo. Quando a vi várias vezes aos beijos e abraços com o Anselmo. Casar, ter dois filhos, uma menina e um menino com o Anselmo. Desde então, tem um bosque que se chama solidão na rua de minha alma.



***



Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Ilustrações: Vinícius Ribeiro http://pensamentoilustrado.tumblr.com/

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

São Paulo se anuncia



Anúncio de São Paulo

Antes da chegada
Afixam nos offices de bordo
Um convite impresso em inglês
Onde se contam maravilhas de minha cidade
Sometimes called the Chicago of South America

Situada num planalto
2 700 pés acima do mar
E distando 79 quilômetros do porto de Santos
Ela é uma glória da América contemporânea
A sua sanidade é perfeita
O clima brando
E se tornou notável
Pela beleza fora do comum
Da sua construção e da sua flora

A Secretaria da Agricultura fornece dados
Para os negócios que aí se queiram realizar

- Oswald de Andrade


Ao embarcar na rodoviária, encontro um conhecido a caminho do mesmo destino que eu. Está indo passear? pergunto. Não, estou indo de vez. Carrega pouca bagagem, no entanto; e, quando observo esse detalhe de sua viagem, ele, feito mago, me responde: o que se deixa para trás fornece mais respostas sobre a partida do que o que se leva nas malas. Um escritor em potencial – não repliquei.

Além de tudo, sorri para mim, quem sabe materializando um bom auspício. Os inícios carecem de boas previsões – outra frase de efeito, desta vez, minha. E você, está indo a passeio? ele devolve a pergunta. Por enquanto sim, respondo. Planeja se mudar pra lá também? Hesito, mas afirmo com a cabeça. E sabe cozinhar? Porque é isso que importa.

Adormeço.

Acordo com alguém próximo informando ao telefone que estamos na Marginal Tietê, próximo à rodoviária. Recoloco os óculos, abro a cortina e observo o espaço lá fora. Ônibus se locomove lento. A senhora a minha frente também observa, mas comenta com a outra ao lado o quanto o trânsito é verdadeiramente caótico, não é só matéria do Brasil Urgente. Passa um ônibus intramunicipal ao nosso lado, abarrotado de pessoas. A senhora não deixa de tecer comentário semelhante, precedido de um olha lá, olha lá, como se, nas savanas africanas, visse um guepardo, ou, se num deserto, visse uma miragem. Gente espremida dentro de ônibus parece ser atração turística em São Paulo.

Atrás de mim, dois homens, um brasileiro e outro colombiano, conversam sobre comércio de pedra sabão. O colombiano possui uma loja que comercializa a pedra. Os dois tratam do assunto como empresários que são, analisam os aspectos financeiros, a receptividade do produto no mercado, o contexto de crise e, no fim, trocam cartões. O brasileiro promete visitar o escritório do colombiano no dia seguinte. Ao que tudo indica, inicia-se atrás de mim uma nova sociedade. Entramos num túnel. A semiescuridão me leva até a comunidade extratora de pedra sabão no interior de Mariana, que conheci há alguns anos. Os moradores não extraíam mais o minério como antes, não havia estrutura e estavam agora muito distantes das minas. Sobreviviam do comércio de areia. A comunidade havia sido realocada devido à construção de uma hidrelétrica. E tudo se perdeu, me disse um dos atingidos. Inclusive a pedra.

A rodoviária é logo ali, outro passageiro anuncia. Agradeço ao trânsito lento por adiar minha chegada. Compreendo o susto na expressão da senhora a minha frente, que, agora calada, apenas observa a cidade. A janela nos mantém seguros, segredo a ela. Enquanto houver janela, não há selva, apenas promessa. Enquanto ainda houver esta caixa que se locomove, haverá Minas, haverá sossego. Não estamos preparados como julgáramos – mas isto guardo para mim. Não ousemos pronunciar nosso medo de desembarque. A rodoviária é logo ali. A senhora fecha os olhos, reza. Também fecho. Apenas não penso.

Você chegou, o conhecido da rodoviária me informa, abro os olhos. O ônibus está parado, a senhora, mais corajosa, desceu primeiro. Só estamos eu e o homem de pouca bagagem, que não adivinha meu medo e sorri novamente, um bom auspício quem sabe. Chegamos – divido com ele a responsabilidade.


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Douglas de Oliveira Tomaz, nascido em 1993, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, recebeu uma menção honrosa no concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi), edição 2013, e possui textos seus publicados pelas Revista Jangada. Em 2015, lançou de modo artesanal seu primeiro livro de poemas: Escorre. Atualmente, reside em Pirapora - Minas Gerais.

Ilustração: Vinícius Ribeiro (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A barranqueira


Do rio que não é mais tão bonito, entretanto, ficam as falas do Paturi. Não sei onde ele arranjou esse apelido. Alguns dizem que foi em rodas de truco, que nelas perdeu tudo; e não pelo fato de viver mergulhado no Velho Chico, como a maioria imagina. “É dia e noite, é noite e dia.” Vaticinam. Às vezes o encontro à beira de um barranco. Gosto de pescar com varinha de bambu japonês. “Então, professor, pegou os mandis?” Tem hora que começa a desabafar, enche-se de histórias de uma Pirapora de tempos áureos. Corta a manhã, a tarde, até a Hora do Anjo, quando me impaciento com os maruins e me preparo para a volta para casa. “Aí, onde c. pesca, só tem piaba, mas já peguei surubim maior que homem mais grande e forte do que eu aí.”

Percebo alguns erros gramaticais na fala de Paturi. Surpreendo-me a gostar de ouvi-los. “É mesmo?” Eu me dirijo a ele com no máximo duas palavras. “Se não tivesse sido cabeça fraca, hoje, seria rico.” Baixa a cabeça e fecha os olhos castanhos avermelhados, arregalados, lacrimejantes. Não passa então de um garoto envergonhado, arrependido de uma arte: “Gastei tudo com baralho e mulher da zona. Uma vez peguei chato e gonorreia. Quase morro. Não procurei o médico e tentava matar os chato com Neocid e curar a gonorreia tomando garrafadas de pinga com raiz e Tetrex.”

Aí fala das casas noturnas, dos bares e quiosques, da paisagem de cidade antiga da época em que o trem não desistia de seu vir e ir e ir e vir. E ele vendo-o passar, cheio de gentes de vários cantos. Algumas afortunadas, provavelmente em vagões à parte, com certo luxo, outras azarentas, febrilmente amareladas, para emendar, num sentido cruelmente literal, personagens de Maleita, do Lúcio Cardoso. Gentes vivas. Gentes sobreviventes. Gentes que eram tiradas do trem antes de chegarem ao seu destino porque a vigilância sanitária previa sua morte, temia o contágio dos demais passageiros. Gentes desenganadas por engano aqui ficaram, deram ao Norte de Minas uma nova identidade perceptível no sotaque com mescla de Minas e Nordeste. Pinheiros em luta contra os desníveis dos barrancos. Nem tudo é dourado como o enorme e belo peixe não mais lugar-comum do Velho Chico.

“Hoje, tem bem mais pouca água.” Paturi se cala. O sol parece querer possuir de corpo e alma o chão, penetrá-lo, como fazem os pingos de chuva, a chuva que a gente espera quase a ponto de desespero. Minha alma se esvazia como o rio em que o ribeirinho deposita seus sonhos, o espaço se acinzenta. “Amanhã é dia de feira, Paturi, seu mergulhão em pinga. Fim de semana eu volto aqui para molhar as minhocas e prosearemos mais.”

A falta de água faz a gente atuar nos lares como em tempo de criança, quem sabe ao tempo que Paturi se refere com nostalgia. Encher vasilhames de água, tomar banho de balde. Eu reclamo do fornecedor de água, a mulher reclama do fornecedor de água, minha filha reclama do fornecedor de água. A cidade e todo o planeta devem reclamar do fornecedor de água. É quando banheiro para nada serve, toalete para nada serve. Espio a pia e o vaso. Penso que em meu tempo de criança palavras como banheiro e/ou toalete eram raras ao meu vocabulário. Época de privadas, construções de lajes com que são feitos os muros, no chão não havia vaso, mas um buraco, uma fossa para despejar os dejetos. Era muito incômodo não ter um vaso, ficar de cócoras para defecar.

Há mandis demais e prefiro não quebrar os seus esporões. Um deles, que vou destripar, me estrepa. Dói. Arde o ponto do dedo de onde um fio de sangue começa a brotar. O dedo incha. Arranco o olho do peixe e esfrego-o sobre o inchaço. Simpatia de pescador. O mandi produz um ruído baixo e estranho, se submetido a determinado estresse, no entanto, não consigo perceber dor na sua expressão, mesmo enquanto se debate e sangra. Pouca terminação nervosa: explica a Ciência. O olhar estúpido de em vida é o mesmo pós-morte.

Termino de tratar os peixes. Os moradores de Pirapora chamam os pequenos talhos que faço dos lados dos mandis, para temperá-los melhor, de ticar. “Retado! Peixe! Peixe! Peixe! Peixe! Nesta casa só se come peixe, oxe!” Não sei o porquê da aversão ao cheiro de peixe de minha mulher. “Papai! Há anus na horta! Parecem estar bicando os pés de couve!” Mariana grita, quando entro no banheiro e me molho, lentamente, com um copo de plástico, da água de um balde preto. “Pega manga aí no chão do quintal e joga neles só para espantar, filha!” Já é quase noite e faz um calor absurdo.


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Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Ilustrações: Vinícius Ribeiro.