terça-feira, 19 de abril de 2016

Bela companhia, sincera e ligeira


Vento. Uivos. Os pés de eucaliptos dançam. Não sei se as enormes raízes que se fincam na terra têm o objetivo de se entrelaçar, de formar uma unidade, de ocupar o espaço alheio. Imagino vizinhança, muros. Um pássaro chamado indefinição me diz que onde eucalipto brota, a terra se torna estéril. Às vezes alma fica neste estado: como figueira aos rogos de pragas de Cristo. Mas a dança é bela quando o vento sopra os eucaliptos.

De colossais alturas, às vezes, algum galho cai, com estrépito. A queda é algo mais que acorda o todo de seu estado habitual. Sentir a impressão de um corpo humano em baque. O meu corpo, quem sabe. Alguns troncos são mais grossos que outros. Isso me lembra de disputa por espaço. Parece indolente o olhar sobre o exército verde. Há um cheiro levemente agradável a vir dali.

Fica próximo do Cemitério da Saudade. Por que todo cemitério é da saudade? E os esquecidos ao morrer? Um banco perto da BR, na saída da cidade. Um curral velho, desativado entre elas, as árvores. Inútil sina de servir para queimar. Um dia, até as enormes raízes serão retiradas daqui como lembranças inúteis. Arquivo onde mortos se perpetuam.

De repente, nem defino o momento em que meu corpo sentido pesado é içado de seu estado inerte. Enquanto caminho, carrego, no peito, uma paranoia gigantesca. Aquela encrenca com a qual eu nada tinha contas a acertar. Um sujeito magro, de barba tão cerrada quanto a minha, correndo. “É aquele! É aquele!” gritos de uma mulher. Um sujeito magro, de barba tão rala quanto a minha, às carreiras. Derradeira visão de momento X. Um golpe em minhas costas. Se existe uma dor grave e aguda ao mesmo tempo é esta. A calçada de paralelepípedos parece investir contra o meu rosto e se vestir de vermelho. Sangue. Quanto sangue! Não tenho a sorte de desmaiar.

Alguém me leva ao hospital. Sou levado a um banheiro de água fria. Ao contato com o líquido, sinto dor inenarrável. Ao costurar meus ferimentos, a enfermeira pergunta se dói. “Claro que dói, sua burra. Anestesia não pega em ébrio.” Só penso em dizer. No dia após, vou trabalhar, o chefe me dispensa. Diz que com minha cara semelhante à de Frankenstein vou assustar os demais funcionários e clientes. Valho-me de eufemismo e considero isso um ato de solidariedade.

Quando, de forma involuntária, a gente mergulha num abismo literal, são raras, mas algumas visitas nos dão o ar de sua graça. Duas meninas. Duas amigas. Uma delas mais amiga. Não gosto dos olhares de dó sobre mim. Eles me fazem sentir pena de mim também. Passo a mão no olho esquerdo de forma intensamente furtiva para que não percebam que enxugo uma lágrima. “Juízo. Cuide-se. Nós gostamos de você.” Conversas consoladoras costumam terminar assim. É horrível a sensação de solidão que se apodera da gente se quem oferece um abraço de conforto a seguir se vai e nos deixa em companhia de quatro paredes.

Enquanto tenho o atestado de convalescência, apresento-me em alguns bares. Os ferimentos cicatrizam. A mágoa, não. Mas os remédios não são tão necessários a ponto de o álcool ser dispensado. Não bebo no bar do Jota desde o dia em que a mulher com migalhas de vaidade insurgiu contra mim. Ao entrar no recinto percebi que ela se achava aparentemente feliz. Jogava sinuca, bebia cerveja no bico da garrafa, colocava a garrafa no chão, engraçava-se a simular um som de axé, sentava-se no colo de homens com odor de pinga e fumo e ria, ria muito.

Eu já havia sofrido preconceito racial, mas não de forma tão escancarada. Quando a mulher dizia com orgulho que era fluminense, que nascera na cidade do rio de janeiro, glosava a minha ignorância e a dos demais frequentadores que ali se achavam, mas ao falar olhava diretamente mais em minha direção. Sua alegria e entusiasmo duraram até o dinheiro se acabar e ela começar a procurar alguém para lhe pagar mais bebidas. Ímã de forças negativas, eu mereço.

“Ô israelita!” voz dela, em tom bem alto.  Fingi não entender, fingi que não era comigo. “Ô israelita!” ela insistiu. Levantou-se da mesa do canto do bar onde se achava. A saia muito curta mostrava as pernas brancas estriadas. Uma blusa transparente mostrava seus seios flácidos com algumas gotas de suor escorrendo no colo. Um ar de baronesa, um ar de intolerância. Meu alvo maior de observação não foi o chapéu de coco que ela usava. Nem os óculos escuros, sem lugar para a tarde que já tinha mesmo postes de luz acesos.

Um toque no meu braço. Senti o hálito. Nada bom. “Ô, você é feio como um israelita, mas deve ter dinheiro para me pagar alguns copos de cerveja!” era comigo. “Dona, já lhe disseram que a senhora tem uma prosa muito ruim?” Misto de perua e pavoa, ela se exaltou um pouco mais que quando falava de suas origens. “Nunca fui tão humilhada em toda minha vida, ainda mais por um israelita fedorento!” Com uma bola de sinuca e uma garrafa na mão teve de ser contida pelo Jota para não me agredir fisicamente. Ele a mandou embora do bar e ela, ao sair, gritava: “Israelita de merda! Israelita de merda!”

Agora, aqui, na sexta garrafa de cerveja, penso que, às vezes, o que resta a alguém sem a grande sorte de ter o direito de ir e vir, sem ser perturbado, alguém que vive à mercê de preconceitos vários, é brindar à infelicidade. “Saia da mesa, quem é covarde!”


***


Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Ilustrações: Vinícius Ribeiro (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

sábado, 2 de abril de 2016

O mundo me tornou egoísta e mau


Perdi o emprego.

Briguei com a mãe.

Preciso recuperar, na escrita, o frescor das cartas.

Perdoar o cão que me morde os calcanhares. Oferecer-lhe comida.

Levei meu amor para passear na beira do rio e na beira do rio o amor se acabou.

O pai me abandonou antes mesmo de.

Falar “a-mor” pode destruir o nascituro.

Decepam-me pernas, braços, repartem meu tronco em dois: consigo salvar a cabeça.

A vizinha morreu engasgada de silêncio. No porteiro, silêncio virou câncer. No caso da vizinha, enfiaram-lhe inutilmente o dedo na garganta na tentativa de alcançar o bolo, entupiram-na de farinha. No caso do porteiro, sonda vasculhou, vasculhou, vasculhou, mas não encontrou o tumor.

Finalmente recebi salário que não foi suficiente para quatro meses de atrasos.

É tudo questão de elaborar um discurso. Se não há palavra que denuncia angústia, não há angústia. Se não há palavra que avisa: de-ses-pe-ro. Se há apenas silêncio, ninguém entende nada.

O único alívio foi ter me livrado do carro. Aquele objeto enorme parado. Pegava chuva. Gerava impostos. Oxidava. Desenvolvi fobia a carro. Imagine acordar todos os dias pela manhã e ver aquele objeto ali.

Outro amor: o tipo de amor que não pode dar certo na luz da manhã.

Nada mais me comove tanto. Reencontrar amigos, não. Ganhar presentes raros, não. Conquistar objetivo por muito tempo almejado. Nada.

Desperdiçamos os blues do Djavan.

Desenvolvo um grau de mediunidade que me torna cada vez mais avesso a pessoas e lugares. Sinto a energia das coisas. E senti-la cada vez mais nitidamente significa não entrar, não abrir aquela porta, não voltar lá, esquecer, esquecer. Perder amigos. Cada vez mais insondável.

Não acredito na redenção pela literatura. Recuperar o frescor das cartas talvez não adiante de nada.

A mãe envelheceu. Sua pele não está mais uniforme. Não é o tempo, cansaço chegou antes. O rosto do pai, porém, ainda é a mesma distância. Nunca se aproximou para eu ver.

Mais um amigo se suicida. Dessa vez, uma amiga trans. Tomou remédios, pulou da janela. A última lembrança que tenho dela é a imagem de seus passos rápidos, cabeça baixa, olhar delirante, pela rua. Do outro lado da via, ela parecia cada vez mais perturbada. Não atravessei o asfalto para lhe perguntar se estava tudo bem, se eu poderia. Minhas perturbações, também eu as carregava. Sua cabeça baixa, seu olhar delirante também eram meus – motivações distintas. Quando soube da notícia, era manhã, tomava leite com achocolatado, comia uns biscoitos, ouvia Nara Leão. No prato, um último biscoito sobrou – ainda sobra. Nara cantava para ninguém.

Perante a vida, todos nós fracassamos.

Somos o acúmulo dos nossos mortos.

E minha poesia é um vício triste/ que faço tudo por abafar.


***


Douglas de Oliveira Tomaz, nascido em 1993, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, recebeu uma menção honrosa no concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi), edição 2013, e possui textos seus publicados pela Revista Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Em 2015, lançou de modo artesanal seu primeiro livro de poemas: Escorre. Atualmente, reside em Belo Horizonte.

Ilustração: Vinícius Ribeiro (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Segredo sem valor



Passarinho na árvore parece pensar, pois tudo é silêncio então. Alguém podia até dizer algo agora. Então. Agora. Parecemos nos repetir. Quantas cartas você me escreveu? Não lembro. Também não lembro qual de nós dois escreveu a última. Sem honra ao mérito. Sem demérito. Que as melhores impressões, atitudes e momentos fiquem gravados no cofre inviolável da alma. Por falar nisso, aquela carta sua com o cheiro de seu perfume do Boticário, recebida bem nos instantes em que eu ouvia Glory of Love, do Peter Cetera, um som comovente para mim, foi algo muito bom.

Você viu meu nome numa página repleta de nomes de pessoas com desejo de trocar correspondências e escreveu para mim. Eu trocava correspondência com outras pessoas. Sabe, acho que foi assim que tomei gosto por escrever. Eu trocava correspondência com outras pessoas, mas com você havia um clima diferente. Eu percebia calor nas suas cartas, nas suas palavras. Quantas vezes tento encontrar seu nome em um possível endereço eletrônico nas redes sociais! Anseio saber se consegui chegar, no mínimo, ao status de lembrança para você, sumida.

Dizem que numa amizade sincera não devem existir segredos. Entretanto, gostaria de abrir mão do direito de um que guardei escondido de você. Talvez já o tivesse confessado se tivesse logrado êxito em contatá-la. Engraçado. Pensei no trecho do poema Navio Negreiro, do Castro Alves: “Lucimara, onde está que não responde? Em que mundo você se esconde?”

Sabe que sou meio pateta e tenho uma facilidade danada para cair no poço da comicidade. Aquela vez em que nos encontramos no Terminal Rodoviário de Guarulhos e bastou que houvesse um tímido aglomerar de transeuntes para eu me perder de você não sai da minha cabeça oca. Aquela bagagem que eu deixara perto de você quando saí para comprar um litro de água mineral – época em que me preocupava com hidratação.

Sabe, há um longo tempo, aprendi a beber. Há um longo tempo, parei de fumar. Pois é, naquele dia, você via de longe meu estado de aflição, ria quase histericamente, eu quase chorava. Gostei de conhecer sua família, seus pais, irmãos... Não me senti confortável foi com os comentários feitos acerca de meu mineirês. Nem de ficar sabendo que vocês se divertiam com os adesivos de bandas de rock e letras de músicas irreverentes que eu colava nos envelopes das cartas que lhe enviava. No mais, fui muito bem tratado por vocês.

Mudando de assunto, havia em você uma forma coesa e coerente de separar as coisas que impossibilitou que nos enamorássemos. Vejo isso positivamente hoje. Mesmo que alguns amigos meus me dissessem: “Você está dando mole. A menina está afim de você.” Bem. Vou imaginar que não saiu de sua memória o verso Longe é um lugar que não existe, do Richard Bach, também título do livro com o qual lhe presenteei àquela véspera de seu aniversário.

Você se encontrava doente. Eu queria lhe dar uma boneca de pano de presente, mas, para variar, estava quase sem dinheiro, e a que eu tinha visto, com muita cobiça, numa loja de artesanato, era linda, mas muito cara. Em tal ocasião, passei perto de uma livraria e entrei. Perguntei ao vendedor se ali havia algum livro bom para presente que não custasse muito caro. Ele me mostrou alguns em promoção e entre eles o Longe é um lugar que não existe. Me falou do livro, mas eu, avoado demais, nem prestei atenção. Comprei. Pedi para embrulhar com papel de presente, enviei-o por Sedex para você.

Você fez questão de telefonar para o nº que eu lhe havia passado, por não ter telefone em casa, do escritório da fábrica, onde eu trabalhava, para me agradecer. “Valeu, pelo livro. Amei. Que lindo. Era o que eu precisava para melhorar o astral de enferma.” E continuou a tecer comentários muito elogiosos sobre o livro e sua temática em si. Eu monossilabava, fingia estar ciente do texto presente no objeto em foco. “Sim... É... Hum, hum...”

Aqui, eis o segredo: com você aprendi que devemos ler um livro antes se pretendemos dá-lo de presente a alguém.


***


Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Ilustrações: Vinícius Ribeiro (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

"Fotografo porque busco a mudança do mundo", Danilo Nascimento

Foto: Davi

Danilo Nascimento aprendeu a fotografar vendo o pôr do sol, o Rio São Francisco. E, hoje, seu amadurecimento profissional também flui naturalmente. Captar uma imagem é trocar energia com o objeto captado. Fotografia se transforma em história.

Radicado em Belo Horizonte – mas ainda fortemente ligado a sua raiz, Pirapora –, nesta entrevista, Danilo submerge aos níveis profundos de seu ofício: o aprendizado trocado entre espaço, indivíduo e fotografia; a dimensão política; suas origens; a perspectiva, materializada em imagem, de quem mora longe do lugar que ama; a compreensão de que o fotógrafo é testemunha do seu lugar e do seu tempo. Deste mergulho, ele emerge para apontar a necessidade de mudança. A fotografia pode transformar o mundo.


Danilo, a fotografia captura instantes. O que apenas um instante revela sobre o lugar, sobre a pessoa fotografada?

A fotografia tida como um instante congelado no tempo sempre revela um conjunto de sentimentos e energia trocados entre o objeto (lugar ou a pessoa) e eu. Por isso cada imagem revela a minha energia pessoal em interação com a energia do objeto fotografado. Se não estivermos em sintonia, provavelmente não teremos boas fotos.


Você tanto se dedica à captura de imagens que acontecem por si mesmas, as imagens espontâneas, quanto à captura de imagens manipuladas pelo seu olhar. O que te dá mais prazer em fotografar? Quais as diferenças?

As imagens espontâneas são as mais interessantes e as que mais gosto de fazer. Tenho um projeto chamado Citadino que tem essa proposta de observar as relações pessoais no meio urbano sem pré-conceitos e julgamentos, como alguém que está invisível e inserido nesse meio sem ser notado, não influenciando em nada. Esse trabalho é um dos que mais tenho me dedicado no momento. A diferença entre a fotografia espontânea e aquela em que podemos manipular o objeto fotografado (retrato, em caso de pessoas) está na beleza do inesperado. Quando as pessoas sabem que são fotografadas, elas se preparam para o retrato, então já não são naturais. Entretanto, quando elas não sabem da foto, a ação natural prevalece, revelando a magia da ação espontânea.



Da série Citadino


O que te despertou para a fotografia?

A beleza da natureza despertou a fotografia em mim. A vontade de eternizar cada imagem bela que se forma nos fenômenos naturais. Sempre gostei de fotografar paisagens, em especial, pores do sol. A fotografia surgiu como uma fuga do estresse.


E hoje, por que ainda fotografa?

A motivação já é outra, não é somente um refúgio. Tenho um compromisso em tornar melhor o universo em que vivo. Busco impactar as pessoas com minhas fotos, ora pela simples beleza de uma imagem, ora pelo incômodo de temas polêmicos que tiram a mente dos espectadores do conforto de uma falsa sensação de que apenas pela fé podemos tornar o mundo melhor e que tudo pode ser revertido quando quisermos. Fotografo ainda hoje porque eu busco a mudança do mundo, e se eu conseguir acender uma pequena centelha no pensamento crítico das pessoas com minhas fotos, já estarei satisfeito. Outro motivo que me mantém nessa jornada é que tenho recebido mensagens de pessoas que passaram a admirar mais a arte depois que passei a publicar meus trabalhos. Isso me mantém querendo aprimorar meus conhecimentos, minha visão, minhas técnicas e, consequentemente, todas as histórias que conto nas minhas fotos. 


Você disse que fotografa para transformar o mundo. O quão transformadora pode ser uma imagem?

A fotografia, assim como todos os tipos de arte, tem o poder de transmitir emoção às pessoas, sendo prazer ou incômodo. A fotografia, por si só, traz um conceito intrínseco, à primeira vista é possível ver a realidade, mas o conceito só aparece quando a imagem é esmiuçada pelo alinhamento olho, cérebro, coração. Gosto sempre de relacionar minhas fotos com algum contexto, conceito ou frase que exprima meus sentimentos no momento em que fiz a imagem. As pessoas são sensíveis, se conectam facilmente com a arte e são tocadas, os pensamentos e atitudes podem ser modificados.


Seu pai já foi pescador e até hoje mantém uma forte ligação com o Rio São Francisco. Você produz ensaios sobre a cultura barranqueira, como o excepcional Poesia e Sugestão. O que interliga esses dois fatos?

Meu pai me ensinou a respeitar a natureza e as pessoas, ele é meu mestre. Eu, como um bom discípulo, sigo os ensinamentos dele, construindo meu próprio caminho e respeitando os valores ensinados. Por isso, tenho essa forte ligação com o Rio São Francisco, pois nasci e vivi como barranqueiro. Hoje sofro com os maus tratos que a natureza vem sofrendo, em especial, o nosso Velho Chico, pois me sinto como se fosse parte dele.

O ensaio Poesia e Sugestão foi muito especial, pois envolveu um contexto literário totalmente engajado à história da modelo e pude contar com a participação da Prof. Bethânia Passos na elaboração do conceito. Além disso, conseguimos encaixar dois elementos que são marcantes para mim, pôr do sol e o Rio São Francisco. O fato é que estou mais inspirado quando estou no ambiente barranqueiro.





Do ensaio Poesia e Sugestão


Atualmente, você vive em Belo Horizonte. Como é Pirapora vista de longe? O que você aprende com a distância?

Pirapora vista de longe é saudade, é vontade de retornar e de poder trabalhar para cuidar dessa terra que sofre com o descuido de políticos. Quando não estamos inseridos diretamente em uma situação e apenas a observamos de longe, temos uma percepção diferente, não melhor, nem pior, apenas diferente. Estando de fora, eu valorizo mais as belezas naturais e enxergo algumas oportunidades de melhoria na cidade que fariam muita diferença na vida dos barranqueiros.


Quais as melhorias mais urgentes?

Vou citar três pontos críticos que enxergo com clareza e que necessitam de uma atenção especial. Primeiramente, a Ponte Marechal Hermes, que é maravilhosa, um patrimônio tombado, e se encontra em uma situação deplorável. Há alguns anos, se não me engano 24 de dezembro de 2012, uma criança caiu entre as tábuas da ponte e morreu. Poderia acontecer com qualquer um de nós. Além disso, os apoios da ponte, assim como toda sua estrutura estão comprometidos pela oxidação, sem falar na iluminação precária.

Outro ponto é o próprio Rio São Francisco. Qualquer um que viveu a sua beira pode perceber a mudança para pior. Diversas ilhas estão se formando e a margem está avançando sobre o leito do rio. O assoreamento está aumentando, há muito lixo e o canal que passa no Barreiro, também passa no Saae, mas deságua no Rio sem nenhum tipo de tratamento. O Rio é responsabilidade de todos e devemos cobrar que seja cuidado.

Por fim, o desenvolvimento urbano. Percebo que Pirapora teve uma pequena evolução desde que saí de lá, mas o crescimento poderia ter sido bem maior. Tenho muita vontade de voltar, mas não posso contar com isso, sabendo que não tem um mercado de trabalho que possa me absorver. Pirapora tem muitos artistas e existem duas opções para eles: ou se jogam no mundo ou vão morrer sem nem mesmo serem vistos pelos seus próprios conterrâneos.


Qual é a sua melhor fotografia?

É difícil falar em melhor fotografia, mas uma das que mais gosto é esta:


Eu não tinha pretensão de ser fotógrafo profissional quando a fiz, assim como outras fotos de que gosto muito. Essa fotografia me dá a sensação de ser o próprio Rio.



***

Entrevista: Douglas de Oliveira Tomaz.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Sertão Urbano



Aqui no mato
Vai ocupando o concreto
Os bichos pastam
Onde há de haver mais prédios
Condomínios que prometem
O prazer do mato dentro da cidade
Mato dá prazer
Mato dá prazer
Mato dá prazer

- Salma Jô e Macloys (Carne Doce)


Mayana abre uma das sacolas repousadas no banco do carona, retira dois pacotinhos de jujuba, abre-os. Enfia na boca três jujubas de uma vez. Inspira, prende o ar por uns segundos, depois solta. Repete o movimento. Quando as três jujubas se dissolvem, repõe mais três: laranja, morango, uva. Inspira, prende, solta. Após repetir o ciclo respiratório por vinte vezes, já não cabem três jujubas na boca, apenas duas. O açúcar já começara a fechar sua garganta. Meditando, calcula que na sexagésima vez não haverá espaço para nenhuma. Nenhuma.

A buzina incessante dos veículos ao redor a retira do transe. Interrompe a meditação e, remexendo em outras sacolas, retira dois cedês recém-comprados. Duas bandas novas, totalmente desconhecidas. Abre com dificuldade o plástico do primeiro, retira o encarte, tenta ler as letras. Mas a buzina incessante. Desiste. Passa do lado de fora uma moto apressada que quase arranca seu retrovisor direito. Mayana inspira, prende o ar por uns segundos, depois solta. Retira o cedê, insere-o no som do carro. Deixa tocar a primeira música. Tenta acompanhar a letra. Sorri para alguns versos engraçadinhos. Após um minuto e uns segundos quebrados, retira o cedê, guarda-o no porta-luvas junto com o outro, ainda plastificado. Insere o pen-drive.

Interrompe as jujubas. Retira de outra sacola uma barra de chocolate branco. Destaca três gomos, mas, desta vez, espera o primeiro começar a se dissolver para ingerir o segundo. No fim do terceiro, bebe um longo gole d´agua. Está pronta para mais três gomos. Sem culpa.

Um homem calvo desce do carro parado à esquerda. Posiciona uma das mãos acima dos olhos, tenta alcançar o fim do congestionamento. Não alcança. Xinga, bate com a mesma mão em cima do capô, vai até o volante, aperta insistentemente a buzina. Xinga outra vez, desta vez mais alto, palavrão novo. Encosta na lateral, grita algo ao jovem sarado à frente, que já esperava do lado de fora. Os dois levantam os braços para o alto, como orangotangos.

No fim do sexto gomo de chocolate, após beber mais um gole d´agua, Mayana vê passar um cavalo branco encardido pelo lado direito. Repousa a garrafa no banco do carona, franze a testa, observa. Atrás do primeiro, surgem mais dois cavalos, um marrom e outro negro; passam correndo. Pelo lado esquerdo, surgem quatro: malhado, amarelo, marrom de tom mais escuro e outro de tom mais claro. O homem calvo e o jovem sarado interrompem a discussão e entram assustados nos carros. Fecham os vidros.

Os cavalos costuram o trânsito congestionado. Alguns param, encostam seus focinhos nos vidros, assombram as pessoas, depois saem. Outros parecem perdidos: correm, param, retrocedem, trotam de um lado a outro da mesma via. Surgem mais oito, Mayana conta. Finalmente, olha para trás e vê que corre em sua direção um número de cavalos equivalente aos carros parados. Olha outra vez para frente, empurra fortemente suas costas contra o banco, coloca o cinto de segurança. Não há mais ninguém do lado de fora, exceto os motociclistas, que não têm onde se esconder.

Os animais rodeiam seu carro de modo que ela só vê os veículos pelas frestas. Ninguém mais buzina. Mayana prende a respiração. Demora soltar. Inspira pouco. Suas mãos apertam o volante, seu pé direito involuntariamente pisa o acelerador, como se fosse arrancar por cima do congestionamento. Quando um cavalo marrom e branco tromba na lateral esquerda do seu carro, balançando-o, ela pisa fundo. Nada muda.

Ao passarem – alguns correndo, outros trotando, todos perdidos –, os cavalos quebram vários retrovisores. Dois começam a brigar atrás do carro de Mayana. Ela ainda consegue ouvir os relinchos, apesar de ter aumentado o volume do som, que somente toca músicas conhecidas. Para conter a ansiedade, sua psiquiatra receitou: não ouvir músicas novas em momentos de pavor. Um cavalo cinza de crina preta sobe em cima de um carro prateado. Amassa-o. No alto, olha para frente por uns minutos, sem qualquer outra movimentação. Olha.  Os donos do veículo somente não saem, porque não há como fugir: cavalos se espremem por entre os carros. E tudo ao redor é cavalo.

Num movimento coordenado, o cinza de crina preta desce do carro prateado, os dois que brigavam interrompem a briga e seguem. Aqueles que se debatiam de um lado a outro da via encontram o norte, olham para lá, vão sem pressa. Como que coreografados, os cavalos todos encontram a direção e se movimentam para o fim da avenida, fim do congestionamento. Mayana olha novamente para trás e vê o número de animais diminuir. Entre eles, lá no fundo, vê um farol de moto seguindo-os. Ao se aproximarem, distingue um homem de pele queimada em cima da moto, com o capacete levantado na cabeça, sorrindo. Por vezes, fica em pé na motocicleta em movimento, levanta um dos braços e grita algo. Ele e os cavalos seguem.

À medida que passam, as pessoas atrás deles, livres dos bichos, descem dos veículos e olham também para frente, algumas fotografam. De um ônibus escolar desce uma multidão de crianças uniformizadas. Elas pulam, batem palmas, soltam gritos, dizem umas para as outras o que é aquilo. Mayana, ainda sem entender, abre o vidro do lado direito para ver passar, agora sem perigo, os últimos cavalos e o motoqueiro. Quando passam por ela, um pouco mais a frente, o homem se levanta outra vez na moto, retira o capacete, levanta-o com o braço direito e, num fôlego prolongado, grita: arreia!

Mayana não desce do carro como os outros, mas permanece olhando. Só desvia o olhar para a esquerda quando vê descer o homem calvo que, também vidrado, enxuga lágrimas do rosto. Ele vai até o jovem sarado no carro da frente, passa o braço em seu ombro, gritam juntos o canto do motociclista. Mayana fecha novamente o vidro. Remexe nas sacolas do banco do carona, retira de uma delas um livro editado pela Cosac. Tinha decidido ir ao shopping comprar logo uma boa quantidade antes que tudo acabe. Antes de abrir o livro, porém, olha para frente e vê ainda o motoqueiro sumir rodeado pelos últimos cavalos no horizonte sem fim de carros. Não é mais possível ver para onde seguem. Volta-se ao livro, abre num poema que começa: Um enorme rabo de baleia/ cruzaria a sala neste momento(...).



***



Douglas de Oliveira Tomaz, nascido em 1993, é autor do blog pessoal www.abrigosdevagabundo.blogspot.com.br, recebeu uma menção honrosa no concurso literário do Clube de Escritores de Ipatinga – MG (Clesi), edição 2013, e possui textos seus publicados pela Revista Jangada e Conhecimento Prático - Literatura. Em 2015, lançou de modo artesanal seu primeiro livro de poemas: Escorre. Atualmente, reside em Pirapora - Minas Gerais.


Ilustração: Vinícius Ribeiro (http://pensamentoilustrado.tumblr.com/)

sábado, 16 de janeiro de 2016

Abre a boca, bem grande!


Ato a que me aferro. Escrever. Já senti mais prazer, sim. Atualmente, tenho achado insosso, osso descarnado cozido em água pura. Um tempo sem álcool no organismo e o cérebro funciona melhor, os pensamentos são passíveis de tratamento de um exército obediente. Além do mais, os alimentos perdem o seu caráter de pão com bolor.

Penso nestas sandices enquanto descasco uma enorme manga Sabina, corto-a em pedaços que coloco em um prato com um pouco de sal. Mastigo. Termino de comer. Alguns fiapos me entram nos buracos de um dos dentes superiores do lado esquerdo da boca. Começo um processo de sucção com a língua no inoportuno. O ruído provocado me incomoda. Parece o sugador de água e saliva do consultório dentário da Doutora Elisa Nunes. “Ai, pai! Para com esse barulho chato de chupar o dente! Que nojo!” Minha filha não está agora. Só imagino ouvir sua voz.

Este ano não frequentei a dentista, a expert em proferir palavras que afagam os tímpanos; mesmo. Um paradoxo, em relação ao motor desordeiro, que ela manipula, com destreza, ao tratar meus dentes, em petição de miséria; o torturante processo de extinção de cáries e afins. As incontáveis prestações do orçamento não facilitam muito, mas, pronto: estou no consultório. Sempre que me deito na poltrona reclinável, lembro que, depois de tanto tempo como cliente de Elisa, ainda não sei a cor dos olhos dela. Penso: será que os outros clientes também se sentem pouco à vontade para olhar nos olhos da dentista? Desde quando isso?

Desde a vez em que caí de borco no refugo cortante de cristal, no asfalto. Então, minha boca se encheu de sangue. Meus dentes já não são mais os mesmos. A origem da queda? Jair era da minha sala no tempo de escola. Um moleque forte, quase gordo, misto de mulato e sarará, cabelo crespo, geralmente cortado baixo, com dois destaques em seus caracteres: 1) – O nariz muito chato, com duas enormes crateras. 2) – A bunda muito grande. Percebia-se até certa dificuldade em ele carregá-la. Os shorts velhos, de náilon, que não lhe puderam acompanhar o crescimento, entrando-lhe no rego fundo da bunda; todo tempo, ele a levar a mão ao cu para retirá-los. Gostávamos de troçar um do outro, mas quando eu era gozado nunca reagia às gozações com agressividade.

Dia em que voltávamos da escola, pedi-lhe para ver a caderneta que ele trazia na mão. Ele a abriu e me mostrou, de longe. Vi muitos vermelhos, quase tantos quanto a cor da capa da caderneta de plástico. Eu queria ver o objeto de perto e mais: mostrá-lo aos nossos colegas para que pudéssemos dar boas risadas. Arranquei a caderneta da mão do Jair. Corri. Ele correu-me atrás, passou-me uma rasteira. Dói muito, só de lembrar. Meu instinto era o da reação, mas a única coisa que consegui foi me levantar do chão, manco, a camisa branca suja de cristal moído e quase toda manchada de sangue. Calculo que devo ter cuspido uns quatros dentes. Vi-o pegar a caderneta, enquanto olhava para mim, com fúria e desprezo. “Aprenda a não ser sacana.”

Outras vezes entramos em atrito. Brigávamos pelos motivos mais banais, como por causa do MDB e da Arena. Eu era Tancredo, ele, ofuscado pelo helicóptero vermelho e branco que numa tarde insólita sobrevoara Curvelo, era Eliseu Resende. Até decorávamos as paródias feitas em prol do engrandecimento dos nomes dos candidatos em pé-de-campanha. Nós as cantávamos, em estado de graça e troça. Enervávamo-nos, sem nem idade para votar, influenciados pelas escolhas eleitorais de nossos parentes adultos.

A vez da pelada, por exemplo. O Jair, apelidado pela molecada de Blau-Blau, por se parecer com um urso, me chutou quando lhe dei uma caneta, digo, passei-lhe a bola enorme de couro, por entre as pernas. Chutei-lhe também. Ele me deu um murro no peito, quase desmaiei. Tentei partir para cima dele, mas o ânimo arrefeceu com a saraivada de socos desferidos pelo urso em mim. Fui salvo pelo Careca, um companheiro, bem maior, que jogava no meu time. Caso contrário, certamente teria sido morto.

Fiquei um bom tempo sem me envolver com o Jair, o Blau-Blau, o diabo, até antes da adolescência. Moleques não têm muita vergonha na cara, esquecem, fácil, as mágoas. Fomos, aos poucos, nos reaproximando, até irmos garimpar cristal no terreno da Estrela. Presentes: Jair, meu irmão Rock e eu. Cada um de nós acabou agraciado com a sorte de encontrar um veio dos bons. Porém, ao passarmos a cavar, a tirar belas pedras de cristal, em formas de pirâmides e ovais, do chão encascalhado, precipitou-se, sobre nós, uma bruta tempestade. Chuva de granizo e vento.

Pegamos pás, picaretas e nossos sacos de cristal, relativamente pesados. Ao chegarmos à margem do ribeirão, no caminho de volta...  Melhor, num atalho, o rio se enchera, quase tornara submersa a frágil pinguela. Fui o primeiro a tentar cruzá-lo, mas a pinguela balançava demais. Caí, com saco de cristal, pá e picareta, na água barrenta. Tentei segurar ao menos o fruto do meu trabalho mais pá e picareta, em vão. Quase arrastado pela violenta correnteza, tive de me agarrar, de forma desesperada, a uma touceira de capim. Atravessei o rio. Do outro lado, meus pés afundavam na lama. Que tristeza! “Abre a boca, bem grande!” Meu irmão e Jair atravessaram a pinguela, sem dificuldades.

No caminho, enquanto caminhávamos, combinamos voltar aos veios de cristal, no dia seguinte. Mais ou menos no mesmo horário em que fôramos garimpar, no dia anterior, passamos na casa do Jair. Ainda era cedo. Chamamos, chamamos, chamamos e ninguém atendeu. “Vamos. Aquele preguiçoso que se lasque, deve estar dormindo.” E fomos. O caminho. Longo. O monte de mato. “É de bom tom ter um jiló no bolso ao ir pro mato. Cobra nem beira.” Mitos de minha mãe. “Talvez eu tenha de aplicar anestesia ao tratar este; se doer, levante a mão.” Ao chegarmos ao local de destino, encontramos os veios de cristal todos cavados, revirados. Que frustração! Que vontade de chorar! “Já está acabando. Você é muito valente. Aguentar, sem anestesia, sem reclamar de dor.”

Encontramos o Jair, dois dias após, um cigarro, fazendo verter fumaça pelos buracos do nariz, que então parecia duas grandes chaminés de forno de fábrica de tecido. Vontade de espancá-lo. A cara de mau o fazia parecer mais feio do que era. Vontade de lhe amassar, ainda mais, o nariz achatado. “Fui lá, nos veios, de madrugada, de bicicleta. Foi a vez que tirei mais cristal da minha vida.” Suspirou, olhou ao redor, desconfiado, provavelmente nos julgando uma ameaça. “E aí, apelaram? Vambora resolver no braço?” Jair tinha ao seu lado uma picareta, a força, a ignorância, além do meu trauma dos dentes quebrados pela rasteira dele, na infância. Jogamos fora a briga. Guardamos o ódio. Sentimentos de ódio e vingança são semelhantes ao amor: são infinitos enquanto duram. “Pronto. Acabamos. Pode cuspir. Depois, vou pedir à secretária para marcar sua próxima consulta.”


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Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).


Ilustrações: Vinícius Ribeiro http://pensamentoilustrado.tumblr.com/

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Literatura marginal? por Edson Lopes


Por estar à margem do circuito editorial estabelecido, nos anos 70, pelo menos até 1975 – quando, a partir dali, passou a ser aceita por grandes editoras como a Brasiliense –, houve em nosso país uma poesia denominada Poesia Marginal. Tal poesia era escrita e distribuída aos leitores através do mimeógrafo.

Em certos termos, quase técnicos, hoje, a Poesia Marginal habita a literatura produzida por escritores considerados menores, no mais amplo espectro da palavra. Claro, que o universo marginal literário habitado apresenta-se, também, em prosa. Os escritores e poetas desta vertente são ignorados, a tal ponto, pela mídia, que mergulham no status não grato da marginalidade.

Pode-se perceber tal situação, de uma forma mais prática, passando um texto de autores como os supracitados a maus leitores, àqueles que leem muito – existem tantos! – e se for dito a eles que a condição dos autores é a de insurgentes, e, mesmo que os textos lhes agradem, esses leitores bocejarão, de forma forçada, após a leitura. O liame temporal é imenso, mas vou citá-lo: não é keating, nem Paulo Coelho. 

Em outros termos, talvez um pouco mais diretos, a marginal é a literatura que se ocupa das coisas, da flora, da fauna racional e irracional, é a que o sistema se esforça em tornar inexistente, mesmo quando esbarra nos raros momentos em que se vê forçada a fazer média com a populaça, seu termômetro, sem querer, sem querer. Aí, ai, ai, ai, aponta o dedo indicador para jornais pingando sangue.

Penso que a tendência marginal mais recente na literatura brasileira, se é que se pode considerar música como literatura, apareceu nas letras punks, nos anos 80, quando a violência, o descaso, a revolta, principalmente a vinda do ABC paulista se recitou, se declamou. A coisa de denúncia distorcida é o som. O que se acentua, também, no Rap, com seus rasgos de um protesto mais contundente, com a favela como espaço, muita ironia. A alma humana se eterniza em sátira.

Incorporo a literatura marginal nos meus textos, sim. Mais notadamente nos livros Maremoto e Lusco-Fusco, há neles uma preocupação de minha parte em evidenciar um país corrompido, uma sociedade corrompida e um poeta sem entrada e sem saída além de lugares comuns, de ironias sutis demais para negar que qualquer uma das dores que um abjeto mortal sente é pequena demais para fazê-lo sangrar.


Antes que acabe:

Sou um tanto quanto pateticamente intransigente com relação a falar sobre literatura, em geral. Sempre que vou tomar umas cervejas com alguém que escreve, tento levar o assunto para o colo da literatura. Ultimamente, minhas expectativas têm se frustrado um pouco. Eu me faço de besta ao não deixar cair a ficha, cair na real de que ninguém vira um porco a pisotear pérolas se falar de outros temas que não sejam poesia. Gostar demais de determinado assunto, e sempre procurar dar-lhe ênfase, torna qualquer um muito chato.







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Edson Lopes é poeta, nasceu em Curvelo-MG, mora em Buritizeiro há 16 anos, onde foi professor de Literatura, quando existiu. Atualmente, é professor de Português e autor dos livros Alice no país da mesmice (2000), Historinhas integrais em prosa e verso (2015), além de ter participado das antologias Combustível, Metal e Poema (2011) e Antalogia Poética (2009).